Entrevista com Kátia Moraes, cantora e compositora em Los Angeles

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@2014 Jorge Vismara
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Entrevista com Kátia Moraes, cantora e compositora em Los Angeles

“Natália!”, em sotaque carioca. Lá estava a Kátia, super alegre, com calça jeans e a camiseta do Brazilian Heart.

Kátia Moraes, cantora, atriz, e compositora, mora em Los Angeles há 28 anos. Lançou recentemente a música Motivo.

História de Vida

Carioca de São Cristovão, Kátia morou no Maracanã onde cresceu ouvindo músicas de choro e samba. Na TV, a primeira artista que viu foi Rita Pavone, cantora Italiana. Mas, a inspiração e desejo de cantar veio da ídola Elis Regina.

Ainda pequena, Kátia já sabia que queria ser artista: “Quando eu era criança, tinha a redação de escola, o que você quer ser quando crescer. Eu falei 3 coisas na época: cantar, escrever, ou dançar. Hoje eu faço exatamente as três coisas juntas.”

Na adolescência, começou a cantar em bandas amadoras, até que a vontade dos pais começou a aparecer. “Obviamente tinha que fazer Universidade. A família queria, pois era o curso normal da vida”, conta. Apesar de gostar das aulas que frequentava no curso de História da UERJ, sentia a necessidade de se expressar de forma mais intensa. Vale lembrar que nessa fase, outra manifestação artística também a seduzia: após assistir uma peça no Asdrúbal Trouxe o Trombone, ficou tão encantada que pensou: “Se é isso que teatro é, eu quero fazer teatro!”.

Kátia ressalta que  nesse período de final da Ditadura eu ainda não tinha muita consciência do que estava acontecendo. Só quando entrei na faculdade é que a ficha caiu mesmo. Me lembro de uma greve que fizemos porque não queriam que um professor exilado desse um workshop pra gente.”

Por fim, a futura cantora decide trancar o curso da Universidade para se dedicar apenas à arte. Foi através das peças de teatro que Kátia conseguiu seu primeiro trabalho profissional como cantora:

“A primeira coisa que aconteceu foi uma peça criada com base nos exercícios teatrais que fizemos com Regina Casé e Luis Fernando Guimarães. Se chamou “Sem Vergonha” e apresentamos na abertura do Circo Voador do Arpoador. Fiz, também, dois musicais infantis: A busca do Cometa e o Cor de Chuva. Por fim, atuei em uma temporada no Parque Lage e Teatro Villa-Lobos com O Círculo de Giz Caucasiano do Brecht que me rendeu o convite para fazer parte da banda Espírito da Coisa.” 

Para mim, O espírito da coisa é toda a crítica que eu queria fazer que não foi permitida na Universidade, quando ainda estava lá”, conta. Ser parte dessa banda significava liberdade de falar tudo o que antes era reprimido. Naquele momento o brasileiro adorava comédia política com letras divertidas e super críticas. “Era tudo o que eu queria fazer uma mistura de teatro e música”.

Ida para Los Angeles

Ainda no Brasil, após O Espírito da Coisa, Kátia formou um dueto, chamado de “Katita & Marito”, um Pocket Show, que na época fazia músicas e interpretações cômicas. O parceiro do show acabou se tornando seu marido e juntos mudaram-se para os Estados Unidos: ele para estudar música, ela para trabalhar.

Um mês depois Kátia já tinha encontrado seu primeiro emprego na cidade dos anjos. Foi em uma ‘Noite Brasileira’ que ela conheceu o organizador do evento, que gostou do trabalho dela e a convidou para participar em uma banda. Foi na época em que a lambada estourou e ela disse: “Nunca pensei que iria cantar tanta lambada na minha vida, mas era trabalho e foi importante naquele momento”, conta.

Kátia sabia que esse trabalho era temporário, então ela o marido deram o próximo passo e formaram a própria banda. The Rio Thing tinha um repertório brasileiro, com músicas de cantores que eles admiravam e que os traduzia emocionalmente. Quando o casamento e a banda acabaram, Kátia formou um novo grupo, O Brazil Nuts, que mais tarde se tornou SambaGuru. Eles ficaramjuntos por 14 anos e rendeu 5 discos: “Era um prazer incrível de estar no palco”.

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Sonho de ser artista

As escolhas profissionais e de vida de Kátia sempre foram guiadas por muita coragem e um foco: “O sonho era cantar, não era ser sucesso no exterior”. “Meu sonho era cantar!”, ela reforça.

Haviam sim frustrações, principalmente, quando a vontade de cantar, compor, e fazer outros tipos de trabalho não era satisfeita. Ela explica: “Era só querer trabalhar mais, pra ter mais dinheiro pra sobreviver só daquilo”.

A trajetória não veio sem dificuldades. Na crise financeira de 2008, “Gente, o trabalho sumiu, pra todo mundo, casas noturnas fecharam. Então, eu tinha uma amiga que era vendedora de roupa. Ela disse, vai lá na Victoria Secret e eu fui. Baixou a atriz, e falei, vou fazer um deal comigo mesma, tudo o que aprendi como atriz, vou aplicar enquanto vendedora”.

Com 34 anos de carreira Kátia se orgulha de tudo que já fez, mas destacou: “Eu gostei do fato de que participei de um grupo no Brasil [O espírito da coisa] que foi importante, que a as letras eram de crítica social, econômica, religiosa, que era engraçado. Aprendi muito com eles, viajamos, fizemos rádio, televisão, teatro”.

Hoje, além de se apresentar em festivais, Kátia também faz dublagem (o mais novo projeto foi a novela colombina Chica Vampiro). Mas o que ocupa mais o seu tempo é a produção do evento Brazilian Heart – A Celebration.

Projeto Brazilian Heart  

O Brazilian Heart é muito mais que um show, é a nossa cultura contada por meio da música e da poesia. “Não é mais só ouvir, é você entender qual é a história que está por trás [da música]. Porque a maioria das pessoas que ouvem música brasileira [nos Estados Unidos] acham que tudo é alegre. Então é um jeito de mostrar um lado mais profundo e verdadeiro da cultura brasileira”.  

O projeto começou porque Katia “queria prestar homenagem a alguns artistas brasileiros que não eram muito conhecidos aqui [em Los Angeles]. E, obviamente, a Elis veio primeiro, porque era minha ídola”. Nesse evento, além do show, havia uma exposição de fotos e edição de cenas de vídeos da cantora gaúcha.

O Brazilian Heart acontece uma vez por ano. Clara Nunes foi a homenageada na segunda edição. Para o terceiro ano, “resolvi fazer com a Maria Bethânia que eu gostava muito, e achei que tinha que trazer para o palco essa coisa dela que é ler poesia, a literatura brasileira. Então, eu traduzi [para o inglês] os textos que tinham a ver com as músicas. Escolhi tudo, fiz o roteiro e convidei outra banda, sempre dando oportunidade para um novo grupo, e dividi o palco com outra cantora. Para esse show, fiz um kick starter, foi legal porque [com o dinheiro arrecadado] pude fazer um show mais bem produzido e com mais estrutura de palco. E deu muito certo. E me apaixonei pelo show, porque eu fiz uma coisa que eu queria fazer há muito tempo”.

A motivação cresceu ao ouvir as “pessoas que assistiam ao show […] virem até mim e dizer ‘eu adoro português’. E eu tinha esse porém, as pessoas vinham e adoravam a música, mas não sabiam o que eu estava dizendo. E eu queria muito dar uma pitadinha do outro lado, e esse show da Maria Bethânia me satisfez profundamente”. Foi então que “Eu falei […] daqui pra frente vai ter que ter poesia. Então, virou um musical”.

Nos anos seguintes, os homenageados foram Noel Rosa, Rita Lee, compositores de Jazz brasileiros, Jacob do Bandolim, e para 2019 Kátia já escolheu o tema, mas é surpresa. Cada show é único, sempre um tema novo, diferentes artistas, bandas e poetas.

Hoje, seu maior sonho é ver o Brazilian Heart crescer e atingir mais pessoas. “O sonho é ter pessoas para patrocinar. Pra pagar o teatro, pagar uma equipe que vai cuidar de toda a produção, para que eu possa me dedicar apenas ao roteiro e à parte artística”. E complementa: “Eu adoro pesquisa, me divirto muito!”

Kátia mulher e seu jeito de ver a vida

Você já deve ter percebido o quanto a Kátia é guerreira, uma pessoa com olhar otimista que busca a satisfação pessoal. Quem é essa mulher corajosa que saiu do Brasil há 28 anos para viver no exterior levando a arte sempre consigo? “Sou irmã, filha, tia, amiga, yogi, dançaria, poeta, escritora, esposa, nora, cunhada e aprendiz para o resto da minha vida!”.

Fiquei inspirada com essa resposta, pois quantas vezes nos questionamos sobre nossa identidade? Kátia exemplifica: “a professora na academia, sempre que começa a aula, pergunta: ‘tem alguém novo aqui?’ Eu sempre levanto a mão. A professora ri“. “Mas é verdade”, complementa Kátia, “Todo dia que você acorda, as possibilidades estão aí, o tempo todo. É que a gente não tem consciência desse tipo de pensamento. No momento que você começa a acreditar e ver que isso é verdade, você consegue o que quer. Está tudo no universo, o negócio é como focalizar e canalizar para conseguir aquelas coisas todas”.

Ainda enfeitiçada, pergunto como lidar então com a saudade do Brasil. E Kátia me conta que sente sim falta de algumas coisas brasileiras, alguns familiares, o jeito de se divertir brasileiro. Mas, de forma geral, ela lida com a mudança de forma mais prática: “Na realidade é uma faca de dois gumes, porque existe um elo emocional que na realidade pode se tornar um obstáculo no seu crescimento espiritual, mental, corporal, etc. Vivendo aqui senti que foi mais fácil ser mais aventureira e abrir outras possibilidades na vida. O distanciamento geográfico me ajudou a me libertar mentalmente do que eu tinha vivido e não existe mais”. Porém reforça: “Aqui você aprende realmente a ser independente”.

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Mercado Americano

Pergunto se a música brasileira tem bastante aceitação no mercado de Los Angeles. Na verdade, “é melhor saber cantar em espanhol” diz ela. “É diferente no Brasil, porque nascemos lá. [A música] vai direto ao coração mais rápido porque se entende o que está falando”. “Quando a música precisa ser traduzida, ela perde o valor sentimental”, explica.

Pensando nos jovens que gostariam de se aventurar a ter uma carreira no estrangeiro, pedi dicas. “Eu acho que, na realidade, tem mercado para aqueles que querem ser músicos e tocar com grandes nomes [participando da banda como] guitarristas, percussionistas, baixistas, bateristas. O problema hoje em dia é a imigração. As coisas não estão muito fáceis pra pegar o seu papel [visto de trabalho]”. Os músicos Renato Neto e Grecco Buratto são exemplos de artistas que eram da banda de Kátia e que depois conseguiram espaço em bandas de artistas como Shakira, Pink, e Prince. Pergunto o que é mais rentável nessa área e ela fala: “quem está pensando em ser rentável aqui? Quero me expressar, ser criativa, e transformar o mundo num mundo melhor”.

Foi com esse espírito que nos despedimos, com a sensação de que tudo tem seu momento certo em nossas vidas. Obrigada Kátia por compartilhar sua história com a BPM, por nos ensinar que a beleza de nosso sorriso vem de dentro e por espalhar a cultura brasileira por onde você vai.  

Música Nova

Tenho motivo pra gritar… / Uma torrente enorme de tanta notícia / Mentiras abafadas, sobra covardia / Quem era tão valente agora tem azia / Eu vejo o acanhamento dessa gente pia / Dando grana a Deus por uma ideologia / Tenho motivo pra gritar… / Se você não viu nem aprendeu, meu bem então / Só vai repetir essa estrada cheia de ilusão / Que tal começar, recriar a tal revolução / Na minha opinião, ela começa aqui no coração.

A música se chama Motivo, e nasceu de uma discussão com o marido que causou em Kátia uma enorme vontade de gritar. O paralelo político foi inevitável devido aos escândalos de corrupção da política brasileira. A música, lançada dia 7 de Setembro, traduz a indignação dos brasileiros, mas também os orienta a votar em busca de um país melhor.

Para ouvir clique aqui

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