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Diferenças entre Brasil e França

Diferenças entre Brasil e França.

Depois de viver um período aqui em Toulouse, resolvi fazer algumas observações sobre Brasil e França. Não é uma crítica, apenas um jeito diferente de perceber e talvez mostrar que temos algumas coisas em comum e também ressaltar algumas coisas maravilhosas do nosso país que são muito bem vistas aqui fora.

Quando estava no Brasil, tinha uma visão rotineira sobre nossos costumes até porque temos a impressão que tudo tá sempre do mesmo jeito, que nada muda, que o pior do Brasil é o brasileiro. Mas quando cheguei aqui, percebi que nem tudo são flores e que não é porque você vive em um país que oferece boa educação, que automaticamente terá o melhor povo do mundo. Bom, vou pontuar alguns itens, com o meu humilde olhar sobre eles.

O tratamento dado ao público

O tratamento dado ao público é um item interessante. Aqui, se tem toda educação e cordialidade possível na grande maioria dos locais, porém o tratamento ainda fica longe de ser atencioso. Além disso, não existe aqui o tal do “cliente tem sempre razão”.

No caso do Brasil, temos simpatia, generosidade e até delicadeza que acaba tornando tudo mais leve, deixamos as pessoas mais à vontade. Mas claro, às vezes, há divergências e toda regra tem sua exceção. Nessas situações, há pessoas que irão preferir o atendimento do Brasil e outras na França. Eu mesma ainda não achei minha preferência.

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Filas e ordem de chegada

Isso me surpreendeu aqui, confesso. Acredito até que por isso, sejam necessários os RDV – rendez-vous (agendamento para atendimento) ou até mesmo a necessidade de distribuir senhas em alguns locais. Claro que a organização é necessária, mas mesmo que não tenhamos senhas em determinados lugares no Brasil, respeitamos filas e ordem de chegada, até porque acaba gerando grandes discussões se a ordem não é respeitada.

Assim como aqui, alguns lugares viram uma bagunça organizada, mas apenas saiba que também há desorganização nesse aspecto que faz parte do cotidiano de países “considerados” de primeiro mundo. Esse é um ponto que até mesmo os franceses reclamam.

No metrô, no ônibus, ao receber atendimento em algumas lojas quase sempre você tem que se fazer perceber que está na frente. No transporte público, vai no empurra-empurra mesmo. Acho que até agora, só vi respeitarem filas em áreas ligadas à saúde, em locais predeterminados com senhas ou áreas previamente demarcadas para filas.

Nosso famoso jeitinho brasileiro (o lado bom dele)

Ouço muitos brasileiros reclamando que se você marcou algum compromisso e ficou faltando um documento ou uma vírgula, esqueça, terá que aguardar um novo agendamento. Se ocorrer qualquer problema que fuja da normalidade da situação, não existe para os franceses uma maneira de “tentar” ou de “verificar” outras possibilidades. Não há maleabilidade e eu já ouvi isso de pessoas de outras nacionalidades – até os próprios franceses criticam este aspecto.

Nós, no Brasil, muitas vezes usamos a empatia e tentamos ser mais maleáveis para resolver coisas, o que acredito que seja um ponto positivo na hora que estamos fora do nosso país. Isso só ajuda na adaptação e quando recepcionamos alguém por aí – esse nosso jeito acaba facilitando na comunicação também.

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O falar

Quando ia em algumas lojas, restaurantes e até mesmo na rua, notava um tom de voz mais forte e achava sempre que era uma discussão, mas percebi que não era.

Como nosso idioma é “mais cantado e suave”, quando ouvimos o francês conversando, nos causa uma certa estranheza, já que o idioma é muito dinâmico e pode até parecer ríspido em algumas situações.

No Brasil, ainda temos a vantagem de estarmos sempre brincando ou com prontos sorrisos, o que também já deixa tudo mais leve e, mesmo que seja uma discussão, acabamos melhorando um pouco o tom.

O dinamismo francês e o cantarolar português ou das línguas latinas em geral, acaba surpreendendo ambas nacionalidades gerando momentos de descontração e tiraçōes de sarro por aqui. No meu trabalho, nos divertimos muito apontando essas diferenças.

Limpeza

Um ponto delicado e até engraçado. Durante uma das aulas do curso de francês o assunto foi esse – higiene pessoal e limpeza. Lembro-me que algumas pessoas ficaram impressionadas quando falamos que o brasileiro chega a tomar até 4 banhos por dia no verão e escova os dentes de 3 a 4 vezes.

Por aqui, não é bem assim pelo que entendi. Mas dá para entender, já que o clima não é muito brando durante pelos menos 8 meses do ano. O clima europeu não ajuda muito nesse quesito e é compreensível, mas não me adaptei à regra. Porém, pelas informações que contaram em sala, a média de banho em épocas frias é de um e duas vezes para escovar os dentes.

Um outro ponto que observei aqui é a limpeza de alguns prédios. Percebi que eles se preocupam com o meio ambiente e isso acaba impactando no modo de limpeza dos locais públicos que muitas vezes ocorre uma vez por semana (pelo menos no prédio onde moro, já constatei isso). Muito raramente, duas vezes. Pelo que me lembro, no prédio onde morava em Guarulhos, a limpeza era diária.

Tenho muito respeito pela história de cada país e sei que por conta de todos os reflexos durante guerras, o francês foi se adaptando, moldando-se. Podemos não ter guerras em nossa história, mas todo o processo político no Brasil nos faz crescer a cada dia.

O que escrevi é a minha visão considerando também o que pude conversar com algumas pessoas. Como havia falado, não faço uma crítica, apenas quero mostrar que de alguma maneira, todos os povos no mundo têm defeitos, qualidades e que isso simplesmente deve ser respeitado. O que podemos fazer é mudar nosso olhar sobre o outro.

Penso que ter a oportunidade de notar diferenças é muito bom e eu posso dizer que já aprendi a conviver e respeitar. Além de ter muito mais respeito pelo ser humano de uma forma geral, aumentou o carinho e amor que tenho pelo meu país. Também sou grata por poder viver esse momento e ter sido recebida como uma brasileira, profissional na minha área e ser respeitada por isso – esse é um ponto forte por aqui.

Aprendi que eles não entendem como competição abrir as portas para outras nacionalidades, pois a característica mais marcante para eles é a autossuficiência, o que acaba fazendo tudo à volta deles ser somado. Há chance para todos, como repito em meus textos, o respeito e aceitação acaba sendo o caminho para que tudo se encaixe e siga o fluxo normal.

É incrível o quanto amadurecemos estando fora do nosso país. Moro longe dos meus pais desde os meus 21 anos e ainda assim fico surpreendida. Posso dizer que, nesse um ano aqui, vivi uma vida voltada para o hoje e sem a expectativa sobre o amanhã. Isso tudo fui aprendendo no dia a dia. No entanto, tenho certeza que tudo tem sido vivido de maneira plena e intensa.

Diante disso, vou me conscientizando que o todo muda quando mudamos nossa visão e, quando aprendemos que essa mudança começa em nós mesmos!

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1 comentário

Maiara Abril 4, 2018 at 11:44 pm

Um professor me disse uma vez: “o ser humano está aqui para se adaptar a toda e qualquer circunstância. Somos adaptáveis a tudo”.
Vc está ciente e plena em qualquer situação. Seja feliz!!!!!
Obs.: Jamais me acostumaria com cheiro de murrinha e os queijos. Rs

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