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Quando não falando a língua local pode nos levar a mal entendidos

Olá Queridos e Queridas,

Cá estou, lagarteando sob um raro sol primaveril de 21C e matutando sobre o que prosearemos. Em homenagem ao lindo dia de hoje, Dia das Mães, resolvi me aventurar pelo universo da autoanálise e da antropologia, para falar de uma mãe muito especial, que não é minha nem sua, mas a do seu cônjuge. Após algumas leituras e reflexões, eu me arrisco a dizer que, em condições normais de temperatura e pressão, alguns pontos são primordiais para a manutenção de uma relação saudável (leia-se, aplicação do sexto mandamento bíblico: Não matarás!).

1. Espelho, espelho meu… existe alguém mais chato do que eu?

Já dizia o adágio que, ao falarmos de alguém, revelamos mais sobre nós mesmo do que sobre a pessoa da qual falamos. Alguns relacionam essa afirmação à Freud e seus ensinamentos sobre a necessidade e a importância do autoconhecimento perante os inúmeros relacionamentos que vivemos. O primeiro passo antes de nos envolvermos com alguém, seja qual for a natureza dessa relação – amizade, casamento, rolo, coleguismo, etc. –, é sabermos quem somos nós. É de suma importância termos o total domínio sobre o que queremos, o que desejamos e como agimos. Devemos navegar por nossas emoções, antes de nos aventuramos pelos caminhos do relacionamento, caso contrário, seremos eternamente frustrados e vítimas de nós mesmos.

O filósofo francês Jean-Paul Sartre, ao trabalhar as liberdades e vontades do indivíduo, afirma que “o inferno são os outros”, haja visto que toda relação humana é construída sobre a tênue linha que demarca o espaço de cada um em nossa sociedade. Nessa mesma esfera, encontramos os ensinamentos de Buda, que dizia “ser nós mesmos os outros” e do Cristianismo que afirma “ser o humano feito a imagem e semelhança de Deus”. Isto posto, independentemente da crença religiosa, a ideia central nesses ensinamentos é que somos iguais, somos humanos. E, sendo humanos: quem de nós nunca cometeu um erro? Antes de julgar o outro por qualquer atitude, por que não olhar para si mesmo e verificar de fato como você age?

Responda com sinceridade: Você se casaria consigo mesmo? Será que você realmente é uma pessoa fácil de se conviver? Será que você não está criando problemas onde não tem?

É, companheiros, autoanálise não é nada fácil. É, talvez, o mais dolorido dos processos, mas é o mais gratificante de todos.

2. Não faça com os outros o que você não gostaria que fizessem com você

Para lidar efetivamente com a família do parceiro é vital manter uma boa relação com o seu amado (obviamente!). O diálogo é a regra chave para uma boa relação, afinal de contas, vocês estão juntos nessa. Lembre-se de que a sua família também é estranha ao seu parceiro, a sua mãe também é sogra, a sua irmã também é cunhada, e, por isso, nunca coloque seu cônjuge em uma situação em que ele tenha que escolher entre você e um parente. Se você fizer isso, você o colocará numa situação muito difícil e dolorida, a qual você, com certeza, não gostaria que acontecesse consigo.

Ao invés disso, tente se colocar no lugar do seu companheiro, verifique os antecedentes de sua família, entenda o vínculo que seu cônjuge tem com seus familiares. Depois de tudo isso, você, certamente, verá com outros olhos o que se passa, terá uma posição mais neutra e clara. Se possível, apoie esse relacionamento, porque cá entre nós, mesmo que a sua sogra seja uma bruxa dos infernos, ao fim do dia, ela ainda é a mãe do seu amado.

Então, amore, morde a língua e segura na mão de Deus, e vai respirar fundo porque nem sempre as coisas são como a gente quer!

3. Cara de Paisagem

Para mim a mais importante das faces. Se você tiver que ter uma cara na vida, tenha a de paisagem. É o famoso ‘não fede e nem cheira’ e, por isso mesmo, evita um bocado de confusões. Para exemplificar, tenho uma fofoca para vocês.

Nos idos de 2011, logo que para cá me mudei, de mala e cuia, recebemos a família do marido para um jantar em casa (inclusive a sogra, ou melhor, a porca-mãe!). Após a refeição eu fui limpar as louças: coloquei as vasilhas na máquina de lavar-louças e as que ficaram perdidas eu resolvi lavar à mão…. Aqui surgiu o momento eureca da cara de paisagem!

Para lavar as louças à mão, os dinamarqueses possuem uma técnica bem interessante – como vocês vem neste post aqui – que eles desenvolveram para melhor utilizar (e economizar) água em sua região. E foi exatamente aqui que surgiu o primeiro choque cultural: minha sogra resolveu me ensinar a lavar uma panela (engordurada!) em sua técnica de submergir a louça numa bacia com água escaldante e gotas de sabão diluída, passar uma escovinha, e colocar a louça para secar sobre um pano de prato (sim, com sabão e tudo!). Para evitar conflitos e futuros problemas (e também porque sou muitoooooooooooo curiosa!), eu coloquei a minha face de paisagem bem respeitosa e observei a sua técnica – que é bem interessante, mas, não me parece muito realista para uma panela engordurada – enfim, assim que a sogra se retirou da cozinha, não preciso lhes dizer que eu dei uma de João sem braço, fingi que não era comigo e lavei a panela ao modo brasileiro: sabão na bucha, esfregar e lavar.

Ninguém se ofendeu, todo mundo feliz, alegre e satisfeito. Neste caso, específico, ficaríamos horas discutindo quem estava com a razão, quando, na verdade, nenhuma e todas estavam. Há certas coisas na vida que não valem a pena serem discutidas, até mesmo porque, muitas coisas são o que são, e não há explicação.

Use e abuse da Cara de Paisagem, principalmente, naqueles momentos que você gostaria de mandar alguém ir passear lá onde Judas perdeu os joelhos, mas não pode.

4. Curiosidade Absoluta

“Seja curioso”, li essa frase em algum lugar quando criança, aliás nem precisava lê-la para saber que ela é o meu lema de vida. Alguns dizem que a curiosidade matou o gato, eu digo que é mentira. O gato morreu porque não era bem informado e tomou decisões sem estar precavido…. Ok, papo de advogado!

A verdade, meus queridos, é que sejam abertos a essa nova família e cultura, observem o que eles fazem ou falam, pesquisem sobre a história do local e da família, sobre o país e etc.. Não fiquem com vergonha porque não entendem algo ou não gostam de uma comida, sejam sempre honestos consigo mesmo e com os outros. Saibam dizer não para aquilo que não gostam, mas, antes disso deem ao outro a chance de lhes conquistarem.

O incerto pode ser mais prazeroso do que o se pensa, ou como diz Paulo Coelho: “se você pensa que a aventura é perigosa, eu sugiro que você experimente a rotina…. É mortal!”

Arrisquem-se!

5. Paciência e Respeito

Já sabemos que todos os seres humanos são, não só diferentes, como distintos. Deste modo, possuem hábitos, gostos, ideias, pensamentos e tudo mais o que você imaginar fora do ‘seu padrão’ de validade.  Alguém ser diferente de você ou do que você idealiza não é ruim, muito pelo contrário, a vida é em sua essência plural, portanto, não espere que a família do seu amado seja a descrição perfeita da propaganda de margarina.

Aprenda a ser tolerante com as diferenças, tenha respeito pelo desconhecido, não assuma nada como ruim ou bom sem antes saber o que é de fato. Lembre-se, o gato não morreu porque era curioso, mas porque era mal informado.

Não há pessoa nem lugar nesse mundo que seja perfeito. A perfeição se encontra no conjunto da obra, só resta saber se essa obra é o seu ideal de perfeição e felicidade. Mas antes disso: tenha paciência e respeito para com ela!

6. Resignação

Todos nós somos livres, portanto não podemos controlar completamente o que os outros pensam ou falam sobre nós, e, por conseguinte, não somos responsáveis pelo que os outros sentem ou falam de nós, contudo, somos, exclusivamente, responsáveis sobre tudo aquilo que pensamos, sentimos e falamos. Em outras palavras, a questão aqui é a sua postura, afinal de contas, a sua felicidade e paz interior estão em jogo. No entanto, é bom ter ciência de que, antes de mudar o que não gosta no mundo, mude o que não gosta em si mesmo.

Não existe fórmula mágica nem manual técnico que nos ensine a lidar com nossos relacionamentos e experiências, cada ser humano é único, cada experiência é única e, como diz o ditado: “só você sabe onde o sapato aperta”. Porém nos foi dado o poder do livre arbítrio, e com ele podemos escrever a nossa própria história.

Beijo grande da Má a todos vocês e, em especial, ao primeiro e grande amor do amor de nossas vidas: a Sogra de todos nós! Infinitamente obrigada por criar e amar estes lindos seres humanos, com os quais hoje compartilhamos a nossa existência.

Fiquem bem e até a próxima!

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