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Me redesenhando

Às vezes é preciso reinventar-se. Sei que a frase é batida, quase um clichê mas faz muito sentido para mim agora. Depois de quase dois anos sendo imigrante nos EUA eu tive que encarar novos caminhos. A Gabriela do Brasil não cabe mais aqui e vou explicar porquê, vamos lá?

Logo nos meus primeiros meses aqui nos EUA, eu estava às voltas com tudo o que implica uma grande mudança como essa, assentar a casa nova, organizar a vida e dar suporte para as minhas filhas, que por já terem chegado aqui adolescentes, estavam enfrentando grandes desafios.

Quando tudo parecia estabilizado eu decidi que precisava voltar a trabalhar. Com diploma de duas excelentes faculdades brasileiras -PUC e USP-, alguns anos de experiência e o inglês que eu considerava razoável, achei que seria fácil. (risos)

A região de Washington D.C. é uma área de excelência em vários setores, inclusive no campo das artes, devido ao grande número de poderosas organizações. Muitas oportunidades de trabalho mas muita concorrência. Pós-graduação, mestrado e doutorado são o mínimo exigido para fazer parte do staff de qualquer instituição. Meus currículos enviados sequer recebiam respostas…

Assim, desanimada pelas exigências, fui tentar um trabalho voluntário na National Gallery of Art. Depois de um processo seletivo duríssimo, fui reprovada pelo meu inglês manco. Claro que é frustrante e balançou a autoestima, porque nem de graça me queriam. Resolvi então mudar o rumo da prosa…

Ao invés de uma pós-graduação na minha área, que iria me custar um dinheiro que eu não tenho, me matriculei em uns encontros de Open Life na Art League School, uma escola de artes sensacional, que fica na charmosa cidade de Alexandria. Artistas se reúnem uma vez por semana em frente a um modelo vivo e lá podem elaborar seus trabalhos em qualquer mídia, sem orientação e sem regras, apenas deixando fluir a criatividade e o talento de cada um.

A maioria do meu grupo são artistas já com longo caminho rodado, e eu que nunca fui nem pintora de livros de colorir me joguei de cabeça. Só com meu estojinho de aquarela e meu sketchbook amador.

A melhor lição recebi logo no primeiro dia. A modelo, uma mulher bonita na faixa dos 45 anos, tirou a roupa e exibiu seu tórax com uma imensa cicatriz no lugar que um dia foi a sua mama esquerda. Caraca! Que ser humano incrível e bem resolvido é esse, que trabalha como modelo vivo sem constrangimento ou crises em relação à mutilação a que foi submetida? Pensei em todas as minhas inseguranças e grilos e senti vergonha, por ser ainda tão fraca…

Cada semana um modelo diferente. Lindos, jovens, velhos, feios, gordos… todos se despindo e cedendo seu corpo para a prática artística. Meus resultados estão longe de qualquer ideal, mas o envolvimento pela luz, pela respiração das pessoas, pelos ruídos dos pincéis e lápis dos meus colegas tem me feito um bem imenso. O ser humano ganhou outra dimensão e a lição que eu conhecia na teoria, ficou incrivelmente concreta: somos todos iguais, por baixo dos acessórios que nos categorizam.

Falta muita habilidade de minha parte ainda, mas o que importa é o caminho. Não sei onde isso me levará e não me interessa, quero apenas vivenciar o que a vida me traz agora.

Não sou artista, nunca fui, apesar de sempre ter minha vida ligada à arte de uma certa forma. Primeiro a literatura, depois a arquitetura e finalmente a curadoria.  Ficar 5 horas semanalmente à frente de um modelo tem me dito mais sobre arte do que todos os tratados sobre a Bienal de Artes que já fui obrigada a ler. Outros caminhos, apenas isso.

Sinto que entrei em uma estrada sem volta e cada dia sou surpreendida com novas formas de encarar o horizonte. Uma carreira brilhante no Linkedin, uma vida ocupada por reuniões e eventos, não fazem parte dos meus anseios. Aprendi que posso ser plena sem ser uma profissional bem sucedida e já nem respondo mais às milhares de questões que vêm de parentes e amigos: nossa você não vai trabalhar?

Se aparecer um trabalho em um café, ou supermercado que ocupe pouco tempo do meu dia, eu aceitarei de bom grado. Para mim, hoje ter o tempo livre de andar pelo mundo, observar pessoas, escrever e pintar é muito mais valioso do que os dólares na minha conta ou glamour no Instagram.

Também voltei para as aulas de inglês e no meu grupo tem gente de todos os continentes. Recentemente outro tapa na cara: uma colega de aula, do Afeganistão, nos contou que cria seus filhos sozinha aqui, sem família, sem marido. Seu primeiro contato com a alfabetização aconteceu há apenas dois anos atrás! Uma mulher da minha idade  que aprendeu a ler e escrever somente depois de se refugiar na América…  Tem também duas mulheres na sala, do Irã e do Iraque, que sentam lado a lado para estudarem os tempos verbais do inglês. A vida realmente é curiosa…

O que nos diferencia? O que nos iguala?

Conheci brasileiras que jamais conheceria se não estivesse aqui, tão encalacrada que eu ficava na minha prateleira paulistana. Olho para frente, sem esquecer de olhar para trás. O Facebook me mostra memórias passadas diariamente e me fez ver de longe uma outra Gabriela: intolerante, de visão política estreita e arrogante. Poderia me envergonhar, mas não! Isso também faz parte do que fui e do que me tornei.

São esses fatos corriqueiros que tem enchido a minha vida de significados. Cansei das pregações de certo e errado em relação a tudo! Política, moral, religião, fé… a verdade é que não sabemos a verdade, e nem sequer se ela existe. Julgar menos e experienciar mais, esse é meu lema agora.

Nessa construção chamada vida, o grande barato é a possibilidade de mudarmos a trajetória sempre. Viver é um livro aberto, até a chegada da última página. Caminhemos…

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8 comentários

CLAUDIA PARANAGUA Julho 21, 2017 at 9:52 pm

Excelente! Esse é o verdadeiro ganho quando estamos fora. Passamos a olhar e a entender as coisas de maneira diferente. Parabéns pelo depoimento. Vou compartilhar!

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Gabriela Albuquerque Julho 23, 2017 at 3:30 pm

Obrigada! Para mim um dos maiores ganhos dessas minhas escolhas é receber respostas como a sua. 🙂

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Mariana Bittencourt Julho 22, 2017 at 10:11 am

Gabriela, que texto mais doce. Eu moro em Portugal e tô nesse momento percebendo que talvez seja a hora de se reinventar mesmo, que bonito saber que não tô sozinha. Obrigada <3

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Gabriela Albuquerque Julho 23, 2017 at 3:29 pm

Obrigada! Espero que você descubra seu caminho…força! 🙂

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Silvana Julho 22, 2017 at 6:15 pm

Parabens, Gabriela. E muito bom se libertar e procurar o q realmente nos satisfaz.
Um abraco
Silvana

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Gabriela Albuquerque Julho 23, 2017 at 3:28 pm

Vc tem razão. A vida passa em um sopro pra gente não se auto-respeitar!! Abs 🙂

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NiKi Verdot (1001 Dicas de Viagem) Julho 23, 2017 at 12:17 pm

Gabriela, vou escreveu alguns pensamentos que também tive ou ainda tenho. Vou completar um ano na França e também passei/estou passando por uma “crise de identidade” parecida. Fico feliz que tenha se redesenhado. Se redescoberto. Foi super inspirador. Muito obrigada!

Resposta
Gabriela Albuquerque Julho 23, 2017 at 3:31 pm

Que bom que pude te ajudar de alguma forma. Isso me mostra que estou no caminho certo, ainda que não seja o mais fácil. Um beijo e sucesso nas suas escolhas! 🙂

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