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França

Estereótipos e seus perigos

Estereótipos e seus perigos.

Em breve fará um ano que meu marido e eu desembarcamos na França, vendemos a maioria dos nossos bens, colocamos tudo o que tínhamos em 4 malas e duas mochilas e partimos para realizar o nosso sonho! Nesse um ano, posso dizer que passamos por muita coisa, nos surpreendemos com as dificuldades, mas ao mesmo tempo, nos surpreendemos com as surpresas que a vida nos deu e nos dá a cada dia. E sobre isso, é engraçado que todos os dias podem acontecer coisas consideradas como boas e como ruins, mas que não importa a situação, podemos escolher como lidar com a vida dependendo do tipo de olhar que daremos a cada uma das nossas vivências.

Falando sobre essas situações que podem acontecer nos nossos dias, queria aproveitar para falar sobre algo que costuma gerar bastante polêmica aqui na França: os próprios franceses.

É impressionante, mas se tem um tópico que apareceu na maioria das conversas que tive por aqui foi sobre o comportamento deles, você inclusive, com certeza, já deve ter ouvido falar que os franceses são assim ou assado, ou melhor, que os franceses são rudes, ásperos ou malcriados.

Bom, pra começar, eu não gosto de generalizações, tenho pra mim que generalizar os franceses, os europeus ou qualquer outra etnia ou tipo de pessoa é a mesmíssima coisa que dizer que todos os brasileiros amam futebol, gostam de samba ou…. que adoram o tal jeitinho brasileiro!

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Eu, particularmente, detesto quando ouço qualquer coisa desse tipo, e imagino que você também, por sabermos o quanto “esse jeitinho” tem estragado a nossa sociedade e sido o responsável por muitas vivências ruins em nossas vidas. Sabemos como essa cultura colabora com vários tipos de falcatruas que tanto atrapalham a vida cotidiana, sabendo, também, que apesar de muitas pessoas terem esse tipo de atitude, não são todos os brasileiros que são assim.

Seguindo esse raciocínio, também podemos pensar sobre tantas outras características: assim como existem muitos brasileiros que são super comunicativos, também existem aqueles que são mais tímidos e fechados; assim como existem aqueles que são mais dóceis no falar, existem aqueles que são mais ásperos, enfim, a lista vai longe.

E por que será que quando se está no exterior muitos tem a tendência de fazer esse tipo de comentário? Saem dizendo por aí que por conta de uma experiência não tão boa, toda uma cultura é assim ou assado? Será que não podemos olhar para uma experiência que não foi tão feliz com um outro viés, tentando entender melhor o outro lado? Diga-se de passagem, será que antes de julgar alguma coisa não poderíamos dar um passo atrás e tentar entender um pouco melhor o que será que está acontecendo “do lado de lá”?

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Uma coisa que sempre passa na minha cabeça quando penso nesse assunto é com relação a irmãos. Se mesmo em uma família onde os irmãos foram criados no mesmo ambiente, com os mesmos pais, acesso a mais ou menos as mesmas coisas e o mesmo círculo, a gente pode ver diferenças de características “gritantes”, será que quando se diz de uma cultura inteira e de toda uma população as coisas não seguiriam no mesmo tipo de lógica?

Claro que podemos dizer que algumas coisa “saltam” aos olhos, como, por exemplo, a questão dos franceses serem um pouco “sistemáticos”. Uma coisa que eu sempre reparo é que eles têm a forma de fazer uma determinada coisa, a comida que é servida e preparada de um determinado jeito ou, um outro exemplo, o procedimento que já dura sei lá quanto tempo de ter que se entregar não sei quantos tipos de documentos para se abrir uma conta ou abrir um “dossiê” na prefeitura, na universidade ou em qualquer outro lugar.

A meu ver, esses são exemplos de coisas que eles fazem há tanto tempo e de uma determinada forma que é como se não existisse uma outra maneira de se fazer e quando alguém chega e tenta alterar, o que acaba acontecendo é que eles se assustam, se defendem, mas que essa atitude acaba sendo muito mais um mecanismo de defesa do que, necessariamente, algo contra a pessoa envolvida.

Lembro de uma vez que meu marido estava com o braço quebrado e fomos a um restaurante. Ele, pensando na facilidade, perguntou ao garçom se a comida já poderia vir cortada. Foi muito engraçado porque a cara do garçom foi de susto e, logo em seguida, ele falou que não. Passados uns minutos, ele voltou e falou que tinha conversado na cozinha e mandariam a comida cortada. Achei essa situação tão interessante pois ela resumiu bem essa minha “teoria”: parece que muitos deles primeiro respondem no automático e só depois é que eles realmente param e pensam sobre o que foi perguntado ou questionado.

Refletindo sobre tudo isso, eu fico aqui pensando em como não perdemos oportunidades de entender melhor as pessoas ou nos estressarmos menos se déssemos um passo atrás e pudéssemos refletir que muitas coisas que acontecem à nossa volta não são exatamente contra nós. Muitas vezes, se trata apenas de uma mistura de personalidade/humor e a forma de como a pessoa vê o mundo e não algo pessoal. Sabe aquele velho ditado de não levar as coisas pro lado pessoal?

Digo isso sabendo que muitos podem se irritar, dizer que eu estou diminuindo as situações, mas o que quero que vocês entendam é que, a meu ver, existem situações do cotidiano que muitas vezes damos o poder de estragar o nosso dia ou a nossa experiência em algum lugar e que, talvez, se pudéssemos agir de uma forma diferente e tentássemos dar um outro significado pra elas, com certeza evitaríamos algumas dores de cabeça.

E mesmo com relação a casos extremos, agressão verbal e preconceito contra imigrantes, acho que não podemos colocar toda uma cultura no mesmo saco, pois acredito que não são todos os compatriotas de uma pessoa ignorante que farão exatamente a mesma coisa, certo? Acredito que ao mudarmos esse tipo de atitude pouquinho a pouquinho, deixamos de ver “os franceses”, “os ingleses” ou qualquer outra generalização e passamos a ver “a pessoa” que está diante de nós, acho que a palavra que resume bem isso é empatia! Sejamos empáticas, com certeza fará a diferença!

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2 comentários

Solon Mota e Silva Março 24, 2018 at 9:14 pm

Prezada Júlia. Eu sempre ouço este comentário sobre os franceses e acho injusto e não verdadeiro pois sempre fui bem tratado na França desde a minha primeira viagem.O que ocorre é que os temperamentos e etnias são diferentes e hábitos também.Há brasileiros que vão á frança e a outros países e se comportam como se estivessem no Btasil e aí não dá certo.Considero muitas pessoas provincianas que vão atrás de comentários de jornais etc……….

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Ana Paula Março 25, 2018 at 7:16 pm

Boa tarde. Vivi algum tempo na França e Bélgica. Amei cada segundo. Acredito que já vamos com o preconceito no modo “on”. Escutei muita gente falando mal deles, dizendo que são formais e etc., Mas a meu ver, um “por favor”, “obrigada” , “senhor e senhora” , não fazem mal e não é ser chato; só mostra educação e respeito . Pelo menos, prefiro mil vezes ser chamada de “madame” , do que ” D. Maria” ( acho Maria, um nome lindo ) ou outros nomes , isso é forçar a barra para um intimidade que não existe…..

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