BrasileirasPeloMundo.com
COVID-19 Cuba

Pandemia em Cuba

Foto de Havana em quarentena feita por minha amiga Suzi Travagali

Pandemia em Cuba

Voltei para Havana depois de uma viagem de férias nos EUA , dia 17 de fevereiro. Por essa parte do mundo só havia rumores da pandemia. Lembro de ter visto um telão imenso na Times Square, em Nova York, ¨China: Be strong! ¨- China : Fique forte!¨. Essa foi a referência mais forte em relação ao novo coronavirus que tive nesses dias de turismo . Algo bem distante , lá bem longe, do outro lado do planeta .

No dia 17 de fevereiro aterrizei no aeroporto Jose Martí , sem máscara, mas já havia algo diferente. Na hora de passar pela imigração me perguntaram se eu tinha viajado pra algum país asiático , e também tive que passar por uma maquina que afere a temperatura corporal, para identificar possíveis passageiros em estado febril. Passei por eles sem ainda ter a percepção da seriedade daquilo tudo. Só me preocupava minhas malas de abastecimento trazidas para ilha. Pra quem mora aqui esse sempre é um momento de stress. 

Com tudo certinho sai do aeroporto em direção a minha casa, e neste momento o quotidiano continuava o mesmo. Mas já havia alguns boatos nos grupos de WhatsApp e o medo de que pudesse chegar por aqui. Mas essa realidade ainda era muito distante, só ficava no plano da imaginação de alguns que faziam surgir lendas urbanas. O questionamento era sobre a possibilidade da  doença chegar na ilha, e quando isso poderia passar.

E foi o 11 de março no eterno verão cubano, em que o mundo já estava chocado com os estragos da contaminação da COVID19 na Itália, quando chegaram 03 turistas italianos ao aeroporto de Havana.  Um deles não estava bem, mais seus outros dois colegas ajudaram a disfarçar a situação. Dormiram em Havana e seguiram sem maiores transtornos. No outro dia tomaram um táxi para uma cidadezinha chama Trinidad. No caminho o taxista notou que um deles tossia muito, e ficou desconfiado. A população cubana, sobretudo a que lida com o turismo, é muito informada. O motorista os deixou na pousada e foi diretamente fazer a denuncia de um possível caso de contaminado na ilha diante das autoridades sanitárias da região. Foi emitido o alerta e o pessoal da saúde foi ate a pousada , levou os três para isolamento em conjunto com todos que tiveram contato com eles, inclusive o taxista. E assim começou a história aqui.

Provocou a comoção da maioria dos estrangeiros que moram na ilha e que já tinham visto o caos nos seus proprios países. Passaria o mesmo aqui? Também provocou algumas críticas ao governo de parte de alguns cubanos, muitas reclamações e incertezas em relação a estrutura , planejamento e eficiência no combate ao coronavírus.

Eu disse estrangeiros porque a maioria dos cubanos confiavam no sistema de saúde deles desde o início, embora os seus pedidos de fechar logo as fronteiras (uma decisão que não foi imediata). Eles demonstravam uma segurança e a certeza de que suas vidas não estariam em risco. Claro que há exceção, mas a maioria não demonstrava muita apreensão quanto a pandemia. Dentro de todas as limitações cubanas, o pais conseguiu controlar epidemias de dengue hemorrágico, conter rapidamente zika e chicungunya, além de ter tido missões médicas que lutaram contra o ebola na Africa em 2014.

Os cubanos pressionaram para que a ilha fosse fechada  o governo resistiu por pouco tempo -é um pais que precisa do turismo- mas fechou desde 24 março. Fechou fronteiras externas e internas. Ninguém poderia mais viajar nem para o exterior e nem para o interior. Colocou a mais de 60 mil turistas do mundo inteiro -grande parte deles em alojamentos particulares- em alguns hotéis de Havana administrados pelo governo, enquanto as embaixadas junto com as companhias aéreas organizavam a saída aérea de seus compatriotas. Os turistas não podiam mais andar livremente nas ruas, tinham que estar confinados nestes poucos hotéis porque todos os outros foram fechados e permanecem assim até hoje. Orçamentariamente foi uma complicação para vários visitantes.

Cuba, um pais que tem 82 médicos por cada 10.000 habitantes, tem em cada bairro um “médico da família”. Eles passaram a ir de casa em casa pra perguntar como nos estamos sentindo, se alguém tem febre. Assim como os estudantes de medicina que foram recrutados para fazer esse inspeção nas casas de  moradores . Eles chegam caminhando, bem cedinho.  Quando aparece um caso, isolam todos que tiveram contato com essa pessoa mesmo que não tenha sintomas.  Esse isolamento é em hospital destinado ao tratamento de pacientes com coronavírus, ou em locais acondicionados, como escolas, sem aulas nesses dias de isolamento social.

As ruas nos bairros populares durante o dia estão cheias, a grande maioria usando máscara, mas o distanciamento social é um desafio para o governo . As filas nos supermercados são imensas . A crise no abastecimento é algo preocupante para população que já passou pelo “período especial” nos anos 90, depois da queda da União Soviética, com imensas restrições e falta de tudo.

Cuba é um pais que importa a maioria dos alimentos que consome. E agora, com o mundo em crise, não importa se vc tem dinheiro ou não , é difícil conseguir frango, produtos de higiene, manteiga, entre outros, para todos. Ë muito triste ver gente, horas e horas, para comprar algo que não sabe nem se vai ter quando chegar sua vez.

Foto de uma aglomeração de pessoas em uma fila de um dos mercadinhos de Havana. essa cena se ve diariamente na cidade. foto feita por Suzi Travagali
Foto de uma aglomeração de pessoas em uma fila de um dos mercadinhos de Havana. Essa cena se vê diariamente na cidade. foto feita por Suzi Travagali

Como prevenção, o transporte urbano já não estão mais nas ruas, nem taxis. Não vemos mais os ônibus, carros antigos que faziam transporte publico. O cinema esta fechado, assim como bares e restaurantes . Proibida qualquer manifestação artística ou atividade cultural. Teatros fechados : Nada de turistas e musicas pelas ruas de Havana Velha. Uma cidade que era música ao vivo em cada esquina está sem alma. A orla que percorre toda Habana esta sem os seus pescadores, os amantes do mar, os turistas e suas selfies, sem os garotos de programa em busca de dinheiro, sem a galera jovem em busca de diversão.

Tá tudo mais escuro do que de costume. As luzes da cidade, que faziam falta em algumas localidades, em outras que eram presentes já não estão ligadas, que em grande parte da cidade, que era puro movimento à noite. So nos resta o por do sol no mar mas mesmo esse está limitado pelo controle da pandemia porque não pode haver aglomeração nos espaços dedicados a sua contemplação. 

A sensação de falta tão presente em nosso cotidiano, se mistura com a limitação da liberdade pelo isolamento, do medo do contagio e tudo vira uma ansiedade sem controle que é facilmente visível na incessante busca por produtos nos grupos de WhatsApp.

Embora isso, Cuba tem conseguido conter a pandemia melhor do que seus vizinhos, e isso, por enquanto, entrega um leve alivio quando olhamos para o mundo lá fora.

Related posts

Como é viver sem propaganda, anúncios e shopping

Viviane Naves de Alencar

Comunidade LGBT em Cuba

Viviane Naves de Alencar

Fidel: amor e ódio Parte 2

Simone Gonçalves

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Este site ou suas ferramentas de terceiros usam cookies Aceitar Consulte Mais Informação