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Hábitos austríacos que eu adquiri

Hábitos austríacos que eu adquiri.

Após 5 anos morando na Áustria e vivenciando uma nova realidade de hábitos diários, enumero aqueles que já incorporei no meu dia a dia.

Não entrar com sapatos da rua dentro de casa:

Assim como a minha querida colega, Erika, da Islândia, bem relatou aqui, não consigo mais entrar em casa – inclusive na casa da minha mãe no Brasil – com os sapatos que uso para andar na rua. Para nós, brasileiros, pode soar estranho, mas imagine um sapato com neve suja, grudada (é o mesmo que cocô em tamanco, como diz o ditado. A neve gruda e não sai), circulando pela casa toda.

Ainda com dificuldades em imaginar? Eu auxilio: a neve acumulada no seu sapato, ao entrar em contato com o aquecimento da casa, irá derreter e, se ela estiver suja, na cor marrom ou até preta, será a “maravilha da dona de casa” para limpar e tirar as manchas. E eles, aqui, mesmo no verão não entram com sapatos da rua em casa. É uma questão não só de limpeza, como também de higiene. Eu tenho uma Havaianas para dentro de casa e, outra, para fora. Quando se visita alguém, se fica de meias dentro de casa ou o anfitrião/anfitriã oferece um chinelinho de visita.

A objetividade e a franqueza na comunicação:

Confesso que esse foi meu maior desafio. Como um povo de raciocínio germânico, o austríaco se expressa de modo preciso e sem maiores rodeios. E não há nada de mal educado ou estúpido nisso, mas, para quem nasceu no raciocínio da língua portuguesa, bem mais sentimental e poético – se compararmos ambas línguas -, foi um choque tremendo.

Quando as pessoas perguntam se você pode fazer algo por elas, por exemplo, um favor, ou qualquer outra tarefa, não soa, para eles, grosseiro dizer simplesmente, “não”, se você de fato não pode atender o pedido. Esse “não”, vem acompanhado de uma justificativa breve, do tipo “não posso cuidar do seu filho, porque trabalho nesse dia. Desculpe.” e ponto. Levei bons anos para compreender esse mecanismo. E aqui trago um exemplo do meu filho, ocorrido recentemente, que talvez possa esclarecer o que tento explicar:

Um amiguinho veio brincar e a mãe anunciou que era hora de irem embora, pois já havia ficado a tarde inteira com meu pequeno. Obviamente, como criança de 3 anos que é, o amiguinho relutou.  A mãe, que mora na esquina, perguntou-me se poderia ir em casa, ajeitar as coisas e voltar em alguns minutos. Eu respondi prontamente que sim. Ao acompanhá-la até a porta, ela me pergunta novamente se não há problema em o filho ficar. Eu digo, mais uma vez, “claro que não”, porém, meu filhote de 4 anos responde um sonoro “tem problema, sim”.

Leia também: tudo que você precisa saber para morar na Áustria

Eu me virei para ele horrorizada, e a mãe se voltou para ele com outro interesse e indagou: “vocês já brincaram bastante por hoje, né?” e meu pequeno – para me enterrar de vergonha – “sim, por hoje já está suficiente”. Ela mudou de ideia na hora, pegou seu filhinho e foi embora. Morri 3x antes de me despedir e qual não foi minha surpresa ao receber uma mensagem dela, agradecendo a tarde e ao meu filho por ter-se manifestado, pois minutos mais tarde talvez fosse mais problemático para o amiguinho querer voltar para casa; que eu não me preocupasse, porque os 3 filhos dela fazem igual e ela não vê nenhum problema nisso. A espontaneidade do meu filho não foi encarada como falta de educação e, sim, como uma tentativa de dizer que já estava cansado e precisava de uma pausa. Não adianta a adulta – eu no caso – querer fazer média se a criança estará infeliz. E essa essência de informação é o que eles conseguem compreender e expressar muito bem. Tento imaginar essa mesma cena em um lar brasileiro e me pergunto se a interpretação da mãe do amiguinho seria igual.

Utilizar secador de cabelo:

Sempre odiei secador de cabelo. Mesmo no inverno do Rio Grande do Sul, eu saía porta afora com os cabelos pingando. Aqui, conforme já referido pela colega, Erika, acima, se eu fizer isso, os cabelos empedram na hora. Então, inclusive no verão eu uso essa máquina infernal para o bem da minha saúde.

Tomar sopa de panqueca:

Existe uma sopa típica, que é feita com massa de panqueca. Confesso que a primeira vez que vi, achei o cúmulo da esquisitice, mas hoje, adoro. É muito simples: cozinha-se um caldo, como se fosse uma canja, mas de carne, temperos a gosto. Após ferver, coloca-se a panqueca (já frita e sem recheio nenhum, obviamente) cortada em tirinhas bem finas, sobre esse caldo e toma-se. Delícia!

Tomar cerveja:

No Brasil, nunca fui fã de cerveja. Sempre tinha problemas de dor de cabeça e dor de barriga ao primeiro copo. Eis que me mudo para um país cervejeiro. Assim como na Alemanha, a cerveja é declarada como alimento e deve ser o mais saudável e livre de impurezas possível. Não tenho como atestar essa legislação que, dizem, vigora há mais de 500 anos, mas atesto que a cerveja daqui é – para mim – excelente. Já consigo até a façanha de tomar o copo “pequeno” de 500ml. Prost!

Tranquilidade com a vaidade:

Minha mãe me fez uma pergunta emblemática: “notei que aí quase ninguém pinta a unha, né? Achei mais libertador. Gostei”, disse-me ela. Não se trata de uma ditadura disso ou daquilo, trata-se simplesmente de se ter liberdade quanto a própria forma de ser. Se quero pintar a unha, pinto; se não quero, não pinto. Se quero pintar meu cabelo, pinto; se não quero, não pinto. Se quero usar roupas diferentes, uso; se não, não uso. A austríaca é muito autêntica. Não existe uma pressão social para que se vista isso, ou use aquilo. Fui a um aniversário infantil, recentemente, em que uma das mães chegou com a roupa suja de tinta, porque estão reformando a casa que compraram. Ao invés de olhares de reprovação, ela ganhou elogios e palavras de estímulo dos conhecidos em comum, pois logo a moradia estaria pronta e poderiam comemorar. Para eles, é mais louvável o esforço de reformar a casa do que a roupa da mãe, convidada para a festa infantil, que, aqui é verdadeiramente direcionada para as crianças como já escrevi aqui. É disso que falo e foi isso que incorporei: liberdade para ser e agir como se é e, não, como a sociedade impõe que se seja!

Leia também: Custo de vida na Áustria

Acompanhar e torcer pelas equipes de ski:

Jamais havia visto esportes de inverno, sobretudo competições de ski, nas suas mais variadas formas, como salto, snowboarding, slalom, free style, descida de montanha, enfim. A Áustria tem os melhores esquiadores do mundo. Para eles, isso é assunto muito sério,  então, quando começa a temporada, já me aprumo toda para acompanhar todas as competições possíveis pela TV. E vale a pena, pois o pessoal “se puxa”, como se diz na minha terra, e não faz feio, fora toda a paisagem deslumbrante que abriga os locais de torneio: alpes austríacos, suíços, italianos, franceses. Quem tiver oportunidade de acompanhar, recomendo.

Eis meus recentes hábitos adquiridos na terra dos Habsburgo.

Espero tenham gostado.

Até a próxima!

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8 comentários

Monica Paraiso Berge Setembro 16, 2017 at 11:54 am

Adorei!
E descobri que temos muitas coisas em comum.
Tambem sou advogada e tambem me tornei imigrante com mais de 18 anos de profissao.
Nos sabemos o qto e dificil desacelerar e mais nos adptar aos habitos estrangeiros.
Parabens pelo texto!

Resposta
Ana Dietmüller Setembro 16, 2017 at 12:36 pm

Alô, Monica.

Obrigada por ler e comentar.

É, são muitos fatores para apaziguar e ainda se acostumar com a gente mesma diante de novos hábitos. Exercício constante de autorreciclagem.

Interessante, temos mesmo bastante em comum.

Grande abraço e até a próxima.

Resposta
Rose Marie Setembro 16, 2017 at 6:19 pm

Ana,
Adoro seus posts! Quase acho que já conheço seu filhote!
Estou indo para Portugal para realizar um mestrado em direito e sempre me preocupo com esse jeito direto de falar dos europeus. Mas, casada com um descendente de poloneses, venho deixando de lado o “comer pelas beiradas” mineiro.
Por favor, fale mais sobre as escolas primárias na Áustria e sobre a aceitação do imigrante no país. Obrigada! Grande abraço

Resposta
Ana Dietmüller Setembro 17, 2017 at 3:59 pm

Oi, Rose Marie.

Obrigada por ler e comentar.

Não precisa se preocupar, morado aqui no continente, tu vais sentir como é e já identificar quando é falta de educação (às vezes acontece grossura, sim) e quando é o jeito normal de eles tratarem.

Em Portugal é um pouquinho diferente, porque eles são literais ao se expressarem, mas tu vais achar o teu caminho e daqui a pouco, tu mesma vais te pegar pensando no que já incorporaste.

Sucesso no mestrado.

Obrigada pela dica de pauta, irei providenciar para os próximos meses.

Grande abraço.

Resposta
Anderson Setembro 16, 2017 at 9:40 pm

Fiquei curioso em saber com que um advogado consegue trabalhar para sobreviver na Áustria?

Resposta
Ana Dietmüller Setembro 17, 2017 at 3:54 pm

Alô, Anderson.

Obrigada por ler e comentar.

A dinâmica de trabalho de um advogado aqui é bem mais tranquila do que no Brasil. Não existem milhares de demandas, o judiciário funciona para o que precisa, realmente, funcionar e muito dos conflitos o próprio cidadão comum resolve entre si. Só se ingressa na Justiça quando realmente se esgotaram todas as possibilidades de diálogo, que aqui eles preferem a irem frente a um juiz, no campo do Direito Privado.

E o que acho mais prático ainda é que muitos atos da vida civil, que no Brasil exigem um advogado, aqui nem se pensa em um. Exemplo: herança. Tudo é resolvido perante um tabelião, sem envolver advogado ou justiça. Só quando as partes não entram em consenso nenhum, aí é outra coisa.

A vida do advogado aqui é mais direcionada e não tão sufocante quanto no Brasil. É possível se viver da advocacia, mesmo que não se trabalhe em bancas, e os profissionais são respeitados.

Agora, para nós de fora, trabalharmos aqui como advogados, não é simples e também não adianta validar a OAB por Portugal, porque a Áustria exige que se prestem os exames da Ordem Austríaca e que se comprove o ano de prática forense. Com a aprovação e comprovação de que se prestaram as horas exigidas de prática, aí, sim, tu poderás trabalhar aqui como advogado.

Espero ter sanado tua dúvida.

Abraço.

Resposta
Erika Martins Carneiro Setembro 16, 2017 at 11:31 pm

Aninha, sua linda, amei, teus relatos, como sempre, deliciosos! Obrigada por citar o meu texto, tu és uma linda, mesmo.
Muito prática essa coisa de dizer tudo diretamente. Também aprendi isso na Alemanha e acho ótimo, mas fiquei tão alemã que o pessoal já me acha grossa no Brasil hoje em dia, eu agora sou direta demais.
Beijo enorme, ansiosa para ler o próximo.

Resposta
Ana Dietmüller Setembro 17, 2017 at 4:17 pm

Erika, amada.

Obrigada.

Pois é, guria, essa coisa de ser direta ainda me surpreende às vezes, pois me pego, depois de ter soltado o petardo, pensando que eu não costumava responder assim, tão na lata. Hahahahah. Entendo perfeitamente tua situação e tua “alemãozice”. Hahahahah.

O próximo tem uma dose de instigação bem acirrada.

Beijo!

Resposta

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