Espanha: um sonho, uma mudança, uma escolha

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Espanha: um sonho, uma mudança, uma escolha.

Minha história espanhola começou há muitos anos – décadas, para ser sincera – durante umas férias de infância com os meus avós. Acho que esse foi o único momento,
até o ano passado, em que realmente vivi a realidade do país (aquela de acordar, ir no
supermercado, não dormir em hotel, nem comer em restaurantes todos os dias, sabe?) .

Mas a realidade de uma criança, que se resume a brincar e comer galletas principe, não
tem como ser triste, não é mesmo?

E foi aí que nasceu a grande paixão da minha vida e, junto com ela, o sonho de vir morar aqui. Foram anos de sonho sem nenhuma realização de fato, até que, em agosto de 2017, caiu a bomba no meu colo: consegui uma bolsa para cursar um mestrado na tão amada Espanha!

Hoje em dia, olhando a situação com certa distância, consigo saber que existia um monte de sentimentos passando pela cabeça daquela Marina: tinha empolgação, orgulho por haver sido selecionada para uma bolsa de estudos, alegria por poder realizar um sonho de tantos anos, um pouco de tristeza por ter que deixar as pessoas amadas para trás mas, principalmente, tinha muito medo.

Medo do desconhecido, de não fazer amigos em terras europeias, de não ser nada daquilo que sempre sonhei, medo, medo, medo… eram tantos (e alguns tão tolos) que nem me lembro.

Lembro-me de que na época, durante uma das conversas com a minha mãe, ela deu a pista que faltava para decidir o que fazer: “Filha, vai pra esse mestrado. Você vai chegar lá e ver que a Espanha não é nada dessa maravilha que você sempre imaginou. Aí, você volta e para com essa mania!”.

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Em um mês estava com passagem comprada, malas prontas, coração na mão e sorriso – entrecortado por choro – no rosto: era a hora. Peguei um avião, um trem e um carro e fui parar na casa que me acolheu por algumas semanas (até eu encontrar meu próprio apartamento).

Durante essas primeiras semanas, enquanto era alimentada, cuidada e mimada nessa primeira casa, procurava apartamentos pela cidade e falo, sem sombra de dúvidas, essa foi a parte mais difícil de mudar para um lugar desconhecido: em que bairro morar? Vale a pena ficar perto da faculdade e longe de centro, ou será melhor perto do centro e longe da faculdade? Pego um bairro mais residencial, ou um onde tenham bares e agitação? Dividir apartamento com outros estudantes, ou viver sozinha?

Entre muitos (mas muitos mesmo!!) apartamentos visitados, acabei decidindo pelo mais distante possível da minha vida no Brasil: localizado na cidade velha, cheia de bares e gente gritando durante a noite. Tipo uma Vila Madalena Coruñesa. Logo eu, que sempre morei em bairros residenciais! Num prédio construído no século passado! Sabe aquela história de playground, piscina, academia, elevador, portaria 24 horas, sauna, salão de festas? Esquece.

Sozinha (cresci rodeada de irmãos, o silêncio chega a ser incômodo de vez em quando) e no menor apartamento que eu já vi na vida. A “eu” de São Paulo se assustaria com tal escolha, mas a atual morre de orgulho. Se me pedissem dicas de preparação para mudança, as minhas (que não segui, diga-se de passagem) seriam:

1. Nem todo mundo tem a sorte que eu tive no que diz respeito a anfitriões que te recebem como filha em suas casas, então procure apartamento ANTES de ir para a cidade. Selecione uns quatro ou cinco e deixe para visitá-los logo quando chegar. Enquanto isso, fique num airbnb e aproveite para pegar dicas sobre bairros legais. Além disso, tente não chegar tão em cima da hora para o início do ano letivo (eu cheguei no meio de setembro, as aulas começaram no início do mês), ou todos os bons apartamentos estarão ocupados e você demorará muito mais para encontrar algum decente.

2. Caso você esteja indo completamente sozinho para uma cidade, tente encontrar um bairro meio termo: perto dos bares, mas não em cima de uma balada cubana (às vezes você vai querer dormir e os bêbados irão te infernizar – experiência própria). Longe da muvuca, mas não a ponto de você ter que ficar meia hora num ônibus para poder tomar
uma cerveja com seus amigos.

3. Preocupe-se mais com a iluminação e ventilação do que com o tamanho do apartamento. Vi apartamentos enormes e baratos mas que só tinham luz solar até as 12h00. Já pensou que inferno viver num lugar assim durante o inverno (quando amanhece às 9h)?

4. Busque apartamentos mobiliados! Essa é uma boa dica caso você vá para um país estranho e não saiba quanto tempo vai ficar, como é o meu caso. Não há motivo gastar dinheiro com sofá, mesa de jantar, cama e afins quando não se sabe qual será o próximo passo. Use o que tem na casa e, quando cansar, vá embora sem culpa (nem prejuízo).

E a mais valiosa delas seria: GOSTE de onde você vai morar, pois passará grande parte do seu tempo passeando por lá. Por isso, escolha um bairro que seja gostoso de caminhar, que tenha coisas para olhar (pode ser jardim, parquinho infantil, igreja, lojas de souvenir, etc), que tenha gente conversando e sorrindo.

Já que temos a oportunidade de escolher um lugar novo, que ele seja realmente diferente de tudo o que vivemos, e que seja bom e leve, como tudo sempre deve ser!

Acredito que a Marina criança estaria feliz de ver que a adulta se adaptou tão bem aos ares galegos e se sente tão “em casa” quanto há duas décadas. O que aprendi nesse um ano?

Mãe, apesar de nem tudo ser flores, a Espanha é toda essa maravilha e eu sinto que nunca perderei essa mania.

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