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Diferenças entre Munique e o interior da Baviera

Diferenças entre Munique e o interior da Baviera.

Vou começar situando os leitores: moro em um vilarejo rural na Alemanha, com uma população de aproximadamente 300 pessoas, chamado Schöffau (oficialmente pertencemos à cidade vizinha, Uffing am Staffelsee, as populações das duas localidades somam 2.900 habitantes). O único comércio é o restaurante e um salão de cabeleireiro que só abre as quintas-feiras (é o dia de folga da cabeleireira e ela aproveita para gerar uma renda extra).

Isso significa que para fazer compras, ir à farmácia, banco, médico ou estação de trem precisamos dirigir para Uffing am Staffelsee , que fica a 6 quilômetros de distância. Para abastecer o carro ou ir à academia é um pouco mais longe, cerca de 13 quilômetros até Murnau.

O hospital mais próximo também fica em Murnau, no entanto não tem maternidade. As grávidas de Schöffau precisam de pelo menos 45 minutos (sem trânsito) para chegar à maternidade quando a bolsa estoura. Quando há algum acidente grave, o helicóptero do hospital de Murnau vem prestar o primeiro atendimento e transportar o paciente. O vilarejo não é especialmente isolado, essa realidade é comum no interior da Baviera.

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Meu mestrado é em Munique, então geralmente três vezes por semana vou para a capital da região. São 50 minutos de trem ou cerca de 75 quilômetros de carro, o que leva aproximadamente 90 minutos por causa do trânsito. No entanto, as pessoas de Schöffau não costumam fazer esse trajeto, a não ser para compras de Natal ou consulta com algum médico muito especializado.

Meu marido morou em São Paulo por três anos, mas toda vez que desembarca do trem na estação central da cidade mais populosa da Baviera (cerca de 1,5 milhão de habitantes) começa a reclamar ainda nos primeiros passos. A principal queixa? Munique tem muita gente (e não reclamava no Brasil, vai entender).

As pessoas do interior têm frequentemente a visão de que a cidade é muito populosa, caríssima e pouco autêntica no que diz respeito às tradições bávaras (para alguns deles, a Oktoberfest é um grande carnaval. Mas claro, muitos também se orgulham da grandiosidade do evento).

De fato, Munique tem algumas das desvantagens de cidades grandes em qualquer lugar do mundo: o preço dos imóveis é bem alto, o trânsito e principalmente falta de vagas em jardins de infância (Kindergarten). Por outro lado, é uma cidade com população multicultural onde você pode encontrar de tudo, com baixos índices de criminalidade, razoavelmente limpa e com muitas opções de lazer e oportunidades de trabalho.

A capital da Baviera abriga diversas empresas e também universidades prestigiadas como a Ludwig Maximilian Universität (LMU) ou escolas técnicas conceituadas, o que acaba atraindo muitos alemães jovens em busca de oportunidades profissionais e de qualificação, além de muitos estrangeiros.

No entanto, escuto frequentemente que meus colegas alemães e estrangeiros estão pesquisando cidades do interior, próximas a Munique para se mudarem, porque gastam praticamente todo o salário em aluguel. E muitas vezes reclamam que, mesmo morando na mesma cidade, levam uma hora ou mais no percurso entre a casa e o trabalho ou universidade. Meu velho drama diário de quando morava em São Paulo.

As pessoas da capital me parecem estar bem abertas para essa possibilidade de viver no interior da Baviera mas, às vezes, também têm um pouco de dificuldade de adaptação quando se mudam, o que considero natural. Minha professora de alemão é de Munique e mora aqui, ela ama o local porém, frequentemente, reclama das pessoas.

As observações dela são que todos são muito informais (na língua alemã, quando vamos falar com alguém formalmente usamos o pronome sie que é normalmente a escolha certa se você não conhece bem a pessoa. Aqui, todo mundo usa a opção informal, o pronome du) e que se você não seguir o mesmo comportamento todos vão te achar arrogante, que cometem muitos erros gramaticais e que não cumprem o que combinam (ela está enfrentando uma saga com marceneiros que falam que vão fazer um móvel que ela quer e depois a deixam na mão).

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Aconteceu um episódio também não muito agradável no ano passado comigo e meu marido, que ilustra um pouco essa relação entre as pessoas da cidade grande e do interior, aqui na Baviera: fomos encontrar um amigo brasileiro em Munique e ele estava com outros amigos alemães. O restaurante escolhido por eles servia comida típica da região, mas era mais elegante. Eu não estava prestando atenção na conversa dos alemães, pois estava falando com meu amigo, mas meu marido ouviu e ficou bem ofendido. Um casal que era de Munique estava dizendo que gostava daquele local porque oferecia comida típica, mas não cheirava mal como os restaurantes do interior.

Enfim, acredito que apesar das duas realidades estarem separadas por  apenas 75 quilômetros e bem conectadas por transporte público, a mudança de paisagem e mentalidade é grande. Saem os prédios modernos de Munique e entram os lagos e pastos, enquanto a cultura cosmopolita dá lugar a um pensamento mais conservador e um comportamento mais informal (mas, por favor, não passa nem perto do nível de informalidade brasileira).

A questão é que qualquer realidade diferente da nossa, gera admiração mas também desconforto (e consequentemente, críticas ou queixas). E para isso talvez não importe tanto se você cruzou um oceano ou se viajou 50 minutos em um trem.

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