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O desafio de mudar para os EUA com filhos adolescentes

São muitas as razões que levam uma pessoa a deixar seu país e acredito que nunca poderemos julgar ou apontar erros nessa difícil decisão, que diz respeito exclusivamente a cada um.

Dito isso, observo que muitos brasileiros chegaram aos EUA por caminhos e objetivos diferentes e, mais do que tudo, em diferentes momentos da vida.

Os que vieram com filhos adolescentes na bagagem são uma minoria e nessa turma eu me incluo.

Mudar-se solteiro, com um universo de possibilidades a explorar e sem estruturas sólidas que ficaram para trás é uma experiência completamente diferente da minha, que cheguei aqui às vésperas dos 40 anos, com marido e duas filhas de 10 e 14 anos de idade.

Minhas filhas cresceram no Brasil, foram alfabetizadas em português e passaram a vidinha toda delas construindo amigos e relações no círculo da escola, vizinhança e família, sem a menor experiência de contato com estrangeiros.

A língua foi o primeiro desafio.  Aprender a escrever e falar inglês, sem esquecer que adolescentes do mundo inteiro têm seu código e linguagem próprios,  já é o começo de uma grande empreitada. Claro que com a mente tinindo no esplendor dos 10 e 14 anos de idade, isso logo foi resolvido e o idioma passou a ser o menor dos problemas.

O difícil foi o resto… Amizades, escola, esportes, atividades.

Tudo aqui difere do Brasil e da forma como elas estavam acostumadas. A escola pública em período integral exige muito mais academicamente do que as escolas particulares de São Paulo de onde viemos. Os intervalos são cronometrados e mesmo o horário de almoço deixa pouquíssimo tempo para uma conversa à toa, tão típica e necessária nessa fase.

A facilidade de encontrar amigos depois da escola, no parque do condomínio, no playground do prédio ou no clube do bairro, não existe por aqui. Mesmo nos meses mais quentes é muito raro ver crianças brincando nas ruas, apesar da segurança.

A saída é se envolver em alguma atividade depois da escola, como esportes, dança ou música.

Existem clubes organizados por temas que se propõe a explorar diversos assuntos e também servir como ponto de encontro para novos amigos com interesses em comum.

Essas atividades todas são muito focadas em seus temas e o nível de exigência é alto. Devemos sempre nos lembrar que uma das principais características dos EUA é a competitividade, isso está intrínseco em qualquer atividade praticada, desde origami ao nado sincronizado.

Então espera aí: você, com 14 anos, que dançava com as amigas somente por diversão, ou mesmo jogava bola para brincar, precisa encarar essa atividade como algo muito sério e competitivo e também como um dos poucos acessos à uma vida social? Sim. É isso mesmo!

A espontaneidade, tão característica do brasileiro não é comum por aqui e mesmo os “playdates” (encontros para brincar de colegas de escola) são sempre previamente agendados e com horário para começar e terminar.

Diferente daquela combinação típica em saídas de portas de escolas brasileiras: “Posso brincar na sua casa agora? Posso dormir lá?”

Nós costumamos dizer que no Brasil se acaba o almoço mas não a conversa, já aqui a conversa é encerrada assim que acaba o tempo do almoço, por mais que o assunto esteja no seu clímax.

Eu, como mãe e mulher, tenho que lidar diariamente com as minhas próprias dificuldades de adaptação e, mais do que isso, ser forte para ajudar minhas filhas a superarem as delas. Adoraria ter tido mais informações sobre esse cotidiano para me encontrar agora mais preparada. Por isso admiro e acho fundamental a iniciativa de blogs como esse, que se propõem a compartilhar experiências, porque sempre aprendemos muito com a vivência do outro.

Posso estar enganada, mas acho que quanto mais jovem mais fácil é para superar esses obstáculos. Uma lousa em branco permite muito mais espaço para novos textos do que uma lousa já tomada de escritos. Assim, quanto mais novas as crianças mais fácil será a adaptação para a nova vida.

Adolescentes e mesmo pré-adolescentes já chegam com uma bagagem considerável de experiências e a transição, sobretudo no início, não deixa de ser dolorida. Deixar para trás os melhores amigos, as festas, as viagens em grupo é um enorme exercício de desapego, sobretudo nessa fase.

O lado bom da moeda é que essa intensidade de novidades provoca um grande amadurecimento e uma forma muito bonita de enxergar o outro e aprender através das diferenças.

Minhas filhas aprenderam em um ano o que talvez aprenderiam em cinco anos se não tivéssemos deixado o Brasil, onde eram sempre protegidas pela zona de conforto que acabamos criando para elas.

A região de Washington D.C., onde moramos, é muito internacional com pessoas de todas as partes do mundo. Hoje elas já têm colegas de diferentes nacionalidades e no dia a dia  me mostram coisas incríveis que descobriram nessas relações.

Para ilustrar: estávamos um dia em casa, quando uma delas chegou com uma amiga coreana para passar a tarde. Elas estavam famintas e resolveram cozinhar um macarrão instantâneo. A amiga coreana ficou abismada de não termos chopsticks (aqueles palitinhos orientais para comer) pois na experiência dela é impossível comer macarrão com talheres.

O respeito aos horários e também em saber a hora certa de terminar uma brincadeira já acabou se tornando um hábito e assim vamos levando.

O assunto em voga hoje no Brasil é o sonho de se mudar para o exterior, principalmente para os EUA. Apesar de estarmos impregnados na cultura norte-americana, existem tonalidades que nunca imaginamos, sobretudo em relação aos filhos e a educação. Se eu pudesse dar um conselho seria assim: você está preparado para tamanha mudança de paradigmas? Se sim, pesquise, se informe, converse para não ser surpreendido e perceber que seus sonhos e de sua família se transformaram em uma grande frustração. A vida adolescente americana parece muito menos com os musicais estilo “High School Music” do que podemos imaginar!

A obrigação de se adaptar e de abraçar novos costumes é sempre de quem está chegando. Não podemos  nos magoar por comportamentos diferentes dos nossos, afinal estamos em outra casa, outras terras e outros costumes e adequar-se a isso sem perder a nossa essência pode parecer difícil demais, mas é a única saída para o sucesso nessa empreitada.

Para quem quiser saber mais, aprofundei o tema sobre estereótipos e descobertas nesse post aqui, em minha página pessoal. Sejam sempre bem vindos!

Um abraço apertado na beira da Chesapeake Bay depois de um ano de EUA.

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26 comentários

adriana silva Fevereiro 6, 2016 at 10:15 pm

interessante o comentario sobre a dificuldade de encontrar os amigos depois da escola. Moro ha muitos anos aqui e o oposto eh o que sempre observo aqui. Depois da escola e das atividades, as criancas estao todas na rua, na vizinhanca, brincando com amigos, principalmente nos suburbios. Fim de semana entao, nem se fala, andando de bicicleta, correndo, nos parques. Com escola publica, as criancas da vizinhanca todas se conhecem e fazem amizade rapidinho pois estao na mesma escola, mesmo onibus, mesmo time local de esportes.

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Gabriela Albuquerque Fevereiro 7, 2016 at 12:48 am

Olá Adriana,
Os EUA é muito diverso, costumo dizer que são vários países em um só e as diferenças chegam a ser grandes dentro de uma mesma cidade. Eu não tive essa “sorte” de encontrar um bairro com crianças brincando na rua, mas com certeza, sei que existem.
Abraços,
Gabriela

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Barreto Fevereiro 6, 2016 at 10:57 pm

Passo por tudo isso, agora e confesso que somos infinitamente mais felizes do que lá, pois só os valores morais, já vale a pena, sem falar do consumo, aqui tem tudo que elas sonhavam por lá e as amiguinhas chupando dedo….Nada disso, estou há um ano e só fui no Brasil uma vez, tem proriedades por lá só por isso. Engeaçado, porquese pudessem entrar aqui, 90% das pessoas do Brasil, estavam num avião pra cá… Temos a ciência que somos imigrantes, e a verdade é que no Brasil tudo é bagunça e Zona. Dificil mesmo acostumar com a educação, limpeza, segurança, prosperidade e consumo, que todo mundo gosta e quer. Tenho 55 anos e 31 no BB…. Acho que vivi um pouquinho né?
Abs

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viviane Fevereiro 6, 2016 at 11:05 pm

Muito legal! Obrigada por compartilhar de sua experiencia!!! Estou ha 2 meses eua florida, e tenho uma filha de 12 anos, muita mudanca….

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Gabriela Albuquerque Fevereiro 7, 2016 at 12:45 am

Olá Viviene!
Com o tempo tudo fica mais fácil….acredite! Boa sorte para nós,
Abraços,
Gabriela

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Moema Fevereiro 6, 2016 at 11:11 pm

Olá Gabriela
Adorei o seu Texto!
Eu me identifiquei muito pois também sai do Brasil ,mas com 3 filhos na idade de 7,13 e 15 e vim morar em Paris-França…e já faz 5 anos que moro aqui…
Com alguns pontos diferentes do seu ( costumes franceses sao diferentes dos americanos) mas mesmo assim muita coisa parece bizarra para nós,mas concordo em tudo ,e hoje vendo meus filhos poliglotas (afinal falam 3 idiomas fluente) com certeza valeu a pena,mas nao foi fácil !
Hoje tenho um canal de vídeos sobre Paris o que me motiva a ajudar as pessoas com dicas da cidade,tanto para quem vem a passeio ou para morar…
Bom,continue compartilhando suas experiencias com gente ,bisous

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Gabriela Albuquerque Fevereiro 7, 2016 at 12:44 am

Obrigada Moema!
Realmente é um desafio, mas acho que sempre vale a pena não?
Abraços,
Gabriela

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Adrian Fevereiro 7, 2016 at 12:18 am

Muito útil. Bem escrito. Gostei muito.

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Gabriela Albuquerque Fevereiro 7, 2016 at 12:39 am

Obrigada! Abraços,

Gabriela

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Joel Fevereiro 7, 2016 at 11:02 am

Muito bem posto Gabriela. Meus quatro filhos nasceram aki e eu não sofri com esta adaptação pre adolescente mas fiquei muito surpreso quando filhos de brasileiros que para cá emigraram, superaram rapidamente a tortura de deixar amigos e escola para trás. Com relação às crianças não terem os amiguinhos disponíveis após o horário escolar isto era fato quando vivia na Florida. Agora no Texas, minha vizinhança está sempre cheia de crianças brincando no condomínio. Acho que varia em função de clima e cultura de estado para estado. O importante mesmo é que a mudança é positiva e a experiência dur a a vida inteira!

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Marciana Fevereiro 7, 2016 at 12:13 pm

Eu saltei dentro o seu texto e, adorei. Eu tambem moro fora do Brasil e, não è fácil mesmo.
Abraços.

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Gabriela Albuquerque Fevereiro 7, 2016 at 4:06 pm

Fico feliz que tenha gostado! Obrigada 🙂
Abraços,
Gabriela

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Maria Eugenia RUIZ ROSSETTI Fevereiro 10, 2016 at 1:47 am

Só para matar a saudade do Brasil ! Um beijo enorme !

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Gabriela Albuquerque Fevereiro 10, 2016 at 3:10 am

Saudades tb! Bom saber que me acompanha por aqui….seja sempre bem vinda! Beijos!

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Ériton Branco Fevereiro 12, 2016 at 3:22 pm

Parabéns Gabriela !!!
Texto bastante claro e muito esclarecedor.
Excelente ????????????????????????????????????????

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Gabriela Albuquerque Fevereiro 17, 2016 at 11:20 pm

Obrigada! Seja sempre bem vindo, Ériton. 🙂

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Vanessa Fevereiro 13, 2016 at 5:47 pm

Gabriela adorei o post! Nós mudaremos no final deste ano… Frio na barriga!

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Gabriela Albuquerque Fevereiro 17, 2016 at 11:21 pm

Sei como é Vanessa! Tenho escrito muito sobre isso por aqui e no meu blog pessoal. Boa sorte e seja sempre bem vinda 🙂

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Marília Março 29, 2017 at 4:22 pm

Oi Gabriela, ótimo texto. É exatamente o que procuro, para enfrentar a breve mudança que acontecerá em nossas vidas. Tenho dois filhos de 9 e 7 anos, ainda são pequenos, mas já envolve uma certa dificuldade pelo idioma e vída escolar. Já vivemos na Alemanha por um ano e meio, mas era uma situação mais fácil, pois eles tinham 4 e 2, então apenas se acostumaram, é o idioma foi absorvido incrivelmente em 6 meses (o mais velho frequentou escola internacional e aprendeu inglês, muito melhor que eu – mas já esqueceu, afinal, aqui mesmo tendo aulas de.ingles todos os dias, a falta do convívio acontece). Já eu,.O pouco que sabia (pouco mesmo) de inglês, passou a.se misturar em minha mente quando aprendia alemão.
Enfim, faço minhas orações, coloco Deus na frente, e sei que oportunidades, não devemos desperdiçar.
Iremos já com emprego (no caso, meu marido), porém, não expatriado, e sim, vaga local. A empresa irá suportar documentos para nossos.vistos e outras pequenas coisas. O resto, será por nós mesmos. Já pesquisando distritos escolares. Iremos para Michigan, próximo a Detroit.
Abraços do Brasil

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Tenho vergonha de botar Outubro 12, 2017 at 4:15 am

Gente me ajudem por favor, começei na escola ho je mesmo e odiei, nao fiz nenhuma amizade e nem sei falar ingles e ainda sou muito burro, tenho 13 anos e tenho dificuldade de comunicação, por favor pessoal orem por mim e me dem dicas

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Gabriela Albuquerque Outubro 12, 2017 at 4:39 am

Olá! Minhas filhas tb tiveram um começo difícil. Mas hoje tudo melhorou. Tenha paciência que você verá como em pouco tempo o seu inglês estará bem melhor e isso vai ajudá-lo a se comunicar e fazer amigos. Não desanime! Minha filha também tinha 13 anos quando se mudou e aos poucos ela foi ganhando confiança no inglês e hoje já está muitoooo melhor! Boa sorte e se precisar de alguma coisa, pode me procurar!

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Israna Novembro 5, 2017 at 8:33 am

Bom dia, adorei seu blog, eh Td que eu precisava. Sou enfermeira obstetra no Brasil, e estou me organizando para ir embora em 2019. Tenho dois filhos q na época q estarei chegado aos EUA , estarão com 12 e 3 anos. Estou juntando um dinheiro pra m manter enquanto valido meu diploma. Meu filho.mais velho eh alucinado pelos EUA, eh o sonho dele.morar ai, ele tem pavor do Brasil e eu tbm, devido a violência. Estou começando um curso de informador imersão. Vc acha q vale a pena??

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Israna Novembro 5, 2017 at 8:34 am

Curso de inglês por imersão

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Alimentação das crianças nos EUA Janeiro 11, 2018 at 4:03 pm

[…] Confira também: O desafio de mudar para os EUA com filhos adolescentes […]

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Debora Novembro 19, 2018 at 2:09 am

Oi Gabriela,
Obrigada por compartilhar sua experiencia. Trouxe minha filha de 11 anos para a Australia ha um ano (um ano depois que eu e meu marido viemos) e a facilidade que ela teve com o ingles contrasta em muito com a situacao social e de amizades dela. Ela sofre de saudades das amigas que tinha e ‘e nova pra entender que as amizades do colegio dificilmente durariam pra sempre anyway. Ainda nao conseguiu fazer amizades aqui e acredito que um pouco seja devido a ela ter se fechado ou ate mesmo bloquear essa aproximacao. A adaptacao nao ‘e nada facil, mas eu como mae sei os beneficios que essa mudanca trara para o futuro dela.
Espero que em breve ela consiga fazer amizades nessa fase de pre-adolescencia que ja ‘e naturalmente desafiadora.

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Raquel Junho 10, 2019 at 10:54 am

Nossa me vi muito no seu texto e estou em pânico. Nossa família tb deve ir em pouco tempi para os EUA e temos duas meninas de 11 e 14 anos e a mais velha já está quase implorando para não ir. Da muita insegurança fazer uma mudança festa, será q vale mesmo a pena o sacrifício?

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