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Au Pair Pelo Mundo China

Cuidado com o programa de Au Pair na China

Não creio que seja algo que faça os olhos de todo mundo brilhar, mas o oriente é definitivamente algo interessante, até para os menos interessados. Como eu vim parar aqui eu conto em seguida, mas vamos começar pelo básico e pela pergunta que recebo toda vez que me afirmo brasileira vivendo em terras chinesas: “Mas Tami, por quê ser Au Pair na China?”

A verdade nua e crua é que eu sou uma curiosa agressiva. Gosto de gente, de lugares, de histórias. Gosto de ver ao vivo e sempre tive um “quê” pela vida oriental. A oriental, a árabe, a africana e a japonesa. E foi com esse pensamento que decidi dar o passo mais louco de toda a minha trajetória como jovem mulher.

Em dezembro de 2017 eu enviei um vídeo para uma agência de Au Pair na China chamada Au Pair Shanghai. O Au Pair é aquele programa de intercâmbio que coloca meninas estrangeiras em host families (famílias de acolhimento) para um ano de cuidados com crianças em troca de uma experiência de vida e uma sucinta mesada.

Funciona assim: agência, vídeo, papelada e o tão sonhado match. Não é preciso pagar nada para a agência até que você realmente esteja na China com a família sã e salva. Que maravilha, né?

Dia qualquer, eram 6 da manhã pra mim e fim de tarde na China, recebi uma mensagem da agente me convidando para uma ligação com uma potencial host family. Acordei no susto e me conectei. O pai da família, Senhor Schuang, conversou comigo o tempo suficiente para percebemos que, com certeza, daríamos certo juntos. Eu seria Au Pair de duas meninas, Cindy e Karly de 5 e 10 anos respectivamente. O interesse foi imediato!

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Aceitei o acordo e comecei a contar os dias. Achava que tinha tirado a sorte grande, mas errei feio.
Eu embarquei 4 meses depois e fiquei exatos 28 dias como Au Pair na casa da família Schuang, sendo que desses 28 dias apenas 7 foram de extremo prazer.

Lembro bem de um momento onde eu me senti muito sortuda por estar ali, sentados no jardim da mansão da família, eu e o Senhor Schuang conversávamos sobre as férias de meio de ano e sobre qual seria o destino. Eu era parte da família e eles me levariam pra qualquer lugar.

Lembro-me também de uma noite que, depois de ter colocado as meninas pra dormir, ouvi meu anfitrião batendo na minha porta me chamando para comer hot pot (fondue chinês) no meio da madrugada. Tivemos bons e rápidos momentos.

E aí isso acabou. Comecei a viver pequenos pesadelos dentro da casa. Vi “minha” menina chorando na mesa de jantar enquanto a mãe gritava dizendo que ela já era muito gorda e devia parar de comer. Vi o pai gritar porque a menina queria comprar um shorts e a mãe não deixava ela mostrar as pernas gordinhas. Tive também o meu shorts censurado pela mãe porque minhas pernas eram grandes demais na visão dela. Aconteceu também do pai gritar comigo dizendo para não me meter na educação da filha enquanto minhas pernas não fossem menores. Depois veio um pedido de desculpa seguido de assédio, dizendo que meu corpo curvilíneo era bonito demais e “o tipo dele”. E foi daí pra pior.

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Meu anfitrião era um cara poderoso, dono de um negócio milionário e conforme fui me inserindo no contexto de ser Au Pair na China, percebi o padrão. Matematicamente falando, a renda da agência cai 100% em cima da família. A Au Pair não paga nada, além da passagem aérea, para estar aqui. Em um sistema onde tudo gira ao redor do dinheiro, a culpa será sempre da Au Pair. A razão está sempre com quem tem o dinheiro e o jogo é imundo demais para manter a família feliz com o contrato e, consequentemente, o dinheiro no banco da agência. Não há um espaço de fala e queixas.

Nunca foi sobre a Au Pair. Nunca sequer foi sobre as crianças. Nunca foi sobre a qualidade dos serviços prestados por mim. Nunca foi sobre ser família. Sempre foi sobre o contrato de muitos zeros assinados pelo Senhor Schuang para ter uma Au Pair.

Durante quatro semanas eu tentei estabelecer uma situação saudável com minha host family e com as supostas agentes que, na verdade, não me agenciavam em nada. Fui resiliente ao extremo, engoli, aceitei e relevei. Relevei invasões, situações e palavras. Preferi me submeter a tudo isso ao fracasso de voltar pra casa porém, um dia não deu mais.

O divórcio entre mim e a família aconteceu logo na primeira vez que eu realmente decidi enfrentá-los. Em uma discussão calorosa me foi dito que eu estava lá para servir e definitivamente foi um termo que sequer foi mencionado pela agência que me vendeu o sonho chinês.

De pronto respondi que não e acredito que para o anfitrião isso tenha sido muito afrontoso pois pessoas poderosas não gostam de pessoas que questionam. Eu não estava lá pra servir, não aceitaria ser tratada como tal, mas sim queria o que me foi vendido, ou seja, que eu seria parte de uma família, que seria incrível, com trocas culturais, passeios e tudo mais.

Naquela tarde, não chegamos a lugar nenhum. Em meio a gritos, eu pedi meia hora para arrumar as minhas malas e saí. Fui jogando tudo o que tinha enquanto ligava pra agência tentando pedir alento. Deixo pra vocês adivinharem se alguém ajudou e é claro que a resposta é um longo e sonoro não. E tem mais: com o tempo, por formas que prefiro manter em sigilo, descobri que na noite que tudo desabou sobre mim, a posição tomada pela agente foi de que eram 9 hrs. da noite e não era mais o horário de trabalho dela, com a frase “Eu não sou babá de ninguém.”

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Saí da casa dos Schuang com muitas sacolas, duas malas de 32kg e nenhum plano B e para “cerejar” o sundae, quase apanhei. Parecia cena de novela! Senhor Schuang ficou violentamente irado quando viu que eu realmente estava disposta a ir embora e grosseiramente tentou me dar um safanão, mas foi impedido pela empregada da casa que mal piscava tamanho o choque e o susto.

Fiquei na sarjeta da rua da mansão das 7 às 9 da noite tentando obter o auxilio da agência ou de qualquer força do universo e pensando no que diabos eu faria da minha vida, e só saí de lá porque muitas mãos me foram estendidas.

A China hoje pra mim é um caso de amor e ódio. De um jeito totalmente fora de roteiro me arrumei por aqui, continuo trabalhando com crianças e virei uma professora muito bem recomendada e aceita.

Isso aconteceu porque eu decidi tentar e quis ficar. Eu aceitei meu medo, meu fracasso e minha derrota. Aceitei o terror que vivi e depois dele, aceitei favores, aceitei a sensação de estar novamente no ponto 0 e precisar sair de lá sozinha. Aceitei que sem ajuda não daria. Aceitei que eu poderia ser sim minha próprio heroína, mas podia também precisar de uma mãozinha. E ao final tive mãozonas.

Não foi fácil mas hoje posso afirmar que estou bem no meio dos noodles, dos xiao long bao e dos ideogramas em mandarim. Loucura pensar que foi desistindo que descobri tanto;  imensas possibilidades que eu não imaginava nem nos meus sonhos mais loucos. A vida é louca! A China é louca! Sorte que eu sou também.


**Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos personagens.

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