Entendendo os conceitos de espaço pessoal e público no Egito

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Dizer que ao mudar de país você passa por uma série de descobertas, adaptações e ressignificações, já é mais do que clichê. Entretanto, cada país lhe apresenta um curso intensivo de aprendizado em determinado campo cultural e lhe propõe uma nova configuração mental. E, pois é, no Egito tive que reaprender a lidar com as pessoas, como reagir e o que esperar delas.

Explico: no Egito, eles têm uma diferente percepção de espaço pessoal se comparado a nós brasileiros e, digamos, que eles são assim mais “aprochegados”. Você abre a porta para receber o leite, o vizinho entra, vai na sua cozinha, faz o chaí e não vai embora nunca mais. Visita não tem vassoura atrás da porta que dê jeito, é o dia inteiro. E se eles chegarem e você estiver tirando uma soneca, não vão hesitar em bater na porta do quarto. Considerando que, muito provavelmente, vão chegar na sua casa próximo à meia noite.

Amizade lá é para o que der e vier e há um “ acordo de cavalheiros” entre eles, que se chama عشم (aisham). Não existe tradução literal para a palavra, uma vez que representa algo bem singular da cultura deles e, portanto, não temos na língua portuguesa nem inglesa algo que defina. Fazendo uma tradução livre, a palavra expressa “ter esperança no outro”, e na prática rege que amigo pode pedir qualquer coisa e nem sempre precisa pagar.

Quando você está precisando, recorre ao amigo para pegar um dinheiro “emprestado”, sem volta. Ou se ele está vendendo algo que te interessa, você compra para pagar no dia de São Nunca. Quando envolve relacionamento com mulheres – amiga, tias, primas – é ainda pior. O meu marido é o primo mais velho e isso significa que ele tem responsabilidade com todas as primas. Todo dia uma precisa de dinheiro, de vez em sempre uma precisa que eu leve produto para escova progressiva do Brasil para ela, e toda hora alguém precisa de uma “carona” para o outro lado da cidade, na qual não estamos indo, mas não podemos negar. Amigos e família, no Egito, podem pedir qualquer coisa e ai de quem se recusar a prestar o favor. Um absurdo!

E não só de favores se constitui a relação familiar. Há muita fofoca, pitaco e nariz aonde não é chamado (e sim, você deve ter percebido, preciso trabalhar melhor minha adaptação nesse quesito, isso ainda me estressa). Toda a família tem direito de opinar nas questões mais íntimas da vida de uma pessoa. Em briga de marido e mulher, a família inteira mete a colher. Quando alguém vai se casar, todos os familiares, tanto do noivo quanto da noiva, vão juntos escolher os móveis da casa. Já escutei reclamação: “Você acredita que a filha da cunhada do meu irmão vai se casar e não me levaram para escolher os lençóis? Que absurdo!”. E a verdade é que, na maioria das vezes, os noivos nem estão ligando se no frigir dos ovos vão gostar da cor do tapete ou do modelo do sofá. Estão satisfeitos o bastante – ou não – de a família ter escolhido um noivo que o agradasse.

E essas diferenças vão até mesmo ao espaço corporal. Há uns meses, recebemos amigas brasileiras. Durante o passeio às pirâmides, meu marido se envolveu em uma discussão acalorada no melhor estilo egípcio com um segurança. Era empurrão para lá, gritos e dedos na cara para cá. Elas ficaram desesperadas e eu sequer alterei o meu humor. Falei que em dois minutos eles estariam se abraçando como melhores amigos e elas não acreditavam. Me pediam para ir lá tirá-lo porque eles iam acabar se agredindo. Não deu outra, mais dois minutos os dois se abraçavam e riam. Empurrões e gritos não são ofensas, fazem parte da negociação.

E a forma, tão diferente para nós, de lidar com o próximo, reflete na forma de lidar com o que é de todos nós, o espaço público.

Centro da cidade do Cairo
Centro da cidade do Cairo. Foto: arquivo pessoal

A mentalidade coletiva egípcia profere que as ruas são de seus moradores, e não de toda a sociedade que paga impostos. Então, se você está em determinada rua, não pode simplesmente estacionar o carro em uma vaga vazia. Esta vaga provavelmente é de alguém que mora ali. Você precisa se informar com algum morador ou comerciante, sobre onde você pode estacionar seu carro, já que a rua “é dele”. Caso não o faça, existe um grande risco de encontrar os pneus vazios ou o carro arranhado. E nem pense em estacioná-lo na frente de qualquer comércio, é um insulto grande e provocará briga com certeza. Segundo eles, quando um carro estaciona na porta de sua loja, ele impede o dinheiro que está caminhando na sua direção. E também não vale reclamar de algo em outra vizinhança. Se você quer passar de carro em uma rua, mas as crianças estão jogando futebol nela, aguarde ou peça educadamente. Senão, muito provavelmente, vai ouvir: “Quer passar? Volta para a sua rua, na minha rua meu filho vai jogar futebol”.

E se o patrimônio público deveria ser considerado como o que pertence a todos, no Egito é visto como o que é do Governo, e como “eu não sou governo, quanto mais vantagem eu tirar, melhor para mim”. Há uns dois anos, uma nova empresa de lixo distribuiu lixeiras por toda a cidade do Cairo. Em menos de uma semana, não existia nenhuma nas ruas para contar história. Em compensação, toda casa que você entra, tem uma. Levaram para fazer pickles, guardar sapato, encher de gelo e sair na rua vendendo refrigerante. Acharam mil e uma utilidades para elas. Enquanto isso, quando saem, precisam pisar no lixo jogado e esparramado por todos os lados. Hoje, há uma nova lei de que todo comerciante tem que colocar e manter uma lixeira em frente ao seu negócio. Assim, eles têm um fiscal 24 horas, que não deixará ninguém as roubar, sendo esse o único meio de tê-las nas ruas. Por isso, é tão comum ver no centro do Cairo diversas lixeiras acorrentadas a calçada, aos postes e árvores.

2 Comentários

  1. Levaram para fazer pickles, guardar sapato, encher de gelo e sair na rua vendendo refrigerante. Acharam mil e uma utilidades para elas. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Ri muito!! Você é muito engraçada e no fim das contas temos que rir mesmo dessas situações, mas no final das contas são pessoas maravilhosas, talvez até mais “calientes” que nós brasileiros… Beijo

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