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A sensação de ser imigrante nos Estados Unidos

A sensação de ser imigrante nos Estados Unidos.

A “América”, ou melhor, os Estados Unidos da América, vendem para o mundo todo há quase 100 anos, o “American dream” ou o sonho americano.

Com o respaldo de Hollywood, indústria de entretenimento mais rica e poderosa do planeta, o estilo de vida norte-americano é extremamente difundido ao redor do globo terrestre e milhões de pessoas sonham em viver nesse mundo encantado.

Existe uma página no Facebook chamada “Humans of New York” que entrevista diariamente moradores da cidade de Nova Iorque e também do mundo. Em uma edição especial foram entrevistados refugiados sírios e todos tinham vivo o sonho de que na “América” reconstruiriam com sucesso as suas vidas.

Mas a realidade pode ser bem diferente do sonho e aqui peço licença para compartilhar a minha experiência.

Hoje comparo a “América” como aquela atriz famosa, lindíssima, de pele e cabelo perfeitos, que na tela do cinema parece sensacional. Chega um dia em que a conhecemos de perto e nos decepcionamos um pouco: percebemos as rugas, as cicatrizes, o mau hálito e chegamos a conclusão de que a idealizamos demais e ela é muito mais parecida conosco mesmo, com todos os defeitos comuns de um ser humano.

Eu cheguei aqui como imigrante legal, portadora do visto L1/L2. Esse visto é bem difícil de ser conseguido e se aplica somente a executivos ou empresários que tenham papel fundamental dentro de uma empresa internacional e esse é o caso do meu marido. O L1 é um dos poucos vistos que possibilita o acesso ao green card e, por isso, as exigências para obtê-lo são grandes.

Digo isso para esclarecer que entramos aqui pela porta da frente e acreditem, não é fácil! Precisamos lidar com as dificuldades do idioma, com a ausência de crédito financeiro (recém chegados têm o crédito nulo, que impede que se consiga qualquer tipo de financiamento), com os inúmeros formulários que sempre nos categorizam como hispânicos e latinos, sem sequer considerar que nossa língua é o português.

Além disso tem  o clima, as saudades da família e dos amigos e uma vida inteira de novidades. Basta você responder a um bom dia e a pergunta seguinte é: de onde você vem? Parece até que carregamos um selo na testa…

Já escrevi aqui sobre o sistema de saúde, consumo e alimentação e o quanto tudo isso pode custar caro a um imigrante. No geral, brasileiros são bem vindos, mas não se enganem: as bandeiras de “welcome” não sacudirão se você estiver em situação não documentada.

O novo presidente americano assumiu o cargo em janeiro e em apenas duas semanas já virou de cabeça pra baixo a política migratória. A menos que você estivesse em Marte de férias, o assunto ininterrupto foi a confirmação da construção do muro nas fronteiras com o México (a ser pago pelos mexicanos, segundo o presidente norte-americano), o banimento de sete países muçulmanos e o fim dos programas de aceitação de refugiados, além da expulsão de milhares de imigrantes em situação irregular.

Tudo isso dá o tom de uma política imigratória ultra restritiva, mais disposta a muros do que pontes e, talvez, seja o momento de rever se esse sonho não irá custar caro demais.

Leia também: Vistos para morar nos EUA

Não posso negar que alguns ítens desse sonho correspondem à realidade: a maioria das casas americanas são rodeadas por jardins, sem grades e muros;  em muitos bairros e cidades as escolas públicas são excelentes;  há uma grande oferta de emprego; aqui é o país do entretenimento e da rica oferta cultural; as universidades são excelentes (apesar de serem TODAS pagas); a violência urbana é infinitamente menor que em cidades brasileiras; são raros os casos de corrupção etc.

Muitos americanos são extremamente gentis e se dispõem  a trabalhar voluntariamente ensinando inglês a imigrantes. Em quase todos os bairros (da minha região, ao redor de Washington DC) existem aulas de inglês gratuitas e bibliotecas públicas com tudo o que você precisar.

Muita coisa é admirável, mas é ingenuidade achar que aqui é o paraíso. Existe violência e miséria nas grandes cidades, a população afro-americana ainda enfrenta discriminação violenta, a questão do porte disseminado de armas aumenta a insegurança em escolas e locais públicos, o custo de vida pode ser surpreendentemente caro e o preconceito contra imigrantes parece estar se acirrando.

A temperatura política anda extremamente quente e o famoso mote “Let’s make America great again” (Vamos fazer a América sensacional novamente) bradado ferozmente pelo presidente, pode não ser um bom sinal do que virá por aí. Digo isso por que ao invés de se preocupar com os problemas – reais – que citei acima, a agenda política atual parece estar preocupada em reviver um estilo de vida retrógrado dos anos 50, em que minorias eram perseguidas e direitos humanos eram irrelevantes.

Não cabe a mim julgar ou mesmo influenciar a escolha de ninguém. Eu mesma abri mão de uma vida estabilizada no Brasil para experimentar esse sonho de viver em uma sociedade mais justa e equilibrada. Ganhamos, mas perdemos também. A balança de cada um é muito pessoal mas, sobretudo nesse momento de transição política, eu repensaria com muito carinho se os EUA é a melhor escolha para uma vida melhor, sobretudo se você irá arriscar a entrada aqui por vias não convencionais e validadas pelas rígidas leis norte-americanas.

E lembre-se, em um país estrangeiro, você será sempre…. um estrangeiro! (Independente de seus méritos). Trata-se de uma escolha que deve ser pensada e repensada com muito cuidado. Espero ter ajudado e não desanimado.

Até a próxima!

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6 comentários

Daiane Noble Junho 25, 2017 at 2:45 pm

Olá Gabriela! Agradeço por finalmente ver alguém no blog escrever sobre a realidade nos Estados Unidos. Sou linguista formada pela UNICAMP, estou aqui há um ano e meio, e meu marido é americano. Também deixei vida e trabalho estabilizado no Brasil para ficar ao lado dele, que é o homem mais honesto e gentil que já conheci. No entanto, confesso que ainda não aceitei como esse país funciona. Não entendo como o povo pode aceitar viver em um lugar onde se pagam impostos e o governo não oferece itens básicos à população, como saúde e educação superior. Aqui quase se paga para respirar. Importante dizer também que as leis mudam bastante de um estado para o outro, e isso pode afetar a situação de imigrantes. No meu caso, enquanto morava em North Dakota, como ainda não tinha autorização de trabalho nem green card, eu não podia nem ter conta em banco. Praticamente eu não existia e dependia totalmente do meu marido. Precisava andar com uma cópia da nossa certidão de casamento na minha bolsa. Já quando nos mudamos para o Texas, um estado mais acostumado a imigrantes devido à proximidade com o México, consegui abrir conta só com o meu passaporte. Logo depois de conseguir minha autorização de trabalho e meu SSN, também consegui um secured credit card, cartão de crédito seguro, para o qual precisei fazer um pagamento inicial de 300 dólares para começar a usar.
Felizmente consegui emprego super rápido, devido à minha experiência prévia no Brasil e também por falar 4 idiomas, o que é muito bem visto aqui, já que americanos em geral não se preocupam muito em aprender outra língua. E com o emprego descobri que o plano de saúde custa um absurdo – mesmo se a empresa ajuda a pagar – e que não há licença maternidade paga, salvo poucas empresas que pagam uma parte. Estou grávida e tendo que economizar agora para poder pagar as contas enquanto estiver de licença.
Sim, há o lado bom como você mencionou, principalmente no nosso caso. Meu marido perdeu o emprego logo que nos casamos e ainda não conseguiu outro que traga a mesma renda. Para reduzir os custos, decidimos viver em uma motorhome, pagando aluguel em um RV Park, que é muito mais em conta do que aluguel de apartamento ou casa. No Brasil não teríamos essa opção.
Enfim, cabe a cada um decidir se vale a pena morar aqui ou não, com base na experiência anterior vivida no Brasil e na situação de vida nos EUA. Me arrependo de não ter pesquisado mais antes de me mudar, pois eu estaria mais preparada.
Obrigada por compartilhar essas informações, que são muito úteis a quem está pensando em viver aqui. Um abraço!

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Gabriela Albuquerque Julho 4, 2017 at 12:15 pm

Que bacana vc compartilhar a sua história Daiane!Eu também me senti muito despreparada quando cheguei aqui e hoje, acho, que pesquisas nenhuma irão nos dar a noção de realidade que é viver aqui. Nos meus textos procuro sempre fazer a minha parte, pintando um cenário real e longe das fantasias, que muitos nós temos sobre morar fora do nosso país. Um beijão e boa sorte pra você!

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Gabriela Albuquerque Julho 23, 2017 at 3:35 pm

Uau Daiane! Sua história é impressionante. Só quem mergulha na América real pode entendê-la e descobrir o quão diferente é do que vemos em filmes e séries…Estou torcendo por você e seu bebê e que você consiga passar bem por tudo isso. Força!! 🙂

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Evelyn Julho 1, 2017 at 8:40 pm

Adorei o post! Morei emQuantico, VA, entre 2010 e 2011, acompanhando meu marido. Também entrei pela ” porta da frente” como você mencionou. Entretanto, a sensação era de sempre ser uma forasteira. O Brasil não é tão bem visto como pensamos, e a classificação “hispano” é genérica para os americanos. Realmente é preciso pesquisar bastante antes de tomar a decisão de se mudar para o exterior. Parabéns pelo post super bem escrito e realista.
Sucesso!
Beijos,
Evelyn

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Gabriela Albuquerque Julho 23, 2017 at 3:32 pm

Obrigada! Só depois de uma imersão real na vida americana é que podemos ver algumas coisas. Abraços!!

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José Santos Maio 23, 2018 at 2:01 pm

Deixar minhas casas, as praias, o sambinha e o churrasco final de semana por causa do Lula? E ir morar em MOTOR HOME e ainda ser chamado de “hispânico” e discriminado? Estou fora!!

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