Dá para comprar casa em Buenos Aires?

0
133
Foto: Acervo Pessoal
Advertisement

Dá para comprar casa em Buenos Aires?

Primeiro Capítulo: Diálogo

– Oi, estou de mudança para a Argentina, como faço para alugar ou comprar um imóvel?

– Ai, que assunto complicado este… não poderíamos falar sobre algo mais simples?

– Mas, como assim, “complicado”? Não funciona como no Brasil?

–  Não, e te digo mais, parece até filme, juro.

– Sério? Você poderia me explicar mais?

– Posso, mas você promete que não vai rir?

– Prometo!

– Promete que vai acreditar em mim?

– Prometo!

– Ok, então vou te contar um pouco sobre como funciona o mercado imobiliário portenho.

Segundo Capítulo: Viver de Renda

Brincadeiras à parte, conversar com brasileiros sobre o mercado imobiliário portenho é um tanto difícil. Pois, além de requerer uma contextualização prévia, em muitos momentos pode, sim, parecer que estou fazendo piada. Mas não estou.

Não sei dizer o porquê, mas notei que grande parte das pessoas com mais de quarenta anos e que vivem em Buenos Aires há mais de vinte anos pensam que “trabalhar” ou “se aposentar” é viver de renda de aluguel.

Claro que não são todos. Mas me chamou a atenção que entre meus conhecidos e os conhecidos deles, e meus vizinhos, e alguns companheiros de trabalho, quase todos pensam assim. Desse modo, investir dinheiro significa comprar apartamentos.

E tem sido assim por anos. O dinheiro que eles têm (e que sabe-se lá como ganharam) vão comprando apartamentos pela cidade para num futuro alugá-los a estudantes ou profissionais jovens que se mudam para Buenos Aires.

Terceiro Capítulo: Preços 

Não sei se dá para perceber, mas quando a pessoa que já tem um imóvel começa a comprar outros para alugar, vai ter cada vez mais dinheiro e vai comprando cada vez mais imóveis. E é esse círculo que estabelece o preço dos imóveis.

Conclusão, os imóveis vão ficando nas mãos de poucos e com preços bem altos.

Leia também: Transporte Público em Buenos Aires

Quarto Capítulo: Aluguel

Alugar apartamento é até simples, pode custar caro, mas dá para fazer. Existem duas possibilidades: através de uma imobiliária ou diretamente com o dono. Falei sobre isso neste outro post Cheguei na Argentina e agora?

Quinto Capítulo: Diálogo

– Então, vou mesmo mudar para Buenos Aires e estou pensando em depois de uns meses por aí comprar um apartamento.

– Que bom, bem-vinda, vamos encontrar um lugar para você. Quanto você pensa em pagar?

– Tenho algumas economias, mas pensava em fazer um financiamento e usar parte do meu FGTS argentino quando estiver trabalhando por aí.

– Hum, então, aqui não tem financiamento. Quer dizer, até tem, mas é bastante complexo. Varia muito de banco para banco, de quanto é o seu salário, seu tipo de trabalho, do preço e a alta do dólar.

– Como assim?

– Ah, você não sabia? Aqui os imóveis só são vendidos e comprados em dólar americano.

– Por quê?

– Ótima pergunta, não faço ideia.

– Ué, a moeda daí não é o Peso Argentino?

– Sim.

– Mas então?

– Então o quê?

– Posso oferecer pagar em pesos? Afinal, meu salário seria em pesos.

– Não faça isso, pode soar ofensivo e um portenho ofendido, já viu né…

– Mas o que eu faço, então? Peço o financiamento?

– Estrangeira, recém-chegada, começando a trabalhar, o dólar subindo dia sim e dia também, não vai ser aprovado. Muitos pedidos têm sido cancelados nos últimos meses.

– E o FGTS?

– Ah, você também não sabe, isso não existe por aqui…

Sexto Capítulo: Comprar

Resumindo, para comprar um imóvel em Buenos Aires você vai precisar ter dólares suficientes para comprar à vista. E isso não significa ter o valor dele, se não ter também algo mais para pagar impostos, escribanos (cartórios), comissões, etc.

Por exemplo, comprar um apartamento de 45 m² com um quarto, banheiro, sala e cozinha pode custar US$ 100 000 (mais ou menos R$ 450 000). E a isso some de 8 a 10% para as taxas que mencionei anteriormente.

Mas a peculiaridade não para por aí. O mais complexo desse processo é como comprar. Me explico: primeiro, onde será realizada a venda/compra? Geralmente o vendedor escolhe. Pode ser em uma sala de banco ou em casa, mesmo.

Segundo, como levar o dinheiro em espécie sem perigo de que seja roubado. Já vi cada ideia digna de filme hollywoodiano. Gente que usa roupa com bolsos secretos que cabem até US$ 10 000. Gente que vai escoltada por outros parentes.

Terceiro, como guardar esse dinheiro. Tem gente que deposita no banco, mas isso implica em pagar mais impostos, declarar ao governo, etc. e tal. Então, tem gente que prefere contar nota por nota para ver que está certo e levar para casa. Agora, imagina, você, sentada, contando dinheiro por uma hora.

Leia também: Os Espaços Públicos na Vida da Capital Argentina

Sétimo e último Capítulo: Resumindo…

Uma/um estrangeira/o recém-chegada/o na Argentina não consegue comprar um imóvel a não ser que tenha, pelo menos, 100 mil dólares em espécie na carteira.

Não existe um plano formal e padrão de financiamento para comprar um imóvel. Nem algo parecido ao FGTS. O segredo é herdar, receber ajuda da família ou então economizar e juntar pelo menos 80% da quantia total.

Deixe um comentário

Por favor inclua o seu comentário
Por favor escreve o seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.