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Quando a chave virou

Chave, Estados Unidos

Quando a chave virou.

Sabe, quando me mudei de país, eu não sabia que estava me mudando. Eu acreditava que seria uma experiência de 3 meses, que virou 6 meses, que virou oito anos. Eu nunca sonhei em morar fora do Brasil tampouco nos Estados Unidos. Simplesmente porque amo o Brasil, lá é meu lugar.

Pode ser que o momento em que vivi no Brasil me permitiu ser essa pessoa apaixonada pelo país. Nos meus anos de faculdade, por volta de 2004, o Brasil se tornava popular ao redor do mundo. O mundo começava a nos olhar com respeito e não, apenas, como o país do futebol e do carnaval.

Esse era o meu desejo, que os outros vissem o Brasil como eu o via: próspero!

Quando a chave virou

Já morando fora, eu era uma das únicas brasileiras que defendiam nossa cultura e costumes. Sabia sim dos problemas do Brasil, mas suas qualidades me chamavam mais a atenção.

Nossa culinária, nossas soluções criativas, nosso clima, escolas e saúde pública me diziam que já tinhamos muito para seguir expandindo. 

Foi com a pandemia que me surpreendi e me deparei com um outro Brasil. A forma como o país escolheu enfrentar a pandemia que atingiu o mundo todo, escancarou o que tantos de nós escondíamos—nós brasileiros somos egoístas. Antes de se chatear com minhas palavras olhe os números e me diga se os resultados não são reflexo de comportamentos egoístas.

Você pode dizer, não, é culpa do governo! Pois é bem. É verdade, em partes, pois o governo federal em nada ajudou para reduzir a contaminação, e pior, agravou a confusão quanto à informação. Se as pessoas já não sabiam o que fazer o governo contribuiu em ofuscar.

Leia também: Como lidar com o confinamento?

O negacionismo não foi diferente aqui nos Estados Unidos. No ano passado, quando a pandemia começou, o presidente ainda era o Trump, vivemos dias desesperados, sem saber o que esperar do futuro. Vimos opiniões divididas entre acreditar na seriedade do vírus COVID-19 e negar a existência da doença que atingia tantas pessoas. 

O mesmo cenário no Brasil, certo?

Foi aí que minha chave começou a virar. Vi em tempo real o que faz os Estados Unidos o país que é.

Em primeiro lugar, a maioria não seguiu o que o presidente dizia, seguiam as orientações da OMS e dos governadores (claro, com algumas exceções). Segundo, a população foi decisiva na hora de decidir seu futuro líder.

Eles deixaram claro que não ficarão de braços cruzados vendo o país afundar. Não aceitarão presidentes negligentes e despreparados. Vi pessoas irem às urnas e depois de uma eleição apertada, um novo presidente foi eleito. Não o ideal, sem dúvida, mas aquele que se propôs a unir o país em um momento em que se buscava paz.

O presidente eleito, Joe Biden, em poucos dias conseguiu derreter nossa tensão. Ao assumir a responsabilidade em resolver o caos pandêmico no país ele impactou nosso dia a dia, tanto que aos poucos nossa vida foi voltando ao normal. A distribuição de vacinas em massa foi prioridade e uma resposta. Sabemos que tem alguém cuidando do problema. Em breve a economia voltará a se reerguer.

O Brasil pode seguir os mesmos passos? Com certeza. Um presidente faz a diferença? Com certeza. 

Ainda não podemos trocar o presidente, mas nós brasileiros podemos seguir as orientações da OMS que é um órgão internacional que está à frente da pandemia no mundo, acompanhando o que funciona e o que não funciona. 

Mais do que insistir na dicotomia saúde e economia,  precisamos impedir o alto número de contágio e vacinar em massa. Caso contrário, será muito dificil evitar que a economia afunde ainda mais. 

Por que digo que a pandemia mudou meu jeito de pensar? Hoje eu odeio o Brasil? De forma alguma, ainda é o meu país e pra sempre será. Mas me entristece ver que estamos regredindo.

Por isso eu disse que somos egoístas. Quando não usamos máscara, quando vamos a uma festa, quando não praticamos o distanciamento estamos colocando a vida dos outros em risco por uma vontade minha. 

Além disso, nós terceirizamos a culpa. Tanto é verdade que o presidente do Brasil se escusa da responsabilidade o tempo todo. O que na minha opinião, é um reflexo do comportamento da população.

Então, o Brasil está perdido?

Não. Porém, nós brasileiros não nos permitimos ser esse país próspero, optamos por nos esconder atrás de desculpas vazias. E na crença de que somos inferiores e incapazes de construir um país melhor.

Recentemente aprendi que precisamos tomar posse do que é nosso e nos responsabilizarmos pelas nossas escolhas. Tudo bem se elegemos um presidente ruim, aprendemos com os erros. E temos como solucionar essa situação coletivamente. Mas atenção, não espere que a iniciativa seja do outro. Dê o exemplo, dê você, o primeiro passo.

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