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Um relato de quando eu fui abduzida

Um relato de quando eu fui abduzida.

Era pós carnaval no Brasil e a vida seguia. Completamente imersa a nova rotina, com direito a marmitas, metrô e caminhadas com mochila pesada em um sol de quase 40 graus (sim, exagerei, mas quem se importa com a temperatura exata quando o bigode já está suado e o corretivo está derretido?). Eu, com tanto trabalho dentro e fora de casa, mil projetos pessoais e profissionais, pensei que talvez devesse parar de escrever essa coluna, mas foi somente quando percebi que tinham me perguntado onde estava meu texto de março, depois o de abril, que cheia de ansiedade pensei:

  • Vou avisar a Ann, fundadora dessa plataforma, que não dá mais para manter a minha coluna, eu não consigo parar para escrever, não tenho tempo!

Mas, claro, quem não me lê que me compre, pois vocês sabem que antes de qualquer decisão, vem sempre um textão. Então é isso. Quero falar de mim, das minhas prioridades e das não prioridades que me engolem no dia a dia. Eu quero falar de ser mulher, de ser perdida, de ser louca, enfim, de ser eu.

Leia também: Vamos falar de felicidade?

Estou com a péssima mania de fazer tudo com agilidade, até o que posso fazer com bastante calma, pois penso que se faço rapidamente ganho mais tempo para fazer outras mil coisas. Não é ótima essa ideia?

  • Não, não é! No final acabo fazendo absolutamente tudo correndo e não aproveito nada.

Quando pensei em desistir da coluna logo me lembrei porque a escrevo. Escrevo porque só assim coloco tudo pra fora, porque quero contar pra alguém que queira ler, sei lá porque, tudo o que eu sinto, penso e faço. Escrevo porque me comunico melhor assim, e me comunico melhor ainda com estranhos. Hoje, se eu tivesse que me definir, se é que isso é possível, diria que sou a soma das palavras já escritas por mim.

  • Se me faz tão bem, então não deveria essa ser a minha prioridade?
  • Como dizem no mercado de comunicação: acho que tem boi na linha.

Sempre quando entro em uma rotina acabo sendo abduzida por ela e todo o resto vira detalhe. Não deixo de fazer nada que está na minha agenda adulta e responsável, mas de alguma maneira acabo sempre deixando de fazer a maioria das coisas leves, prazerosas e efêmeras por falta de tempo.

  • Mas como pode ser possível não ter tempo para ser leve e livre? Não ter tempo para não fazer nada ou para fazer por horas o que quer e não o que precisa? Não ter tempo para não responder mensagens e ligações e ficar irresponsavelmente fora do ar?

Mas eu posso apostar que quase todo mundo é assim. Amaria não fazer nada, dormir a tarde toda, ficar de papo pro ar, mas não conseguem. Trabalham, se exercitam e estudando durante a semana e, no final de semana que seria para descansar, acabam com um monte de pendência que não tiveram tempo de fazer durante a semana como arrumar a casa, adiantar um trabalho atrasado, ver material de construção para a reforma, levar o carro pra lavar, entre outros mil exemplos.

Acho que todas as manhãs deveríamos escrever uma lista de cinco coisas que gostaríamos de fazer naquele dia se fôssemos livres para fazer somente o que desejamos e, ao terminar, sair de casa com a missão de fazer pelo menos uma delas.

Foi assim, no meio dessa reflexão, que parei absolutamente tudo, entre uma reunião e outra, e escrevi, já atrasadíssima, essa coluna de abril.

  • Mas e os clientes?
  • E sua agenda?
  • E as entregas atrasadas?
  • E o WhatsApp que não parou por um segundo esperando sua resposta?
  • Estão todos respirando, estáveis e passando bem. Nenhum registro de morte, ferimento grave ou catástrofe. Me parece que a terra continua no seu eixo e nenhum dilúvio aconteceu.

De fato demorei muito para entender que controlo minha própria vida e, somente eu posso determinar o que é prioridade no meu dia. Não importa se me acharão folgada, incompetente ou relaxada, o que importa é que no final do dia eu gastei meu tempo de vida com algo que faz sentido para mim, com algo que me faz bem e não necessariamente deixei de cumprir com as minhas obrigações. Aliás, essas são duas coisas bem diferentes: não fazer o trabalho que lhe foi passado e fazer além do trabalho que lhe foi passado usando um tempo que deveria ser destinado para sua vida pessoal.

Ainda vejo muitos por ai enchendo o peito para dizer que estão correndo, que não conseguem fazer mais nada da vida, que são muito ocupados, mas hoje, com algumas marcas de expressão e manchas de sol a mais nesse rosto, já consigo perceber que esses não sabem nada sobre ser importante, afinal, importante mesmo é quando servimos com excelência e prontidão nossos únicos chefes: nós mesmos.

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7 comentários

Yasmim Federici Abril 9, 2018 at 9:00 pm

Adorei o texto!!! Sincero e bem realista.

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Johana Quintana Abril 10, 2018 at 2:01 pm

Obrigada, Yasmin! 🙂

Resposta
Cecíli Pinheiro - Pim Abril 10, 2018 at 2:39 pm

Joh… vc cresceu e me parece que se deu bem escrevendo. Adorei. Já era sua fã qdo vc era “pequena”, agora então!!!! Muito bom texto. Parabéns e VIVA nossos chefes!!!!

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Cecíli Pinheiro - Pim Abril 10, 2018 at 2:41 pm

Comi um “a” Cecília

Resposta
Johana Quintana Abril 10, 2018 at 5:27 pm

Pimmm, adorei receber essa mensagem! Saudade de vc!!!!
Sucesso para nós!!
Um beijo, Joh

Resposta
Amy-Carole Diene Abril 21, 2018 at 11:05 pm

Tava fazendo falta 🙂

Resposta
Johana Quintana Abril 23, 2018 at 12:22 pm

🙂

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