BrasileirasPeloMundo.com
China

Como você sabe que está adaptado morando na China?

Como você sabe que está adaptado morando na China? Bom, essa é uma pergunta um tanto quanto ampla. Muitas pessoas podem dar respostas evasivas do tipo: “eu vivo bem aqui”; “estou me esforçando para aprender mandarim” ou, ainda,  “já domino a arte de comer com os Kuaizi (chopsticks)”.

Claro que isso já é um bom começo, mas viver na China, ou em qualquer lugar do mundo, nos leva a adquirir hábitos locais, principalmente quando já estamos inseridos nesta sociedade há bastante tempo.

Embora seja muito difícil para qualquer estrangeiro ser comparado a um chinês nativo, a experiência definitivamente  pode mudar muitos dos nossos hábitos cotidianos, incluindo nossa visão de mundo, de urgências e necessidades básicas.

Mais do que hábitos locais, as coisas que aprendi morando fora do “meu quadrado” são indescritíveis e imensuráveis e não é a primeira vez que escrevo sobre esse tópico.

Dá mesma forma, alguns hábitos que trazemos “de casa”, já são tão enraizados que não conseguimos mudar. É inconsciente.

E quais são os fatos com que me deparo no meu dia a dia, que às vezes até me assustam, pois mostram o quanto estou adaptada à essa cultura?

Outro dia li uma matéria no China Daily, jornal chinês, que me fez pensar em alguns desses hábitos. Alguns já escrevi em outros artigos, como beber água quente, ter um outro sentido de urgência, a paciência muito mais cultivada, adquirir outro conceito de multidão e, principalmente, saber que  “nunca” é um lugar que não existe.

Claro que, apesar de hoje em dia não saber beber água fria (sempre tem que estar ao menos morna) e quase enlouquecer quando chego ao Brasil, pois a água quente não está disponível em cada esquina, ainda lembro exatamente da minha reação na primeira vez em que recebi um copo de água quente lá em Chang Chun.

Pois é… primeira lição de que nunca se deve dizer nunca!

Mas o que mais nos faz ter certeza de que a adaptação está em estado muito mais avançado do que pensamos estar?

  • Você adquire um nome em mandarim, e nem liga se as pessoas te chamam por ele. Se bem que o meu é o som fonético do meu nome ocidental, já que há uma rede imensa de padarias com o nome Christine, e a professora na universidade disse que era um nome muito bonito (obrigada, também acho!) e se pronuncia ‘Kelisting’ – só é ruim de escrever porque são 4 caracteres bem complicados.
  • Saber o signo do zodíaco chinês (o meu é dragão), bem como da minha família toda. E o mais engraçado é que hoje dou pouca atenção para meu signo ocidental (leão), seguindo mais as previsões e características do signo chinês. E olha que sempre fui muito ligada em zodíaco, mapa astral e tudo mais.
  • Raramente se preocupar com a segurança pessoal, mesmo a pé nas grandes cidades durante a noite. E ficar completamente em pânico quando tem que ir ao Brasil – muito triste isso, nem dá para se ter orgulho dessa situação.
  • Nem ligar mais para a “muvuca” que é uma visita ao Wal-Mart ou qualquer outro supermercado chinês, e ainda se divertir com a atmosfera animada.
  • Sorrir  automaticamente quando vê uma criança pequena e ficar feliz que já pode perguntar a idade ou o nome de um bebê em mandarim.
  • Ter entre sua lista de comidas prediletas pato, dumplings, arroz frito, porco e camarão agridoce e vegetais refogados. E quando sai da China, morre de saudades desses pratos.
  • Ter ao menos um filho que fale bem o chinês.
  • Andar com sua própria caneca térmica na bolsa para nunca faltar o chá ou a água quente.
  • Ter um teclado chinês no meu telefone (eu tenho dois, um que digita em pinyin e outro que se pode desenhar o caractere).
  • Achar que todos os preços são passíveis de pechincha e começar a discussão até obter o mínimo desconto.
  • Viajar o mundo com seu cartão “UnionPay” (bandeira chinesa para saque em caixa eletrônico e débito em conta). E agora, na China, usar o celular com o “wechat wallet” para pagar todas as compras do dia e as contas da casa.
  • Verificar as condições de poluição do ar (apesar de eu não ser neurótica com isso, pois não vai mudar nada na minha vida, só me desesperar).
  • Calcular, automaticamente, o valor das coisas em Renmenbie, quando estamos fora da China.
  • Usar a palavra “ganbei” quando alguém propõe um brinde e ‘meiwenti’ para dizer que não tem problema.
  • Ter sempre um estoque de envelopes vermelhos para dar dinheiro de presente e achar estranho entregar dinheiro fora desses envelopes.
  • Ter uma garrafa  de “Moutai” (baijiu) em casa, mesmo que seja para dizer o quanto é ruim essa bebida típica chinesa.
  • Não ter nenhum problema com toaletes no chão, que na verdade  são mais naturais e higiênicos (não vamos falar da limpeza dos banheiros, ok?).
  • Sempre ficar surpresa com o quão pouco o mundo sabe sobre a China.
  • Entender muito melhor a importância de amigos para sua vida ser possível aqui. E fazer coisas que jamais imaginou fazer se estivesse em sua cidade natal – como sair para passear no Bund de pijamas de bichos com as amigas!
Arquivo pessoal.
Arquivo pessoal.
  • Celebrar dois dias do Ano Novo, dois dias dos namorados, dois dias dos pais…
  • Ter um sentimento de cumplicidade quando se depara com outra pessoa não chinesa em qualquer lugar da China.
  • Ter conta no Baidu, YouKu, Taobao e WeiXin (wechat) e QQ (redes sociais chinesas).

Bom, eu até me assusto quando releio essa lista e vejo quantas coisas pude enumerar aqui. E acho que ainda tem mais, porém no momento em que escrevi o texto não me lembrei,  afinal, a gente incorpora as coisas e nem percebe o quanto elas estão presentes na nossa vida.

Na realidade, acho isso tudo a maior conquista de se viver fora do Brasil, porque o que temos arraigados, nossos valores, educação, não perdemos. É uma questão de somar, ganhar experiência e novos olhares sobre a vida.

Até a próxima!

 

Related posts

Asiático é Tudo Igual? A Inevitável Comparação

Tati Sato

China – Graduação do outro lado do mundo?

Christine Marote

Moda – Conceito e o mercado de luxo na China

Evelyn Pinheiro

15 comentários

Grasiela Martins Vicentini Outubro 14, 2016 at 7:25 pm

Muito bom o post, adorei saber um pouco da cultura chinesa. Aqui no Canada tbm já adquiri alguns costumes.

beijo

Resposta
Christine Marote Outubro 15, 2016 at 12:54 am

Olá Grasi,
Realmente é assim, cada país seus costumes e maneiras diferentes de encarar as coisas. E mesmo nos países ocidentais, as diferenças aparecem. Não tem jeito.
Abraço.

Resposta
Xiao Outubro 16, 2016 at 2:51 am

Muito legal ver a visão de uma brasileira na China.

Eu sou uma chinesa que vivo no Brasil há quase três anos e, mesmo com as dificuldades que temos no Brasil, eu amo esse lugar.

Sinto muita saudade da China mas já me sinto carioca rs

Resposta
Christine Marote Outubro 18, 2016 at 11:24 am

Olá Xiao!
Então somos duas, que trocamos e nos adaptamos!
Também amo viver na China. Estamos aqui há 9 anos. O único problema é a distância mesmo, que não nos ajuda a matar a saudades.
Abraço.

Resposta
Osmar Yang Outubro 18, 2016 at 6:40 pm

Ótimo texto, viver em outro país sempre enriquece! Calcular o preço das coisas em renminbi é boa hahaha, mas eu fazia isso com o euro também… abraços, 加油!

Resposta
Christine Marote Outubro 18, 2016 at 11:56 pm

Olá Osmar,
Obrigada pelo comentário. A gente sempre terá coisas a aprender saindo da nossa cidade. Acho que até mudando de estado no Brasil, isso acontece.
Abraço.

Resposta
Leonilda Kunst Outubro 19, 2016 at 8:49 am

Tambem estou no mesmo “barco”.
Fazem 10 anos que moro na China e tudo que voce descreveu, eu tambem sinto.
Aprendi a gostar de viver neste país de uma cultura fascinante,
aprendi a ver o mundo com outra visão.
Hoje estou morando, por um curto tempo, aqui na Irlanda, e posso dizer com toda certeza que prefiro mil vezes a China.

Resposta
Christine Marote Outubro 23, 2016 at 10:58 am

Olá Leonilda.
Obrigada pelo comentário.
Sim, a China é fascinante e nos cativa, por mais dificil que possa ser nossa adaptação.
E, veja só! Sabe que você não é a primeira pessoa que me diz, que por mais difícil que seja, depois que sai da China, percebe que quer voltar! rs
Abraço.

Resposta
Ana Paula Maraschin Outubro 19, 2016 at 2:21 pm

Adorei o texto, viver do outro lado do mundo nao e facil , Mas Se sentir em casa aqui nos Faz muito bem .

Resposta
Christine Marote Outubro 23, 2016 at 10:55 am

Olá Ana Paula,
Obrigada pelo comentário.
Sem sombra de dúvidas, temos que lutar para fazer nossa vida melhr onde quer que seja!
Abraço.

Resposta
felipe Novembro 29, 2016 at 7:06 pm

eu sou meio chines,e quero morar na china,me encantei com este post,e realmente quero ter um filho que fale mandarim,ter um desses teclados chineses,ja tenho conta no qzone(qq),e estou aprendendo o mandarim.

Resposta
Christine Marote Dezembro 2, 2016 at 12:24 am

Olá Felipe,
Então começe a buscar as alternativas para realizar seu sonho. Mas preste muita atenção, pois na China, a questão de visto para viver, ser residente, tem uma série de quesitos.
Abraço e boa sorte.

Resposta
Fernanda Gueiros Janeiro 24, 2018 at 5:16 am

Amei!
acho que posso me considerar quase adaptada!
Abraço!

Resposta
Christine Marote Janeiro 24, 2018 at 12:28 pm

Que bom, Fernanda!
Isso é um bom sinal.
Abraço,
Christine

Resposta
Leili Novembro 25, 2018 at 12:34 am

Procurando meios para realizar esse sonho. Enquanto o dia não chega, comecei 😭 a estudar mandarim.

Estudando Pinyin e as coisas mais necessárias o hànzì pq meu Deus… difícil! Quando conseguir falar algumas coisas tentarei adequar mais os logogramas.

Ps; Obrigada por reportar a sua experiência de vida aí na China.

Resposta

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Este site ou suas ferramentas de terceiros usam cookies Aceitar Consulte Mais Informação