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Entrevista com Carleara Weiss, diretora da BRASCON e doutoranda em enfermagem

A Paula, autora aqui do blog, teve o prazer de entrevistar Carleara Weiss, doutoranda em enfermagem na University at Buffalo e fundadora da Brazilian Graduate Student Conference (BRASCON, uma conferência de estudantes de pós-graduação brasileiros nos Estados Unidos).

Carleara é carioca de Miracema. Dançou balé dos 5 aos 17 anos, mas decidiu trocar a carreira de bailarina pela de enfermeira. “Na época, só a Ana Botafogo, branca e de classe média-alta, era conhecida. Não havia uma bailarina negra em que eu pudesse me espelhar. Desisti de uma bolsa de balé que ganhei, e comecei a pensar no vestibular. Minha bisavó era parteira e meu avô aplicava injeções. E eu, desde pequena, me interessava por essas coisas também. Eu tinha um “kit cientista” e passava horas fazendo experimentos, abrindo minhas bonecas e colocando “curativos” nelas. Logo, enfermagem foi uma transição natural para substituir o balé.”

BPM: Como você decidiu fazer doutorado em enfermagem nos EUA?

Carleara: A decisão foi difícil por vários motivos. Primeiro, eu queria ter vindo na época da faculdade, quando eu já fazia pesquisa, mas não tinha grana para isso.

Segundo, o enfermeiro no Brasil não é reconhecido como cientista. Uma bolsa de estudos como as da Fulbright para enfermeiro é algo raro – nos editais, o enfermeiro vê que a descrição da pesquisa está relacionada com a sua, mas “enfermeiro” não está entre as profissões que podem se inscrever para aquela vaga.

Terceiro, eu já tinha uma vida profissional estabilizada quando finalmente surgiu uma oportunidade de bolsa para doutorado. Além disso, eu já tinha mestrado e lecionava em duas universidades. Fazer doutorado nessa altura da vida traz um impacto grande.

Em quarto lugar, há muita desinformação. Muitos acham que enfermeiro que faz mestrado ou doutorado está apenas interessado no título e no aumento no salário que isto representa. O que eu ouvia muito era “não vale a pena largar sua vida aqui só pra ter um título de doutor”. Eu não queria “só ter um título”. Queria oferecer qualidade de vida para os pacientes.

Eu me lembro de ter ligado para minha mãe quando vi um edital da CAPES para Doutorado Pleno no Exterior em que poderia me encaixar, e ela me apoiou muito. Então, mergulhei de cabeça no processo e parei de contar meus planos para outras pessoas. Só contei para os amigos e família quando já estava com as malas prontas pra ir embora do Brasil.

Carleara apresentando a BRASCON 2016 em Harvard. Fonte: acervo pessoal.

A escolha da universidade foi outro momento complicado. Enquanto no Brasil são poucas as opções de doutorado para enfermeiro, aqui são milhares! É difícil escolher diante de tanta pesquisa boa que os enfermeiros, com muito orgulho, lideram aqui nos EUA.

No Brasil, eu fazia pesquisa relacionada ao envelhecimento e à qualidade nos cuidados geriátricos. Com isso, trabalhava com enfermagem dermatológica, oncológica, médico-cirúrgica, tudo sob o foco da geriatria. Pensava que faria doutorado usando biotecnologia, desenvolvendo algum tratamento para rachaduras de pele, um problema dermatológico do envelhecimento. Acabei optando pela University at Buffalo pela possibilidade de pesquisa multidisciplinar, experimental e biotecnológica.

Ser aceita no doutorado foi outro ponto difícil. O processo de seleção e a formação acadêmica do enfermeiro nos EUA são bem diferentes do que temos no Brasil. Acho que outras profissões sofrem menos com isso. Foram várias provas, entrevistas, cartas de motivação…. um processo longo e solitário. Só continua quem tem muita determinação e certeza do que quer.

Mesmo com essas dificuldades, cada minuto aqui vale a pena. Em Buffalo, tive oportunidade de navegar por várias áreas de pesquisa no primeiro ano e vi que minha ideia inicial era falha. Ao mesmo tempo, me encantei com a cronobiologia (estudo do relógio biológico) e com a medicina do sono. Entendi que poderia finalmente desenvolver pesquisa que melhorasse a qualidade de vida dos pacientes, juntando minha experiência em geriatria e oncologia somada aos aprendizados em biotecnologia e cronobiologia. E assim, finalmente, minha paixão pela ciência fez sentido.

BPM: Existem diferenças marcantes entre seguir esta profissão no Brasil versus nos Estados Unidos?

Carleara: As diferenças são muitas, desde a formação profissional até o mercado de trabalho. Infelizmente, no Brasil, o enfermeiro ainda não tem autonomia, salário digno e respeito. Quando você pergunta o que enfermeiro faz, poucos sabem explicar. Quando pergunta o que o enfermeiro faz no doutorado, então… ninguém entende! Nem a sociedade em geral nem o meio médico valorizam a profissão. Aqui nos EUA a autonomia é maior, a profissão é mais valorizada e há mais opções no mercado de trabalho.

BPM: Como a mulher é tratada ou vista nessa área no Brasil e nos EUA? Que barreiras comuns que as mulheres enfrentam, e o que podemos fazer para seguir em frente?

Carleara: A enfermagem é uma profissão majoritariamente feminina, e como a sociedade ainda é machista, há desrespeito sim. O fetiche em torno da profissão é grande e também favorece a desvalorização e o assédio no trabalho. Existe o estereótipo da enfermeira como “mulher fácil”. Essa visão machista existe tanto no Brasil quanto nos EUA. Acho que a diferença é que nos EUA as pessoas conhecem melhor os seus direitos e acionam legislação que as protegem contra assédio no trabalho.

Eu comecei a trabalhar no Brasil com 23 anos. Sendo mulher, jovem e negra, sofri com assédio disfarçado de “elogio”. Aprendi a me impor e nunca me calei. Denunciei logo que me senti incomodada. Ganhei fama de “enfermeira brava” e aquilo nunca mais se repetiu. Essa fama de “brava” me acompanhou também como professora. Na verdade, foi a forma que eu encontrei para estabelecer limites. Quero um ambiente de trabalho livre de assédio, seguro e profissional!

BPM: Como surgiu a BRASCON e como foi a última conferência?

Carleara: A última BRASCON foi na University of Southern California, em Los Angeles. A conferência surgiu da necessidade de conectar os estudantes brasileiros de pós-graduação que estão nos EUA. A BRASCON oferece oportunidades de networking, desenvolvimento profissional, colocação no mercado de trabalho e parcerias para pesquisa. Temos sessões para desenvolvimento profissional, palestras e debates com profissionais brasileiros de destaque em várias áreas, além de apresentações de trabalhos.

Quem participa da conferência sai dela inspirado a contribuir para uma sociedade melhor e com a certeza de que de o cientista brasileiro tem valor e causa impacto positivo onde estiver. Tivemos nos últimos dois anos palestras com Miguel Nicolelis, Marcelo Gleiser, Angela Olinto, Roberto Alvarez e Agenor Mafra-Neto, pessoas que chegaram aqui também como estudantes, e que trilharam um caminho de sucesso como cientistas, inovadores e cidadãos. Ouvi-los contar como superaram as dificuldades e conseguiram trilhar um caminho de sucesso é uma motivação tremenda.

Independente da área de pesquisa, como cientistas e cidadãos, nós queremos um futuro melhor. Nós, da BRASCON, acreditamos que a ciência é um caminho para isso, construindo uma comunidade científica engajada, ética e consciente do seu impacto.

Somos todos voluntários na BRASCON, e 80% do nosso pessoal são mulheres. Nós somos a próxima geração de cientistas brasileiros e queremos nos unir para ajudar uns aos outros na construção de uma sociedade mais justa, usando a ciência, a tecnologia e a inovação como ponte para isso.

Fica aqui o convite para nos ajudar nessa missão! Entre em contato através do [email protected], acesse nosso site e nos siga no Facebook!

Carleara, o BPM agradece a gentileza de nos conceder esta entrevista e compartilhar conosco sua trajetória, que é uma grande inspiração para outras brasileiras! Muito obrigada pela sua disponibilidade e parabéns pela sua liderança e conquistas!

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8 comentários

Carleara Weiss Julho 14, 2017 at 8:06 pm

Obrigada, Paula Martins, por essa oportunidade única de compartilhar minha experiência e falar da BRASCON!
Uma honra estar aqui no Blog. Parabéns pelo trabalho que vocês fazem! Sou fã!
Abraços,
Carleara

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Paula Martins Julho 15, 2017 at 10:13 am

Obrigada você, Carle, por ser essa mulher tão inspiradora! E por ter concedido esta entrevista!
Um super beijo,
Paula

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Tadeu Miracema Julho 16, 2017 at 1:16 am

Como miracemense estou muito orgulhoso da Carleara. Parabenizo o blog pela entrevista e a conterrânea pelo trabalho.

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Paula Martins Julho 16, 2017 at 9:57 am

Muito obrigada, Tadeu!

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Carleara Weiss Julho 16, 2017 at 4:01 pm

Muito obrigada, Tadeu! Orgulho de ser Miracemense

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guilherme ribeiro Julho 25, 2017 at 9:45 am

Estou muito orgulhoso por saber que com todas dificuldades a carleara nao desistiu; E esta se esforçando cada vez mais parabens! E continue sendo a pessoa que e vc sera mais um orgulho para MIRACEMA e sua familia. Parabens…….! Va enfrente a VITORIA ja e NOSSA em ter vc !

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Clelia de O S Martins Outubro 29, 2017 at 11:33 pm

Boa noite Carleara! Sou Clélia Martins, muito orgulho ver que você chegou tao longe pelo esforço merecido, parabéns. Estou terminando minha graduação em Biomédica. Minha pergunta é em relação ao campo de pesquisa para biomédicos no exterior, pretendo fazer um mestrado e depois doutorado. Estou muito empolgada em uma especialização em fertilização in vitro aqui no Brasil, como e muito caro não sei se no exterior e visto esta especialidade com bons olhos. Desde já agradeço sua atenção. Tive a oportunidade de trabalhar com você aqui no Brasil muito pouco tempo, ver que você deu um salto para o futuro é muito bom isso e serve de grandes inspiração para outras pessoas.

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Larissa Março 8, 2019 at 2:55 am

Olá, sou enfermeira, já morei 2 anos como nanny nos EUA, estou tentando passar no NCLEX e desesperada por novas ideias de como conseguir voltar e morar nos EUA. Estou desanimada com o processo de validação pelo caminho que escolhi pois agora estou sem visto e qnd estava por lá, não consegui passar na prova do conselho de enfermagem.

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