Especial Natal – Brasil

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Primeiro natal “em casa” (de volta ao Brasil) depois de quase nove anos e confesso que as coisas estão sendo menos “mágicas” do que eu imaginava.

Quando eu morava nas Filipinas, eu tinha overdose de natal! As “musiquinhas natalinas” começavam em setembro e terminavam e fevereiro. Era só ouvir os primeiros acordes de jingle bell e eu começava a ter vontade de gritar. Tudo girava em torno do natal (embora apesar de toda expectativa da chegada do natal, a celebração do natal em si, era muito mais religiosa do que festiva).

Quando mudei pro Vietnam, imaginei que seria difícil fazer uma celebração natalina, afinal o país é comunista, meio ateu e confucionista, com alguns budistas no meio, mas ao contrário do que eu imaginava, os vietnamitas estão se rendendo a celebração natalina. Era possível encontrar em Hoan Kien (centro comercial de Hanoi) todo tipo de decoração, tocava música de natal no supermercado, nos cafés, comunidades se uniam para fazer casas de gengibre com as crianças, bazares beneficentes pipocando e a cidade se enchendo de luzes e cores.

Em São Paulo, a chegada do natal é sempre um acontecimento! Luzes, bonecos, cores! A decoração da Avenida Paulista é tão especial, que passear por ela para fotografá-la, é um acontecimento a parte. No entanto, em Brasília, até agora nada!
Não tem decoração, não tem musica, e até agora não achei campanhas de arrecadação de roupas ou brinquedos para orfanatos ou abrigos. Só os shoppings estão decorados e os poucos prédios que se aventuraram a colocar algum tipo de decoração deviam ser processados por atentado violento ao bom gosto. Fico imaginando se o Grinch (personagem cinematográfico que odeia natal) é prefeito no distrito federal.

Vejam a minha situação: Eu não tive uma infância, digamos, calma e passei boa parte da minha adolescência, odiando natal e todas as celebrações que o circundavam, mas daí amei, fui amada, criei minha família e percebi que não precisava ficar refém do passado. Então passei a fazer festas enormes acolhendo pessoas de todas as partes, às vezes até gente que eu nem conhecia bem, como quando convidei uma senhora na piscina do meu prédio, quando eu morava na Indonésia e ela começou a chorar, porque há 15 anos não participava de uma festa de natal. Ela foi a festa com a mãe super idosa que ficou emocionadíssima pela oportunidade de celebrar mais um natal e faleceu antes do natal seguinte.

Pra mim natal é isso, a magia dessas pequenas histórias. Ano passado estava tudo tão gostoso que esquecemos de comprar presentes (incluindo o da minha filha). Comida boa, amigos de doze lugares do mundo e até um papai noel argentino!
Daí corremos na “vendinha” da esquina e trouxemos uma minnie de pano para a pequena ter um presente pra abrir. Ela amou tanto! Daí temos um natal no Brasil e eu imaginava que a celebração seria ainda maior!

Mas meu primeiro choque foi a ausência do sentido do natal. Não existe. Antigamente as pessoas ficavam mais gentis, mais amorosas, pelo menos nessa época do ano parecia haver uma trégua nas guerras interpessoais, mas hoje tudo que vejo é o apelo “compra compra” da data. Tenho tentado manter a minha filha numa perspectiva de mundo diferente, mas em cerca de quatro meses de Brasil ela já tem uma lista de presentes na ponta da língua para o Papai Noel. Como se não bastasse, levo a minha filha para ver o Papai Noel no shopping e ela começa a chorar que não quer ir. Medo do Papai Noel, filha? Pergunto eu -Não mãe, das mulheres lá com ele. Olha a cara delas, não quero ir lá! Quem pintou a cara delas assim?

Daí olho com calma e reparo a maquiagem: Uma mistura de Elvira a rainha das trevas (personagem de filme de terror) e Priscila a rainha do deserto (filme bárbaro sobre uma drag queen). A maquiagem já faria corar uma dançarina de cabaré, mas e os peitos pulando para fora da blusa? E a microssaia? Está difícil encontrar o sentido real “da coisa”, viu?

Sabia que esse Natal não seria simples. Desde que saí do Brasil, “tenho cuidado “ da comunidade brasileira nos países onde moro. Como a maioria dos expatriadas não tem família por perto, minha casa sempre foi a casa onde todos vinham celebrar o Natal.

Como será nosso natal sem essa gente toda? Será um exercício de desapego, e talvez daí eu deva extrair a lição da contemplação. Que difícil essa parte!

O Natal do Brasil me incomoda. Não se fala nada sobre Jesus, o motivo da festa, não se fala mais em valores, não se contempla mais esse momento de gratidão.

O Brasil está imerso num consumismo desenfreado (na verdade o mundo está) e eu não quero que minha família seja engolida por essa inversão de valores, então tomei algumas medidas que considero fundamentais. Vou fazer o Natal dos sonhos apesar do pesadelo capitalista em que essa data se transformou. Para isso teremos poucos grandes amigos e familiares ao redor.

Nosso foque não será na comida ou na bebida, e muito menos nos presentes. Decoramos a árvore, decoraremos a mesa e faremos cookies juntas. Terei minha melhor amiga e sua filha e vamos ensinar nossas filhas que há valores que não mudam, e é disso que o Natal fala.

Valores eternos, amor e esperança. Tudo porque um menino nos nasceu…

“imagem de uso autorizado pelo autor”

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Fabi é uma mulher de fibra, que carrega no coração o mundo inteiro. Jornalista e bailarina, tem mestrado em Educação, Arte e História da Cultura e é doutoranda em Antropologia, mas nem liga para esses títulos porque o que ela gosta mesmo é de estar no meio da moçada, promovendo Direitos Humanos e empoderamento popular. Atua com educomunicação e juventude desde que se entende por gente, e ganhou em 2015 o título de mulher inspiradora pelo coletivo feminista "Think Olga" que nomeia os destaques femininos em suas áreas de atuação. Fabi é consultora em comunicação e mobilização social e ja trabalhou para diversas agências das Nações Unidas, além do CDC de Atlanta, além de diversas ONGs e Fundos. Escreve para esse blog desde 2013. Ela tem rodinhas nos pés e asas nas costas. Talvez por isso alguns a chamem de fada. Não tentem descobrir de onde ela é, porque ela pertence a muitos lugares e ao mesmo tempo a nenhum. Essa aquariana de riso farto, tira leite de pedra por onde quer que vá. Saiu do Brasil para morar na Indonésia em pleno pós Tsunami sem falar nenhuma palavra de inglês, se virou bem e daí pras Filipinas e Vietnã. Fez uma pausa no Brasil e agora está na Suíça. Por quanto tempo? Não se sabe. Ela segue à risca o conselho de Frida Kahlo que diz: Onde não puderes amar, não te demores...

10 Comentários

  1. Bacana!! Excelente reflexão.

    Se o Senhor não encontra um lugar agradável em Brasília, que seja sua gruta, seu pequeno lar o lugar agradável e receptivo para Ele. Afinal, não é só isso que Ele deseja: um coração que O ame?

    Feliz Natal!!!

    • Oi Fabi,
      Gostei muito do seu texto. Todos os anos passo as festas com a minha família em SP. Mas acontece que a cada ano eu estou diferente por causa das experiências que tenho ao morar fora. Hoje mesmo ao tomar o café da manha estava super feliz porque comprei ontem no super Farinha Lactea. Pensei que cada vez mais sou feliz com pequenas coisas como essa. Estar no Brasil nesta época está me incomodando um pouco. Vejo essa multidao nas ruas, nas lojas, nos onibus comprando e comprando e falando mal de tudo e de todos e a grande preocupaçao é comprar algo bom para dar de presente. Já trouxe alguns presentes da Argentina, mas quis comprar algo bobo para meus sobrinhos e que fosse barato, afinal já tenho os presentes. Gostei de algo, peguei e fui para a fila e entao lá bateu uma dúvida que foi se transformando em medo. Horrível essa sensaçao, mas foi exatamente assim que me senti: com medo. Porque comprei algo bobo para colocar no cabelo e uns aneis de brinquedo que custou uns 3 reais para a minha sobrinha de 2 anos e meio. Ela vai amar, mas o medo veio pq sei que os adultos vao olhar e dizer que eu vim de outro país e dei algo tao barato de presente. Porque aqui só escuto todos falando de comprar coisas caras. Mas eu apenas pensei o quao feliz ela vai ficar em colocar aqueles aneis nos dedos.
      Com isso percebi que nao é apenas o sentido do Natal que está perdido no meio de tanto consumo, é também o sentido de dar um presente. Uma lembrança às pessoas que amamos. Por sorte na minha família fazemos as crianças saberem do menino Jesus e a acreditarem na magia do Natal. Meus sobrinhos ficam encantados com os bonequinhos de Papai Noel que colocamos pela casa. Falo para eles que o Papai Noel tem tanta criança para levar presentes que nem sempre ele lembra e traz o que cada uma pede, mas que mesmo assim ele leva algo apenas para que elas se lembrem que o Natal é o momento de estar junto, com a família. Espero que eles guardem isso no coraçao e que sejam adultos menos consumistas.
      Um grande beijo e um Natal de muita paz para você e sua família.

  2. Oi Fabi,
    Parabéns pelo seu texto. O Natal está muito diferente mesmo, saudade de outros tempos. As crianças perdem bastante com esse consumismo. Em casa tento segurar a onda dos meninos… Meus argumentos estão ficando batidos, estou precisando de novas idéias. Precisamos resgatar o sentido real do Natal sempre!
    Abraços, Daisy

  3. Olha quem nao lembra … dos nossos pais indo tocar a capainha para poder colocar os presentes simples embrulhados embaixo da arvore !!! e a comida yumi…. como amavamos ir para o coral e ir nas casas cantar nesta epoca …. Isso foi um bom tempo do escotismo … Valores isso e uma luta diaria num mundo onde o dinheiro manda ….nas relacoes ….triste que ja esquecemos de amar ao proximo

  4. Fabi amada, retornei ontem pra Suica, estava no Brasil, e senti de perto o consumismo no Brasil, espero que voce possa relembrar aos amigos e família e aos nossos conterrâneos o verdadeiro sentimento de natal! Tenho certeza que seu amor e carinho sera também super bem vindo ai na nossa terrinha, onde tantas pessoas não teem também nem família nem dinheiro pro consumo. Feliz natal querida e que 2014 seja repleto de surpresas maravilhosas pra voce, tenho certeza que sua LUZ vai continuar brilhando e quem sabe o porque que o universo te trouxe de volta? talvez presente de Deus pra nossa terrinha? Namasté

  5. Oi Fabi, parabens pelo texto. Percebo que sua readaptacao ao Brasil nao esta sendo facil ne? eh o que todos dizem….o retorno eh dificil. Mas vamos torcer para melhorar em 2014! Um super natal para voce e sua familia!

  6. Fabi…
    To vendo isto tb… Agora parece que Natal eh problema… A maioria das pessoas nao estão mais disponíveis. ntes era sagrado a reunião com a família , a confraternização, a oração de agradecimento a DEUS,ninguém media esforços, fazíamos longas viagens para nos reunir com nossos familiares. Era só alegria… Agora parece que as pessoas estão mais preocupadas com os presentes, gastos… Todo mundo foge das reuniões, e ate das confraternizações. Deveria ser ao contrario…as pessoas quererem se reunir e confraternizar , perdoar, agradecer. Mesmo que nao houvesse festas com grandes comilanças e presentes. O momento eh ottunidade de ver quem nao vemos a algum tempo, de abraçar, de refletir… 🙁 que pena ne? Eu tive uma infância mto feliz e nossos Natais eram regados de arvore, luzinhas, papai noel e toda magia do Natal. Sempre tivemos a nossa santa ceia e a oração antes do jantar ?..quer dizer da ceia.Era mto divertido fazer amigo secreto e esperar pelas pessoas que mts vezes era a única vez que encontrávamos no ano. Embora as coisas tenham esfriado bastante…. Eu ainda me esforço para que nossos Natais sejam sim cheios de magia , amor, com tdo que tem direito …. Confesso que este Natal me pegou de surpresa…rsrsrs qdo vi o Natal já tava chegando…. Mas …. Vamos que vamos…uma gotinha no oceano… Feliz Natal amiga, que viva Jesus no seu coração hj e sempre.DEUS abençoe vc e sua família. Obrigado por vc existir e lutar para manter valores e princípios preciosos neste mundo cão… Terra de ninguém, cheia de desmandos , de magoas, rancores, brigas…. Adoro e admiro muito vc. Cutuca mesmo…bjs

  7. Fabi!
    Seu texto é bastante emocionante. Já ouvi dizer muitas vezes que a adaptação é um processo difícil, mas a readaptação é mais complicada ainda. Penso que se um dia eu tiver de voltar ao Brasil, tenho certeza de que sentirei os mesmos impactos que você. O mundo precisa de mais amor e compreensão. Chega de consumismo exagerado e da falta de respeito. Fico feliz em saber que você esteja fazendo do seu jeito e passando certos valores na criação de sua filha. Desejo Boas Festas e um 2014 maravilhoso a você e toda sua família.
    Beijos.

  8. Oi meu amor!!! Antes de tudo, um FELIZ NATAL para você, para o Fábio e para a Dija!!! Que vocês o passem com muita alegria e muita paz!!! Amo vocês!!!

    Meu anjo… Acho que esse espírito consumita tomou conta do mundo… É engraçado, achamos que pode ser o país onde vivemos, mas depois percebemos que muitos dos valores que tínhamos foram perdidos… É uma tristeza, mas, pelo menos, fico feliz que você esteja tentando passar para a pequena valores!!!

    Bom, minha linda, um feliz Natal! E que 2014 seja um ano repleto de sucesso!!! Um beijo

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