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Do Egito ao Sudão

Egito, Sudão
Do Egito ao Sudão: como é a trajetória pela fronteira terrestre e o que esperar dessa aventura.

Eu acredito firmemente que perguntar para a grande maioria das pessoas ao meu redor o que elas sabem sobre Sudão, é ficar sem resposta.

Devo confessar que eu mesma me incluo nesse contexto, uma vez que também pouco sabia a respeito do país antes de ele se tornar uma realidade muito próxima a mim.

Desde que comecei a morar no Egito, aprendi muito sobre o Sudão e sua cultura, assim como os highlights e curiosidades dos territórios vizinhos. Como uma viajante que ama um bom destino por trás das coxias, há meses ando interessada em visitar o Sudão.

No Egito, conheci alguns sudaneses imigrantes que pouco adicionaram a essa minha curiosidade válida e gratuita, em saber o que há do outro lado da fronteira.

Eu tenho essa mania mesmo! Gosto da ideia de viajar pra destinos não tão explorados, de conhecer aquilo que pouco se fala sobre, de contar histórias que ainda não foram contadas. Então, o Sudão aconteceu pra mim.

Do Egito ao Sudão:  A travessia

A viagem por terra entre o território egípcio e o Sudão é uma verdadeira loucura. Há voos diretos entre o Cairo e a capital do Sudão, Karthoum, mas os preços não são dos mais atrativos e os níveis de aventura são baixíssimos, logo não me interessou.

Para os que decidem dedicar o suor e o tempo na fronteira terrestre, a jornada é longa e testa limites.

Partindo de Aswan, quase na fronteira norte do Egito, os ônibus saem todos os dias para Karthoum e o valor é camarada: 400 libras egípcias, o equivalente a US$ 25.

A questão é a seguinte: o Sudão é uma economia decadente, que piora a cada ano. Os preços flutuam sempre pra cima. Há pouco acesso a estrutura e a localização geográfica do país que, junto aos conflitos geopolíticos, não ajudam em nada a melhorar esse cenário.

O resultado deste contexto nada favorável é a falta de produtos no mercado sudanês, desde eletrodomésticos à variedades de alimentos. Então, muitos sudaneses fazem essa jornada louca para entrar em terras egípcias, para comprar mercadorias por preços mais acessíveis.

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Percebi, vivendo essa aventura, que os sudaneses não compram, eles estocam.

No ônibus de volta ao Sudão, metade dos bancos (literalmente) são retirados ou abaixados para dar espaço às mercadorias e malas de todos os tamanhos.

No ônibus em que viajava, haviam muitos televisores de tela plana, dois fogões, ventiladores de teto, tanquinhos de lavar roupa, caixas infinitas de suco em pó, leite, farinha e enlatados.

A intenção não é organizar o espaço, é fazer caber. Mercadorias e passageiros vão espremidos feito sardinhas em um ônibus velho, sujo e sem ar condicionado.

O calor é de querer fazer desistir e as horas perdidas pra carregar tudo, são muitas. Depois da ansiada partida, são cerca de 6 ou 7 horas mais até a fronteira. Meu ônibus chegou por lá quando já estava escuro.

A entrada no Sudão

Ao chegar na fronteira terrestre, percebi que os sudaneses que estão voltando pra casa já são– e muito – habituados com o frisson.

Policiais checam passaportes e testes de COVID-19 e é necessário pagar uma pequena taxa, que até hoje não me explicaram o motivo dela existir.

Uma vez que o ônibus é autorizado a entrar, são mais horas e horas de carrega-descarrega, passando todas as infindáveis mercadorias pelo detector de metais e possíveis inspeções. Ademais o tempo que se leva para que todos os passageiros façam o procedimento de saída do Egito.

No meio da noite, o ônibus estava carregado pra sair novamente. Me surpreendeu e me fez rir o estado em que ele se encontrava. Dessa vez as mercadorias foram realmente SOCADAS dentro do ônibus e as pessoas mal tinham lugar pra sentar.

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Muitos sudaneses riam da reação que eu e meu parceiro tivemos a ver tudo aquilo – foi uma risada com aquela pitadinha de nervoso e incredulidade. Logo me explicaram que o motorista dirigiria apenas por alguns minutos, até chegar do outro lado do estacionamento, onde ficava a imigração do Sudão. Ah tá, então ok!

Adivinhem? Ao chegar na fronteira do Sudão, teve carrega-descarrega novamente. Tudo é retirado do ônibus e minuciosamente inspecionado pelos oficiais sudaneses para que os cidadãos sejam taxados de acordo.

Pra quem é estrangeiro, a coisa é mais simples: basta apresentar o visto e pagar uma outra taxa sem explicação, que gira em torno de 1.000 liras sudanesas, menos de US$ 3.

Há quem diga que essa taxa e fake e é diretamente embolsada pelos policiais no trabalho árduo da fronteira terrestre, mas eu nunca tirei essa informação a limpo. Não vale a pena comprar problema por US$ 3, não é mesmo?

Do Egito ao Sudão: o que esperar dessa aventura

Nosso ônibus chegou na fronteira na madrugada e minha noite foi no chão da sala de imigração, com um saco de dormir e meu edredom cor-de-rosa surrado que vai pra todo canto do mundo comigo.

Nos avisaram que o ônibus só sairia no dia seguinte – outra coisa que até hoje não entendi o motivo – e eu acabei fazendo uma noite completa de 11 horas no chão fresco.

Foram 18 horas com o ônibus parado na fronteira para que os sudaneses fossem taxados e tudo propriamente organizado para a entrada oficial do veículo no país. Teoricamente, esse é o começo do fim da jornada. As opções pra quem viaja dessa forma são as cidades de Wadi Halfa, muito próxima a fronteira, ou a capital do país, Karthoum, 12 horas pra frente.

A intenção sempre foi chegar a capital, mas nossa aventura teve um elemento surpresa: um dos passageiros do ônibus se recusou a pagar as taxas de importação. De forma ilógica, o ônibus todo pagou o pato e nosso veículo foi impedido de continuar a viagem.

Resumindo: chegamos a Karthoum, 2 dias depois.

O efeito surpresa

Não sei dizer se o ônibus que deveria ter nos levado chegou antes ou depois de nós. Para meu parceiro e eu, que já estávamos liberados independentemente da situação dos nossos companheiros de viagem, a solução foi pedir carona a qualquer um dos muitos caminhoneiros passando pela fronteira.

Um senhor de memória fraca, que confundiu meu nome pelo caminho todo – eu insistia em Tami e ele insistia em Cristina.

O senhor simpático nos levou por algumas horas e parou pra dormir. Durante a noite o céu estava lindo e consegui trabalhar carregando meu computador na sala do vigia policial do ponto de parada.

Fiquei fascinada pela estrutura dos caminhões, muitos possuem tudo que se pode pedir em uma cozinha funcional: estoque vitalício de chá e compartimento de gelo.

O segundo caminhoneiro que nos levou até a capital depois de 48 horas de um hitchhiking (pedido de carona) doido e inesperado, cozinhou uma refeição todinha em uma das paradas que fez e dividiu com os colegas de estrada.

Vale lembrar que entre os meses de abril e maio os muçulmanos celebram o Ramadã e a festividade religiosa pede o jejum desde o nascer até o pôr do sol. Quando o sol se põe e a mesquita canta, a refeição que quebra o jejum – o Iftar – representa um momento especial durante todos os dias do mês.

Compartilhamos muitos desses dias e refeições comunitárias com os sudaneses ao longo das semanas que passamos por lá.

O Sudão foi o destino mais desafiador em que já estive e me ensinou muito sobre mim e sobre a vida do outro. Me abriu ainda mais os olhos, me cansou ao extremo e me deu muita, mas muita história pra compartilhar.

Valeu a pena a jornada, valeu a pena o suor e valeu a pena a exaustão. E com alegria que relato que a volta ao Egito, via fronteira terrestre, é bem mais tranquila; sem mercadorias e sem milongas. Ufa! Não sei se meu corpo e mente estariam preparados para tamanha aventura em dose dupla.

 

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