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Discriminação Pelo Mundo Japão

Discriminação contra brasileiros no Japão

Discriminação contra brasileiros no Japão.

Eram quase 11 horas da manhã de uma sexta-feira quando eu me sentei no banco do carro de uma imobiliária em Hamamatsu, província de Shizuoka. O plano do dia era visitar os apartamentos que eu havia selecionado na internet e decidir o local mais adequado para a minha mudança, considerando o tamanho, preço de aluguel, planta, localização, etc.

Sentei no banco de trás um pouco nervosa, mas animada. Em mãos, segurava um caderninho no qual havia gasto oito páginas listando os prós e contras de todos os apartamentos escolhidos. O corretor, um homem na faixa de 40 anos e com a típica formalidade japonesa, deu a partida em direção ao escritório da imobiliária. Seria um dia longo.

Para quem não sabe, Hamamatsu é a cidade mais brasileira do Japão. A comunidade está próxima aos 10 mil residentes, maioria descendentes de japoneses com visto permanente e que trabalham nas muitas fábricas locais. Ainda no caminho, pude perceber uma ou outra bandeira do Brasil em comércios, e era quase como estar em casa.

Leia também: Preconceito e discriminação: você pode sofrer um dia

Enquanto observava as páginas do meu caderninho e fazia algumas anotações finais, comecei a conversar com o corretor, de nome Masuda. Ele me contou que os apartamentos que eu havia escolhido ainda estavam todos disponíveis de acordo com a checagem naquela manhã, o que me deixou feliz em saber que teria opções.

— Mas tem um… porém — ele disse, de repente. Estávamos no carro fazia uns cinco minutos.

— Que tipo de porém? — eu quis saber, nervosa.

— Precisamos conferir quais os proprietários aceitam alugar para brasileiros.

— Como assim? — perguntei, sem entender o problema.

— É que logo depois da crise de 2008, muitos brasileiros que perderam o emprego simplesmente abandonaram o apartamento. Saíram sem avisar ou pagar o aluguel, desde então muitos proprietários recusam.

Engoli em seco tamanho absurdo. Infelizmente, acredito que isso seja verdade, mas não consegui acreditar que algo ocorrido há 10 anos fosse utilizado para discriminar as pessoas hoje, pelo simples fato de terem nascido no mesmo país e sem terem feito nada de errado. Respirei fundo e pensei: “Fica tranquila, não vai dar nada.”

Ledo engano. Minutos depois estávamos no escritório, sentados um de frente para o outro. O simpático corretor começou a imprimir todas as opções que eu tinha selecionado, pacientemente. Quando eu já estava examinando as oito folhas impressas, ele começou a fazer as ligações. “Vou tentar convencê-los”, prometeu antes de pegar o telefone.

Foi aí que o show de horrores começou. Aquela sensação de estar sendo vendida no mercado negro, mas com muito esforço, afinal eu tenho defeitos graves, sou estrangeira e pior ainda: brasileira.

Leia também: 10 curiosidades sobre o Japão

— Alô? Sim, é o Masuda da imobiliária X. Então, tem uma pessoa aqui interessada no apartamento… Mas tem uma questão. Ela é estrangeira, de nacionalidade brasileira para ser sincero. Ah? Não pode? Mas ela tem trabalho fixo e fala japonês. Vai pensar um pouco? Ok… Ah… Não dá mesmo? Tudo bem, obrigado.

Próximo.

— Ah sim… Ela tem nacionalidade brasileira… Mas ela não trabalha em fábrica e ela fala japonês… Mesmo assim não pode? Ok… Obrigado.

Comecei a suar frio ouvindo a conversa. Aquela vontade de puxar o telefone da orelha dele e mandar a pessoa do outro lado da linha longe. Mas tive que engolir. O que eu podia fazer? Como podia provar que, apesar de brasileira, sou boa pessoa e jamais abandonaria o imóvel?

No fim, das minhas oito opções restaram quatro, simplesmente porque esses quatro são apartamentos administrados pela mesma empresa, que por coincidência é a mesma do meu apartamento atual, a Daito Kentaku. Essa empresa inclusive oferece site de busca de imóveis em português, faz um serviço legal pensando também nos brasileiros. As outras, não querem nos ver nem pintados de ouro.

O dia passou, escolhi um apartamento que não estava nas minhas primeiras opções, mas era bacana. Fiquei satisfeita com a escolha, mas não consegui desfazer o nó na garganta. Contei essa história de forma resumida na minha página do Facebook e não faltou conterrâneos para contar, com uma triste naturalidade, experiências parecidas.

Infelizmente no Japão é assim. Brasileiros e outros estrangeiros são muito bem-vindos para suprir a falta de mão de obra, pagar os impostos e manter a economia do país em alta. Mas, para muitos japoneses, confiar em pessoas que nasceram em outras terras e compartilham de culturas e hábitos diferentes é um risco.

A discriminação contra estrangeiros é generalizada e geralmente se esconde atrás de telefonemas como eu presenciei ou recusa na prestação de serviços para não nativos. Nas cidades com muitos brasileiros há um preconceito pessoal que é fruto do mau comportamento de muitos conterrâneos, algo pelo qual infelizmente todos acabam pagando.

Mas há casos gritantes, que geram polêmicas e vão parar na mídia. No último verão, japoneses que alugavam guarda-sóis e cadeiras em uma praia de Okinawa, no sul do Japão, decidiram que se o cliente fosse chinês deveria pagar algo equivalente a 600 reais (20 mil ienes) pelo aluguel. Para os outros, o preço era em média 45 reais (1.500 ienes).

O motivo? Simples. Os chineses faziam bagunça, sentavam quatro pessoas ao mesmo tempo em uma cadeira de plástico, quebravam as coisas e iam embora sem se responsabilizar. Não demorou muito para o caso ser denunciado na prefeitura e a placa que anunciava o preço exorbitante aos nativos do país vizinho foi retirada.

Sofri discriminação, e agora?

O que fazer foi a primeira questão que eu refleti depois desse triste episódio. Como vou morar em uma cidade com muitos brasileiros, sei que outras chances de ser discriminada virão e eu devo estar preparada para enfrentar isto. A primeira dúvida é: reagir ou não reagir?

Eu acredito que o melhor é reagir com educação, embora algumas pessoas prefiram ficar caladas e outras, mais esquentadas, tendem a partir para o bate-boca.

Discriminação é crime no Japão, apesar de ainda ser um delito de pena leve. Porém, é possível abrir processo e, aparentemente, é fácil ganhar a causa na justiça e uma indenização. Quem passar por isso, pode alertar a pessoa que comete discriminação sobre as possíveis consequências deste ato.

Leia sobre: Dá para morar no Japão sem saber japonês?

Além disso, há um serviço do Ministério da Justiça em que é possível consultar sobre discriminação até mesmo em português (mais informações aqui). O número 0570-090-911 atende em dias úteis das 9 às 17 horas. Boa sorte e lembre-se: melhor não deixar passar ou dificilmente vão aprender a nos respeitar pelo ser humano que somos.

Divulgação Ministério da Justiça

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24 comentários

Andresa Março 25, 2018 at 8:40 pm

E sabe o que mais? Eles estão certinhos. Em todo lugar que você vê brasileiro em país de primeiro mundo é sempre fazendo merda. É claro que não são todos, mas é uma porcentagem alta o suficiente para chamar a atenção dos residentes destes locais. Aqui no Brasil nós temos uma grande lista de exigências para se alugar um imóvel, tendo até que ter fiador, justamente por causa dessa desonestidade das pessoas.

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Ana Paula Ramos Março 28, 2018 at 10:03 am

Oi Andresa, obrigada pelo comentário! Respeito a sua opinião, mas tenho que discordar, não acho que eles estão certos. Eles podem orientar os brasileiros, se preocupar em escrever as regras em português, avisar sobre multa ou ocorrência policial no caso de abandonar o apartamento. Mas eles não poderiam, jamais, condenar uma pessoa pela ação de algumas, apenas por ter nascido no mesmo país, isso é discriminação e esse ato jamais estará correto.

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Sheyla Itiki Novembro 6, 2018 at 1:46 am

Ou os brasileiros por estarem no pais deles aprender o japones oq no meu ver é o correto, do que esperar o país fazer as coisas pra estrangeiros, td tem seu preço e ninguém pode esperar menos de um pais capitalista, não acho preconceito a pessoa prezar pelo que elas conseguiram muitas vezes com sacrifico e muito tempo, eu mesmo sendo brasileira iria passar na lupa qualquer coisa que fosse ser feita para estrangeiros, independente da nacionalidade. É obrigação estrangeiro aprender a língua do país em que decidiu viver, o Japão já faz muito.

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Fabio Março 29, 2018 at 3:39 pm

Morei muito tempo ai no Japão, e sou muito grato ao país, o que eu mais vi foi brasileiros tentando ser mais “espertos” que os japoneses e deixando um monte de conta para trás, compravam já com a intenção de não pagar. Pagar o imposto, nem pensar, quantos brasileiros foram embora e deixaram os impostos para trás. Querem ter os mesmos direitos, mas não querem ter os mesmos deveres. Mas se for analisar, não é preconceito, aqui no Brasil, se você for de uma determinada área, ou determinado perfil, vai ter o crédito negado. Só que vão dar outra desculpa. Os bons sempre vão pagar pelos maus. Isso em qualquer lugar do mundo.

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Valdo Março 31, 2018 at 6:49 am

Olha o que vc passou deve ser triste mas analizando bem isso não é discriminação se eu fosse japones faria a mesma coisa pq brasileiro q moram aqui no jp so faz merda e depois nem quer saber de nada.Esses caras da tao certo depois q os brazukas fizeram com eles o negocio e não confiar em brasileiros.Apoio todos eles.

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Ana Paula Ramos Março 31, 2018 at 10:09 am

Oi Valdo, é discriminação sim. Seria diferente se alguns negros tivessem feito o mesmo e os japoneses decidissem não alugar apartamentos para negros? Aí seria racismo, não é? É a mesma coisa, cor de pele e nacionalidade não define caráter. Se for olhar os jornais, estão cheios de notícias de japoneses que roubaram, mataram, deram golpe em velhinhas… Nem por isso a população perde a confiança neles mesmos. Por que ter nascido no mesmo país transforma todo mundo em farinha do mesmo saco? Quando vc diz que o negócio é não confiar em brasileiros, vc se inclui nisto? Acredito que não!

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luis fontes Abril 1, 2018 at 4:18 am

Sou portugues e a ver a internet caí no seu blog.
Deixo-lhe apenas a verdade:
A maioria dos brasileiros que cá reside, em Portugal, traz consigo os hábitos do brasil. Por tal causa, e de suas atitudes, são ignorados ou simplesmente tolerados.
Ser brasileiro deve ser uma carga pesada no resto do mundo, uma pessoa pode ser culta, educada e rica, mas será discretamente afastada, pois infelizmente os brasileiros realmente agem assim, geralmente sem grande respeito ou mesmo honestidade.
Cá a maioria da população está farta de brasileiros e de seus hábitos. Infelizmente, os que não procedem assim não podem desculpar a maioria dos seus conterrâneos.
Em Espanha, França, EUA… A mesma coisa.
Portanto, o que aprendi, através de percepção e experiências negativas, é que em princípio não arrendarei casas para brasileiros, ou empregarei algum. Simples como isso.
Se a menina espera ser tratada melhor, terá que proceder de maneira que conquiste a confiança dos japoneses. Cá a má fama infelizmente é fundamentada. No Japão não conheço.
Mas em Êspanha, Reino Unido e França, posso dizer que pessoalmente constatei que os brasileiros são uma das piores comunidades em termos de civismo e qualidade individual.
Não vejo porque a indignação com os japoneses. Se não fossem tolerantes, já teriam deportado e proibido a entrada destes brasileiros todos. Porque nenhum país necessita de brasileiros. Os brasileiros é que buscam desesperadamente entrar nos países e a seguir agem fora das leis e ficam a reclamar do país como fazem por aqui. E como a menina está a fazer.
Portanto, volte para o brasil e lá será mais feliz,pois estará mais adaptada.
Cumprimentos de Lisboa

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Ana Paula Ramos Abril 1, 2018 at 11:42 am

Olá Luis, fico muito triste por você pensar desse jeito, espero que consiga refletir sobre o seu preconceito. Não somos todos iguais, há pessoas honestas e desonestas em qualquer país! Tenho certeza que você ficaria muito triste se fosse julgado apenas por ter nascido em Portugal, se as pessoas não confiassem em você por que outros portugueses fizeram coisas ruins. Você ficaria conformado com isso? Acredito que não! Então não trate os outros do jeito que você não gostaria de ser tratado, procure conhecer melhor. Há brasileiros fazendo coisas incríveis pelo mundo, aqui no Japão mesmo conheço pessoas maravilhosas que não merecem esse tipo de julgamento. Um abraço.

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Rafael Agosto 3, 2018 at 3:30 am

Não falou nada demais. Pura verdade. A verdade dói.

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Mauro Cristovan Abril 1, 2018 at 9:27 am

Japonesada não quer saber de amizades com o strangeiros, eles são auto suficientes, são melhores que os outros povos, isso na mente doentia deles, hipocritas!

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Aline Véras Abril 1, 2018 at 8:07 pm

No meu ponto de vista vc tem que conhecer a história primeiro, para depois tentar entender o que acontece nos dias de hoje.
Vivo no Japão há vinte anos! E acredito sim que vc tenha passado por tudo isso, pq eu tb passei!
Em 2015, em umas das províncias com menor número de estrangeiros/ brasileiros no Japão, a região de Shikoku. Fui alugar um apartamento e tb tive a mesma experiência!
Eu juro q não imagina que seria tão difícil! Por a região não ter muitos estrangeiros, os japoneses de lá eram ótimos conosco. Eram gentis, educados, muitos vinham em nossa direção para conversar em inglês. E quando viam que eu falava japonês ficavam ainda mais impressionados!

Mas, a imobiliária teve receio em alugar o apto para mim justamente pq tiveram uma experiência ruim com uma família de BRASILEIROS. Eles teriam alugado um apartamento que não era permitido pets, mas mesmo assim compraram um cachorro, a imobiliária descobriu obviamente, eles confessaram mas disseram que não tinham para onde ir. Então a imobiliária abriu uma exceção, contanto que eles criassem o cachorro na varanda. Claro que não obedeceram as ordens, e além disso viviam com o aluguel atrasado! A ponto de serem despejados por conta disso!
Agora me diz, vc confiaria de novo em alguém assim? Vc acha que eu fiquei revoltada e indignada com quem? Quem nessa história toda estaria realmente me prejudicando?

Para mim, quem manchou a imagem e me prejudicou foram meus próprios conterrâneos! Pessoas que não cumpriram os seus deveres básicos como cidadãos! Que mentiram, enganaram e deixaram uma imagem destrutiva para pessoas como eu, que necessitariam no futuro ter uma oportunidade!
Eu tinha uma cachorra tb, e de porte grande! Coisa que eu nem sonhei esconder deles, claro. E um trabalho estável! Não foi fácil convencê-los, mas sabe o q aconteceu? Esses mesmos japoneses que passaram por experiências ruins e tiveram dúvidas contra a minha pessoa sem ao menos me conhecer, me deram uma chance! Alugaram o apartamento pra mim! E sabe o que eu fiz? Morei por dois anos, pagando o aluguel sempre adiantado e na revisão para sair do apartamento, a mesma mulher que me contara o caso dos brasileiros, me agradeceu e disse estar impressionada com as condições do apartamento. Ela disse que nem parecia que alguém estava morando ali, me isentando até da taxa da limpeza, pois não era necessário fazê-la!

Pode acreditar, eu sei muito bem como é doído ser julgado pela raça! Sei que muitas vezes temos q provar sermos melhores até do que a média. Não basta ser bom, temos que ser melhores ainda.
Mas temos que aceitar que a culpa não é deles! Não é dos japoneses!

Em 1995, no auge da imigração vc sabia que muitas empresas gostavam dos estrangeiros? Muitos donos de fábricas tentavam oferecer mais dinheiro para que os estrangeiros mudassem para a sua empresa? Sabia que o povo nativo era mais receptivo e caloroso? Eram mais amigáveis?
Pois bem, um dia quando viemos pra cá, tivemos a oportunidade de escrever nossa história aqui no Japão! A oportunidade de mostrarmos quem éramos, o que defendíamos, como nos portávamos! Mas, ela foi aos poucos destruída! Por mim? Por vc? Não, mas é inevitável que o ser humano (não o japonês), o SER HUMANO não faça esse tipo de julgamento.
Além do mais, japoneses veem noticiário, o Brasil fica bem longe daqui mas a sua fama está no mundo todo!
Sou brasileira mas não tenho orgulho do meu país! As leis, o judiciário, o sistema educacional, o jeitinho destrutivo brasileiro.. são uma lástima!

O que podemos fazer aqui no Japão é tentar aos poucos mostrar que nem todos somos farinha do mesmo saco! Com certeza o próximo estrangeiro que alugar apartamento com aquela imobiliária onde morei, terá mais facilidade.. só espero que ele não a desperdice..

Resposta
Dexter morgan Abril 3, 2018 at 12:27 am

Falou tudo!! Fantástica resposta! Compartilho do mesmo modo de pensar. Parabéns!!!! 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼

Resposta
Heri Abril 2, 2018 at 10:12 am

Olá! Boa noite!
Por se tratar de propriedade privada, qualquer dono, seja de qualquer nacionalidade, tem o direito de recusar um inquilino. As chances de não obter êxito em uma demanda judicial creio que seja alta.

Resposta
Ana Paula Ramos Abril 2, 2018 at 11:51 am

Olá, boa noite. Acho que não é bem assim quando a recusa é por motivo discriminatório. É a mesma situação de um restaurante que recuse clientes estrangeiros, por exemplo. O proprietário é dono do restaurante, mas nem por isso tem direito de agir dessa forma. Aqui no Japão já houve polêmicas relacionadas a restaurantes e até onde eu sei os donos foram obrigados a retirar placas que informavam que o estabelecimento era apenas para japoneses…

Resposta
Anderson Kenji Kawanishi Abril 4, 2018 at 3:42 am

Sra. Ana Paula Ramos. A questão de discriminação é um paradoxo assim como a questão do Bulling. Nunca, em hipótese alguma o bulling pode ser considerado correto, aceitável, porém não podemos descartar que ele colabora pra fazer de alguns mais fortes. Eu sou um dos que tive experiência com bulling, sofri muito mas compreendo hoje que aquilo fez de mim forte. A discriminação funciona da mesma forma. Na realidade, podemos dizer que um é a extensão do outro. A discriminação seria psicológica e o bulling mais físico, lógicamente não necessariamente. Eu que passei por bulling e venci, cheguei sim a ser discriminado no Japão, mas ao invés de me irritar, de me estressar, de me ferir com isso, simplesmente busquei formas de contornar e solucionar o meu problema. Recebi não de proprietários de apartamentos, mas os que me aceitaram nunca me trataram mal. Inclusive, quando encontraram várias vezes latinhas de café ao lado da minha vaga de estacionamento, perguntaram uma única vez se era meu pois estava ao lado da minha vaga. Após eu responder que não era meu, não questionaram, simplesmente mandaram um aviso a todos os moradores do prédio. No final das contas, o problemavem antes mesmo da diferença cultural. Repare que a discriminação é um mal mundial. Assim como o bulling. Não existe um só lugar completamente livre destes citados. Então, onde começa o problema? No ser humano e no que chamamos de racionalidade. O poder de raciocinar gera a discriminação. Nós vemos, analizamos, compreendemos e julgamos as diferenças. Isso é raciocínio. Pensar é sinônimo de decidir. Para decidir algo, é necessário enxergar as diferenças e com base em algum fator decidir. Animais também decidem, mas é instintivo. Então, se a dicriminação e o bulling são um mal da consciência humana, como resolvê-lo? Simplesmente é impossível. Você não pode mudar o pensamento daquele que age com discriminação. Você pode mudar a sua forma de agir, pode mudar a sua escolha, pode se mudar. Você em sí, dentro do decorrer da sua vida está sendo injusta, discriminativa, etc com alguém sem muitas vezes sequer perceber. Repare que todos os problemas entre seres humanos surge de expectativas. Você só se sentiu discriminada pois na sua expectativa, você não deveria ser tratada daquela forma. Quando eu procuro um imóvel, já vou ciente que existem uns que não aceitam estrangeiros. É triste a situação, mas pense de maneira racional. O que você ganha forçando estes a aceitar os estrangeiros apenas por questões de anti-discriminação? Pra que a sua luta fizesse sentido, ela deveria ser em prol de mudar o pensamento destes japoneses em relação aos estrangeiros através de movimentos de compreensão multicultural por exemplo. Eles deveriam por si só, por vontade própria, mudar seus pensamentos dentro de seu livre arbítrio. Por exemplo, eu jamais irei conseguir mudar o seu pensamento. Pois você exerce sobre você mesma um direito de livre arbítrio absoluto. Eu posso influencia-la quando eu exponho as minhas idéias, mas nunca conseguirei mudar sua idéia. O livre arbítrio é algo poderosíssimo e muitos confundem o seu significado. Por exemplo, dentro do meu livre arbítrio eu posso por exemplo destruir tudo que você tem. Eu tenho o direito a isso dentro do meu livre arbítrio. Porém, existem leis que determinam penas para atitudes como essa. Assim eu tenho o direito de fazer o que eu quiser e o estado, dentro da autoridade dela tem o poder de julgar. É por isso que há países que podem fazer coisas que não podem ser feitas em outros países. O dono da propriedade tem o direito de recusar um estrangeiro. Os estrangeiros que sentirem-se constrangidos com tal situação, tem o direito de entrarem com processos, etc e tal. Não interessa se vai perder ou ganhar. Causa e efeito, ação e reação, não tem a ver com justiça, mas sim com livre arbítrio. Justo sempre depende do ponto de referência. Assim, a sua consepção de discriminação também depende do ponto de referência. Eu não posso discordar do seu pensamento pois o seu ponto de referencia não é o mesmo que o meu, e com relação a isso, não existe certo e errado, afinal você está no seu direito e eu no meu. Na verdade, creio que o problema está no exercimento abusivo do poder do livre arbítrio. As pessoas dos tempos de hoje acretitam que tem o poder de julgar tudo. Sim, isso entra dentro do direito ao livre arbítrio. Mas quando o livre arbítrio é utilizado excessivamente, são inúmeros os problemas resultantes dele. Um exemplo simples de que você não escapa dessa base é, se chega uma pessoa de origem duvidosa na sua casa, a qual você desconhece e se diz com problemas e pede-lhe que ceda um espaço para que a mesma possa durmir na sua casa, você aceitaria? Talvez você até tente responder, mas é retórica esta pergunta pois ela não pode ser respondida. Porque? Porque a sua decisão depende do máximo possível de informações e na falta, você decidirá com o que tem. Você analizara as roupas, a fisionomia, o sexo, a idade, a nacionalidade, e muitos outros fatores pra raciocinar se é seguro ou não. Se você se considera segura para ajudar essa pessoa. Se você for mãe solteira e seus filhos estiverem em casa, isso também influenciará na decisão. Na realidade não tem como você ter certeza se a pessoa é confiável ou não, mas provavelmente, se muitos fatores a levarem a crer que este indivíduo não é confiável, coisa que acontece na maioria das vezes, você se recusará a ajudá-lo, pelo menso da forma que o mesmo solicitou. Talvez você ofereça a ele dinheiro para dormir em um hotel ou você pague por ele, mas isso não muda o fato que você foi discriminativa para com este. Você não o conhecia e isso leva-a a julgar e a tomar uma decisão que seria diferente quando no caso de outras pessoas, familiares, amigos. Isso também é discriminação. Não estou julgando-lhe. Apenas exclamo que no final das contas, a discriminação é algo presente em nossas vidas, assim como a nossa necessidade de respirar. A discriminação nunca vai deixar de existir e a mesma de certa forma exerce um importante papel. Elas nos faz compreender o que nos incomoda e o que não. E isso varia de pessoa para pessoa. Se não suportar, faça o que achar melhor, mas não esqueça que sua ação gerará uma reação. Responsabilidades só existem porque somos racionais. Não podemos responsabilizar um leão por matar um humano. Nós podemos mata-lo simplesmente, mas ele não foi responsabilizado, afinal ele não compreende. O Brasil não é um mar de rosas, o Japão também não, mas no final eu preferi viver no Japão pois é mais conveniênte para mim. Os prós os contras. Como você citou, você anotava em um caderninho os prós e contras de cada apartamento. A discriminação que você sofreu deferia ser apenas um contra nestes apartamentos. E aqueles que aceitaram, seria um pró. Ouvi um caso de Brasileiros que sofreram “discriminação´´ na aquisição de um terreno para construir a casa própria. Os japoneses do bairro recusaram. Eles brigaram na justiça e “ganharam´´, pois realmente, tecnicamente falando, recusar apenas por tratar-se de estrangeiros fere os direitos de igualdade do estrangeiro. Eles brigaram judicialmente dentro do direito de livre arbítrio deles. Os visinhos tiveram de engolir seco. E sabe como terminou? Já que forma julgados por discriminar estrangeiros, foram extremamente rígidos com os mesmos com relação às regras. Mas eles não fizeram nada de errado desta vez. Afinal, como todos faziam isso sem problema, estavam apenas exigindo que fosse feito igual. O direito a igualdade gera a responsabilidade de igualdade. Reuniões de bairro, taxas de conselho de bairro, taxas de NHK, reclamações pela voz alta, já que todos ali falavam baixo, eles não poderiam mais serem perdoados só por serem estrangeiros. Ou seja, pegaram no pé ao extremo e no fim, os Brasileiros venderam a casa e compraram em outro lugar. Um que não os recusou. Lógico que já que ganharam da última vez a causa, tentaram processar de novo mas “perderam.´´ Afinal, os japoneses brigavam só com eles, mas isso não era discriminação. Eles brigavam com eles pois eles não queriam ser iguais. Ai claro que quiseram apelar pelo conceito de multiculturalização e compreensão das diferenças de cultura. Mas não tinha como ganhar dessa vez. Por isso, entre aspas “ganharam.´´ O próprio Brasileiro discrimina os negros, as baianas, os produtos de camelôs, dizendo que não prestam pois são da CHINA!!! Outra discriminação. Uma coisa não justifica a outra mas hipocrisia está presente em todos. Todo ser humano é hipócrita. Só muda o grau de hipocrisia. Todo mundo comete erros, é discriminativo, judia de pessoas, pois o bulling não baseia-se na sua concepção de certo ou errado, mas sim na forma com que a pessoa que sofre sente-se. Até na política discriminamos. No final, acabou que tornou-se um texto enorme, mas termino ressaltando que não tenho nada contra a você ou aos demais que aqui postaram. Só acho que ao invés de reclamarmos, deveríamos nos juntar e pensar em como solucionar os problemas. Caso interesse, em meu site disponibilizo o meu conceito de multiculturalização. O conteúdo fala exatamente o que eu disse aqui e encaixa-se em qualquer situação na minha opnião. Fique a vontade para ler e realizar sugestões ou dar suas opiniões a respeito. https://www.putznetwork.com/os-servicos

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Voller Junho 24, 2018 at 6:32 pm

Os japoneses estão mais que certos. Tem que privilegiar os nativos. Estrangeiros, ainda mais brasileiros desonestos devem ser expulsos do país.Não duvido da sua honestidade, mas para você tem 10 outros brasileiros filhos da puta que aprontam no país dos outros. Acho que discriminação é diferente de se proteger.Enfim, acho mais que correto o que os japoneses fazem!

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Ana Paula Ramos Junho 26, 2018 at 9:02 am

Desculpe discordar, mas discriminação é sempre discriminação, ninguém é responsável pelo atos dos outros, não sou culpada pela falta de caráter de nenhum brasileiro, tão pouco tenho crédito pelas ações sociais e positivas de muitos outros brasileiros no Japão. Se você acompanha as notícias dos jornais japoneses, sabe que há muitos japoneses golpistas, presos por fraude, por furto, por roubo. O Japão registra quase toda a semana casos de adolescentes que matam o pai ou a mãe. Ou a mãe ou pai matam o filho, crimes que são raríssimos no Brasil mesmo com toda a violência que já conhecemos. Agora eu pergunto, a atitude desses japoneses representam toda a nação? Deveria “me proteger” dos japoneses? Já que alguns são assim, todos são iguais? Se eu tiver esse tipo de pensamento, estarei discriminando, sendo racista, usando a origem da pessoa para justificar os atos dela. Na condição de humanos somos singulares, diferentes uns dos outros, com criações e educações muito diferentes, mesmo sendo do mesmo país. É ilusão achar que um ato bom do brasileiro no exterior representa todo o resto da comunidade, assim como um ato ruim. Acho que é um erro terrível e pouco lógico esse pensamento de que somos todos farinha do mesmo saco, não somos!

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Paulo Dezembro 21, 2018 at 6:12 am

Sobre mortes em famílias no Brasil serem raros,discordo.Esses tipos de crimes ocorrem aos montes em vários países,a diferença é que o Japão divulga com mais frequência,devido ao baixo números de outros crimes de relevância.No Japão ocorreram em torno de 990 homicídios (2017),desses 544 envolviam famílias,significando 0,4 assassinatos para cada 100.000 pessoas.No Brasil,ocorreram 62.000 homicídios (2016),desses 620 a 2,480 mortes envolviam famílias,significa 0,3 a 1,2 assassinatos para cada 100.000 pessoas.

Resposta
Willian Doho Agosto 23, 2018 at 9:57 am

Ola Ana, me sensibilizo muito com sua historia.
Passei por muitas situacoes parecidas e sempre ficava frustrado, vejo que algumas pessoas ja estao conformadas com a discriminacao e se encontram cegas e anestesiadas com o tratamento recebido.
Nao devemos nos calar diante a xenofobia, mesmo com conterraneos tendo mal comportamento nao devemos ser julgados por nossa nacionalidade, e sim por nosso carater.
(Desculpe os erros de Portugues)

Resposta
Ana Paula Ramos Agosto 26, 2018 at 11:15 am

Obrigada Willian! Também fico triste vendo pessoas conformadas e até apoiando a discriminação, incapazes de ver o quanto isto está errado! Obrigada pelo seu comentário!

Resposta
Takuo Okada Setembro 13, 2018 at 2:08 am

Ana Paula Ramos
Isso que estás passando é cultura de cada país, sei que dói em nós esta discriminação mas saiba que a vida não é feito como deveria ser e algumas vezes temos que passar situações que nos indignam mas isto é a realidade em qualquer lugar, seja no Japão , USA, China ou na Rússia.
E nós como brasileiros mostramos uma parte horrível que achamos que nada pode acontecer com a pessoa no Japão e tem situação de brasileiros presos que acham que a polícia japonesa é igual a polícia brasileira e nada acontece.
Não adianta querer impor sua vontade e seus direitos e que nestes 40 anos dos dekasseguis o Japão teve que conviver com pessoas de índoles muitos incorretos e eu na época assistia TV e pensava como que eles os japoneses certinhos para meu gosto ia solucionar este impasse.
Meu vizinho quando descobriu que eu era brasileiro no outro dia não me cumprimentou e fazia questão de não cumprimentar.
Como era “ESTRANGEIRO” no país deles aceitei e também deixei de cumprimentar ele e assim segui minha vida e sem remorsos.Muitos brasileiros tiveram problemas no emprego por não aceitar a submissão imposto por sermos dekasseguis,
A minha sugestão se está dífícil aguentar essa discriminação (E ISSO VAI ENCONTRAR EM QUALQUER CANTO, POR SERMOS BRASILEIROS ) e só mudar de ares e seguir seu caminho que tenhas traçado e viver feliz para sempre.
Minha filha cabeça fria e bola para frente , não seja CAICAI COMO NEYMAR.

Abraços
Takuo Okada.

Resposta
Akemi Novembro 17, 2018 at 3:00 am

Mana fui criada aqui no Brasil, Manaus (e ainda tô né, querendo sair daqui o mais rápido possível), e vou te contar… Acredita que na greve dos caminhoneiros que teve, a MAIORIA dos postos de gasolina estavam roubando descaradamente dos consumidores com preços exorbitantes e se aproveitando da situação!? Brasileiro é um bicho aproveitador sim! É quase da cultura deles já. Se o caixa der o valor errado no troco, sendo valor à mais, o cabra não devolve! E ainda sai de consciência limpa se achando na vantagem. Os vizinhos são calorosos… Beleza, mas e o funkzão que botam nos dias de semana pra tocar lá nas alturas? PURA FALTA DE EDUCAÇÃO.
Aqui em Manaus… Os igarapés são só o lixo e pra completar vem uns pedintes nos ônibus gritando horrores, uns que são “ex-presidiarios” com tornozeleira eletrônica que te fazem tortura psicológica pra tu comprar oq estão vendendo, e uns MAL caráter que se fingem de deficientes.
Sinceramente eu não aguento mais essa bagunça toda, assassinado aqui tem todo dia, e é bem uns 8 casos…. E assalto à ônibus? Rum! Recorde de 20 registrado em um dia!

Resposta
Laurence Kodansky Dezembro 17, 2018 at 12:55 pm

Entendo perfeitamente sua indignação em relação a esta situação que tem cara de preconceito ou discriminação racial. Antes que se chegue a qualquer conclusão é necessário um aprofundamento na questão e uma reflexão isenta, sem vitimismos, do que é preconceito.
Da maneira que você expôs sua experiência fica claro e óbvio que os japoneses estão equivocados, pois não podem compará-la a pessoas que fizeram algo errado no passado recente. Mas fica aqui meu questionamento; como você agiria se fosse dona de um empreendimento imobiliário que, não visa outra coisa, mas o retorno de seu investimento, e que alugou unidades de seu imóvel para pessoas que destruíram, quebraram, ou abandonaram seu bem sem ressarci-la? Como você agiria se sua rede de contatos, também empreendedores no mesmo ramo imobiliário passassem pelo mesmo problema? É de fundamental importância dizer que dezenas e dezenas, centenas de brasileiros fizeram isso! Não são casos isolados, são incontáveis casos de depredação, destruição e prejuízos causados por brasileiros em apartamentos públicos ou privados. Não estou colocando nesta conta os indivíduos que, além da destruição física, não respeitam ou seguem as normas mais simples de convivência e regras dos condomínios. Já me foi relatado, pelo próprio personagem, com a maior naturalidade do mundo, que após ser expulso do prédio onde morava ( descobriram que ele possuía um cachorro, mesmo tendo sido avisado que não poderia ter qualquer animal ) defecou no chão da sala, como vingança. Nesta questão, a palavra preconceito não se encaixa, pois não se trata de um pré julgamento, quando um certo comportamento torna-se um padrão comum, passa a ser um fato, uma constatação. Você, eu, o amigo brasileiro que segue as regras deste país, somos excessões.

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Ananda Fevereiro 10, 2019 at 11:01 pm

Mais uma vez sofremos as consequências pelos atos de outros tentando ser mais espertos, dando um “jeitinho brasileiro”. Muitos estrangeiros ficam com um pé atrás em relação aos brasileiros, porque algum brasileiro ou mais de um já fez algo de ruim para eles. O grande problema do Brasil é que os brasileiros querem sempre estar por cima uns dos outros, tentar passar pelas situações como o único vencedor e mostrar que é mais esperto.

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