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O homem e o mar: histórias de pescadores em Cuba

Fernando e seu troféu de pescador, uma boca de tubarão.

O homem e o mar:  histórias de pescadores em Cuba.

Estava voltando pra casa de bicicleta com a testa pingando e o suor caindo no olho, embaçando-me a visão. Um calor que faz o vapor do asfalto produzir miragens. E nesse meio tempo entrei em uma rua pequena que dá para um montão de casinhas de madeira; estão às margens do rio Almendares, na porção que desemboca no mar, onde ficam ancorados muitos barquinhos de pesca. Nessa junção aparece uma ponte de ferro, sobre a parte do rio. Do lado do mar, avista-se um edifício com a frase: 60 anos de revolução! Viva Fidel!

Nesta ruazinha parei em uma sombra para limpar os olhos do suor e avistei um grupo de pescadores tratando de tampar os buracos em suas redes de pescas, outros com um charuto na boca apenas conversando, e, mais alguns, escutando os companheiros sem vontade alguma de ir embora. O tempo é algo que aqui se valoriza de uma maneira diferente e, simplesmente, aproveita-se.

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Neste momento, não resisti porque me veio à mente o pescador Santiago, do livro “O Velho e o Mar”, do escritor Ernest Hemingway.  Porque me veio em mente que todo pescador tem aquela ambição de pescar o maior peixe, como um troféu a ser exibido. E, pensei, aí tem muita história pra ser contada. A princípio todo cubano é bem desconfiado, mas depois te conta a vida inteira, sendo o mais complicado é fazê-los pararem de falar. Contando com isso, fui atrás de histórias. Eles ficaram ressabiados com minha proposta. Hei, posso conversar com vocês e escrever sobre as histórias que têm pra me contar? Calaram-se no mesmo momento e um indicava o outro dizendo ser o mais preparado para me ajudar em meu propósito. Até que o pai do Fernando gritou por ele e pediu para que viesse ao meu encontro.

Fernando, bem jovem, chegou caminhando a passos curtos e me olhando espantado. Já foi logo perguntando: Você é estrangeira? Disse que sim. Ele enche a testa de ruga e me pergunta: Por que tem uma bicicleta com uma caixa presa na garupa? Disse que usava para meu transporte, para fazer compras de casa… Ele parecia não estar satisfeito com a resposta, porque me disse que isso era coisa de cubano. Depois disso, fez-me mais umas tantas perguntas para logo abrir um sorriso e propor: “Quer ver minha casinha de madeira? Lá eu guardo meu material de pescaria”. Claro, respondi.

Na casa tem todo o material que ele utiliza, além de um freezer velho e seus troféus de pescaria. Foi me dizendo pra que servia cada coisa até que avistei uma boca enorme cheia de dentes em formato de triângulo, bem pequenos, e uma cruz de madeira que fazia com que essa mandíbula permanecesse aberta. Logo, pedi para me falar sobre aquilo. Fernando com seu jeito simples e uma certa timidez, transformou-se no rei do mar. Pegou a mandíbula, saiu da casinha, direcionou-se aonde os outros estavam. Fiquei um pouco confusa com a mudança de atitude, mas foi logo mostrando o que estava em sua mão a um companheiro que parecia ser sua testemunha.

Assim começou tudo. Com a boca gigante em punho, foi descrevendo como em um dia de mar agitado, foi jogado para fora do barco caindo sentado em cima de um tubarão. E ao cair no corpo do animal, que era gigante, ele agradeceu os ensinamentos do seu pai: leve sempre uma faca quando for pescar. Numa rápida reação, pegou o punhal que levava na cintura e deu morte ao bicho.

Essa pequena faca salvou sua vida e deu prestigio de um bom pescador à sua família e comunidade. Perguntei por foto mas não havia. Foto é algo raro pra quem não tem smart phone e vive em Cuba. Sua testemunha só confirmava fazendo um sim com a cabeça. Eu não sei se era um teste, uma pegadinha, ou eles já tinham escutado tantas vezes essa mesma história que já não produzia mais nenhum tipo de reação. Só sei que até agora, penso se foi verdade ou não. Acho que por causa da expressão “história de pescador” não levei muito a sério.

Depois de Fernando foi a vez do Marcos. Marcos também mais jovem e, como Fernando, filho de pescador. Tornou-se um desde que já tinha tamanho para ajudar o pai. Marcos já não apresentava a mesma expressão de contentamento que Fernando. Com a testa franzida e olhando para o chão, conta das dificuldades para se ter um bom barco, peças e instrumentos, já que em Havana não existe nenhuma loja de pesca. Tudo é importado. Vem em pacotes com mulas -pessoas que trabalham comprando encomendas em outros países como Panamá e EUA, com um preço alto, além do tempo grande de espera, o que aumenta a dificuldade de realizar a manutenção dos barcos.

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Associado a isso, está a crise de combustível que assola o país nas últimas semanas, dificultando o trabalho deles. Enquanto falava das dificuldades de um pescador cubano, todos tinham um olhar perdido e permaneciam calados. Foi quando Marcos contou sobre o dia em que o motor do seu barco parou de funcionar em alto mar, e como relatou, de onde era impossível se avistar a cidade. Um deles cortou a fala para mencionar que nem sempre é possível se comunicar por rádio. Com o barco com o motor quebrado, sem remo, sem alimento, sem água, sem rádio, mas tendo a destreza dos ensinamentos de seu pai pescador, a corrente certa o levou depois de 5 dias à deriva, à costa do município de Matanzas. São mais ou menos 90 kms de distância de Havana. Saíram do barco arrastando as pernas por uma longa distância, não sabem dizer exatamente, até avistar uma casa e serem salvos por pessoas bem generosas que moravam no meio do nada. Até se recuperarem e encontrarem um telefone para avisar à família que estavam vivos, foram mais 2 dias.

Marcos e seu barco que ficaram à deriva no mar durante 05 dias.
Marcos e seu barco que ficaram à deriva no mar durante 05 dias.

O silêncio foi quebrado por um pescador falando meio embolado, parecia já ter tomado uns tragos e com a cara cheia de cicatriz. Pareceu-me que alguém ligou pra ele vir me contar suas histórias porque já chegou falando. Chegou perguntando qual lado do rosto estava uma cicatriz grande e profunda. Foi difícil dizer porque seu rosto estava todo marcado. Fiquei sem saber onde apontar e ele mesmo resolveu a questão dizendo, não importa, minha cara inteira tem cicatriz, “mas a maior de todas foi um peixe enorme que peguei, que tem um focinho como uma faca, quando encarei o bicho para tirá-lo da água, puxei com tanta força que entrou o bico de faca com tudo na minha bochecha. Meu companheiro tirou ele de cima de mim e foi sangue pra todo lado. Sangrei até chegar aqui, os tubarões nos cercaram alvoroçados com o cheiro por quase todo o caminho”. Eu perguntei como deve ter sido doído e que se essa foi sua mais difícil história no mar. Respondeu-me que a mais difícil foi quando viu corpos de seus compatriotas que se jogaram no mar com câmaras de pneu de caminhão, na esperança de chegar em Miami, nos anos 90. Com a voz embargada, manteve-se calado.

E como é comum acontecer, esse último relato trouxe outras lembranças desse período difícil no país. O mais velho da roda, contou-me que teve o filho sequestrado para ser chantageado, e se ver obrigado a levar um grupo de mais ou menos 5 cubanos até Miami. Foi um golpe frustrado pela polícia e resolvido com a entrega do seu filho, contando sem muitos detalhes.

E Fernando aparece novamente perguntando por meu documento cubano, e eu com um pouco de medo, disse que estava comigo, precisaria mostrá-lo? Afirmando que sim com a cabeça, estendeu a mão e olhou atento para o meu documento de residente temporária. Para meu alívio, era para me convidar a dar uma volta de barco. Subi em seu barco pequeno de madeira que vem de geração em geração em sua família, cheio de remendos e ajustes para todos os lados. Nesse momento em que já estávamos navegando no rio Almendares e já entrando no mar, ficou bem falante e entusiasmado em ensinar sobre sua rotina de pescador, e tudo mais da sua sabedoria adquirida pelas gerações anteriores de pescadores. Ao falar do avô, contou que esse foi ator de um filme sobre a vida de Hemingway.

Em Cuba, irônica e historicamente, o consumo de peixes não é o mais alto entre as carnes, embora trate-se de uma ilha. Isso, mesmo antes da revolução. Em algum momento existiu uma grande frota de pesca que deteriorou-se nas últimas décadas. Hoje os pescadores trabalham em cooperativas e em pequena barcos, e vendem produtos ao governo que os distribui.

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