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Dizer adeus em Havana é mais difícil

Dizer adeus em Havana é mais difícil.

Criar laços e fazer nossa rede de apoio é fundamental para se ter êxito na adaptação quando se vive como imigrante. Por isso é tão complicado o adeus, principalmente, quando esse vínculo se torna forte.

É difícil reconhecer um amigo. Vou tentando de todas as formas, sempre me mantenho aberta e disponível para que isso possa acontecer.

Mas, não é como comprar uma roupa, em que você escolhe, prova e sai satisfeita. É preciso empatia, entrega e cuidado ao se fazer a construção de pontes que geram uma amizade. Que pode ser que não dure para sempre, mas não quer dizer que não foi boa enquanto durou.

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Conquistar amizade em um outro país que não é seu, com as pessoas mais diversas, de diferentes culturas, experiências, vivências, ou mesmo, seus próprios compatriotas, que pela imensidão do Brasil, podem ser tão diferentes quanto um estrangeiro, é “debulhar o trigo, recolher cada bago do trigo , forjar no trigo o milagre do pão e se fartar de pão”. Um trabalho de agricultor que prepara sua terra para cultivar, regar e cuidar. Ter paciência para esperar crescer e humildade para aceitar o que vier.

Em Havana veio fácil, muitas delas, contatos diversos, e uma amplitude de solidariedade que só um país como Cuba pode gerar nas pessoas. Como é preciso se comunicar, perguntar e pedir ajuda na rua, nos grupos de Whatsaap etc,  para encontrar qualquer coisa como, por exemplo, alimentos, na ilha as pessoas estão mais disponíveis. E uma ajuda gera uma retribuição e um possível vínculo como consequência. 

Mas nem sempre nasce a empatia, a magia, e apenas fica no coleguismo que também faz parte, é bom e importante. Afinal, é assim que se dá em grande parte as relações interpessoais e não há mal nenhum nisso.

A arte da comunicação e da interação social é algo muito natural em mim, uma das minhas qualidades e que eu amo. Adoro conversar. Aprendo muito interagindo e conhecendo outras pessoas, algo muito prazeroso pra mim. No entanto, mesmo para as pessoas comunicativas, sociáveis e nada tímidas como eu, a amizade não acontece de forma fácil, existe uma cobrança quanto a isso, porque você interage com muita gente, mas sair da superficialidade e ser de fato amigo, é mais do que simplesmente o contato.

Quando se vive em uma ilha se sente forte a sensação de isolamento e se ainda por cima é Cuba, a sensação se multiplica por mil vezes mais. Por ser um país fechado, de difícil acesso e com um modo de vida muito peculiar, o sentimento é de estar muito longe do mundo inteiro. Como se fizesse uma viagem à lua e visse lá de cima todo o planeta, dá pra ver tudo, mas não dá pra tocar e nem sentir com os pés. 

E para não gritar e fazer eco nessa caverna sozinho, chamamos pessoas pra que fique mais divertido gritar e escutar várias vozes de uma vez só, tudo ao mesmo tempo e misturado. Nos mesclando uns aos outros e deixando a sensação de isolamento bem longe do coração. É essa magnitude de importância que tem os amigos em Havana.

Encontrei amigos queridos para gritar na caverna junto comigo.  Gritamos, cantamos, rimos alto, falamos mais alto ainda e competimos para contar histórias. Mas sempre tem aquele amigo que faz todos os outros pararem para escutar. Giordano é um deles. É o cara mais engraçado que eu já conheci e o melhor contador de histórias do mundo inteiro. Junto com Mirinha, sua esposa, uma querida amiga muito honesta, com um ar de mulher nordestina arretada e a delicadeza fina e elegante de uma folha  posta em uma das belíssimas mesas de jantares, almoços e cafés preparadas por ela com tanto esmero. Esses dois juntos foi o imã que uniu tanta gente boa. E, eu e meu esposo estávamos aí conectados a esses imãos que fizeram nossa vida habaneira até então pura diversão, companheirismo e o sentido pleno de se sentir com um amigo. 

Tempera pra render nas ruas de Havana

Não sei como dizer adeus. 

O tempo é tão precioso quando se tem amigos e tão boa companhia que o fim de semana fica pequeno. E como diz nosso grande poeta Giordano, deixar os afazeres para voltar à rotina do trabalho da semana é um desperdício de tempo. 

E como ficará esse tempo agora sem os nossos afazeres do final de semana? Cruel pensar que já não vai ser como antes. São os ciclos da vida que vão se juntando e formando uma colcha de retalhos e, na nossa colcha, já tem bordado o Karaokê, a sofrência, o canto do Pavaroti do Caribe, o tempera pra render, a cristal, o junta panela, buscar pão no sábado, o ser chique com Mirinha, as risadas gostosas, livres, leves e soltas, junto com conversa sobre política e assuntos pessoais, porque nada era tão levado a sério.

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E nessa imensidão de Mundo nos repartimos. E assim eles se vão pra longe da ilha da fantasia e deixando no lugar sentimentos como a saudade, a falta e o vazio que só pessoas que se fazem presentes em nossas vidas, ousam deixar.

“Oye esta canción que lleva alma, corazón y vida

Esas tres cositas nada más te doy

Porque no tengo fortuna, esas tres cosas te ofrezco

Alma, corazón y vida y nada más”

Essa música fez parte desses muitos encontros que uníamos, em grupo, para cantar.

“Que beleza, meu patrão” : Giordano Bruno, em um de seus bordões que nos faz rir sempre.

E de outro lado, as mesas elegantes bem postas com o talento de Mirinha, ela, a dona da sobriedade e sensatez, que nos traz à realidade em nossos momentos de delírio etílico. E a hashtag #quero_ser_chique_como_Mirinha que faz jus à sua fama, apesar de estar rodeada de gente totalmente fora da caixinha.

Em Havana, é mais difícil dar adeus, porque ao olhar para os lados e se ver só, é como estar na lua sem amigos. Ao mesmo tempo, existe imensidão e o nada coexistindo no mesmo espaço, sem a vivência da vida, sem sentir os pés no chão. 

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