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Irene Harand, a mulher que enfrentou Hitler

Minha homenageada para o Mês da Mulher é a austríaca, Irene Harand.

Essa é uma história de coragem, visão e, para aqueles tempos, atrevimento extremo. Todo esse ímpeto, salvou centenas de vidas, formou um movimento de resistência política e rendeu à nossa homenageada uma caçada impiedosa por parte das forças nazistas contra si.

Nascida em Viena, em 7 de setembro de 1900, no seio de uma família católico-protestante burguesa, Irene, já na década de 20, trabalhava na Associação dos Pequenos Pensionistas e Poupadores da Áustria (Verband der Kleinrentner und Sparer Österreichs). Essa associação era defendida pelo advogado, judeu, Moriz Zalman, que lutava contra a condição miserável de vida dos associados em virtude da inflação galopante e extrema pobreza deixadas como herança pela perda da Primeira Guerra Mundial, bem como pelo contexto global de recessão da época. Irene passou à condição de representante da entidade, escrevendo regularmente para o jornal, Die Welt am Morgen, trazendo à luz pública o dia a dia de fome e privações dessa categoria da população.

Em 1930, juntamente com Moriz Zalman, funda o Partido Popular da Áustria (não o atual ÖVP) no intuito de concentrarem forças não só pela reivindicação de melhoria de vida dos pequenos pensionistas e poupadores do país, bem como contra a já crescente onda de antissemitismo que tomava conta da Áustria à época. Infelizmente, o partido não atingiu número de votos suficientes para que pudesse sentar representantes junto ao Parlamento.

Leia também: Tudo que você precisa saber para morar na Áustria 

Em 1933 então, após o fracasso político, Irene funda o Movimento Mundial contra o Ódio Racial e contra Situações de Miséria (Weltbewegung gegen Rassenhass und Menschennot), mais conhecido como Movimento-Harand. Entre 1933 e 1938 – vejam bem, ainda não havia se iniciado a Segunda Guerra Mundial e por visão de uma brava mulher, já existia um movimento social/político que se postava, frontalmente, contra a doutrina nazista – o movimento já contava com centenas de membros em diversos locais da Europa. Havia um periódico de publicação semanal, o Gerechtigkeit (Direito), acerca da pauta de luta do movimento e seus rumos, tendo-se chegado a traduzi-lo para o polonês e francês. Infelizmente, a tentativa de realização de um congresso internacional do Weltbewegung não teve sucesso em virtude de dificuldades financeiras.

Em 1935, Irene escreve, Sein Kampf. Antwort an Hitler (“Sua luta. Resposta a Hitler”), o que viria a ser a antítese de Mein Kampf (a “bíblia” do nazismo, escrita por Adolf Hitler). Na obra, Irene Harand desmistifica a propaganda nazi, mentirosa, de que os judeus são culpados pelos desastres econômicos mundiais, dentre outras afirmações criminosas utilizadas pelo partido nazista para convencer a grande população. Ponto frequentemente reproduzido pela propaganda acerca de que, especialmente advogados judeus eram inescrupulosos e gananciosos,  Irene pode vivenciar o extremo oposto, a realidade, ou seja, trabalhava com um advogado judeu que lutava pelos direitos de quem não tinha o que comer, portanto, não teria reservas para pagar-lhe gordos honorários advocatícios. Isso, com certeza, inspirou Irene a começar – e continuar – a luta que seria a de sua vida toda!

Repito, em 1935 uma mulher se posicionar frontalmente contra a maior máquina de morte e ódio da época é algo de se bater palmas em pé. Irene viajou pela Europa, angariando membros e alertando contra o que estava por vir; organizou comitês de auxílio, comida, moradia e possibilidade de fuga para os primeiros casos de refugiados que lhe chegaram às portas do escritório central em Viena. Enquanto Munique, já nazista, apresentava ao mundo a mostra antissemita, “Judeu Eterno” (Ewige Jude), Irene organizava, em protesto, uma ação com retratos de judeus iminentes e de relevância para a sociedade.

Casada desde os 19 anos com Frank Harand, industrial do ramo de chocolates, e proveniente de família de boas posses, Irene não tinha preocupações existenciais como alimentação, vestuário ou habitação. O casal não teve filhos. Sua vida podia, então, direcionar-se exclusivamente à causa contra o nazismo. E assim ela o fez de forma altamente corajosa.

Por óbvio, a movimentação de Irene pela Europa, a criação de um movimento político/social de resistência, mobilização de auxílio para pessoas em estado de extrema necessidade e a publicação de jornais e um livro contra o antissemitismo, não agradou nenhum pouco o partido nazi, sobretudo seu chefe-supremo, Adolf Hitler.

Em 1938, quando a Áustria já havia sido anexada por Hitler, a cabeça de Irene Harand valia 100.000 Reichmark (moeda corrente do Terceiro Reich). A ordem era bastante clara: estando a procurada à vista, atirar! O perigo que Irene representava ao regime era tal que a ordem imediata era de eliminá-la assim que o primeiro agente nazi a avistasse, fosse onde fosse. Não era nem prisão, nem campo de concentração! Era execução sumária mesmo! No mesmo ano, seus livros foram queimados, em praça pública, em Salzburg! Por sorte, Irene estava em viagem pela Europa, fora da Áustria portanto, quando desses acontecimentos. Era mais do que claro que não poderia mais retornar a sua terra natal, tendo conseguido fuga por Londres e exílio definitivo, nos EUA, juntamente com seu esposo! De lá, comandou mais comitês de auxílio e participou, ativamente, na organização de vistos para que judeus europeus pudessem se refugiar nos Estados Unidos, além de angariar fundos para que se pudessem pagar fianças a presos políticos e livrá-los das celas nazistas. Salvou dezenas de vidas, mas uma, pela qual nunca conseguiu se perdoar – mesmo havendo ativamente tentado -, foi a de seu fiel companheiro de luta, advogado Moriz Zalman. Dr. Zalman foi preso, em trânsito, tentando cruzar a fronteira para a Suíça, ainda em 1938 e veio a falecer no campo de concentração de Sachsenhausen.

Irene dizia estar lutando contra a suástica e uma de suas frases mais marcantes foi “o antissemitismo é uma vergonha para o cristianismo”. Sob essa bandeira, manteve-se fiel e, obviamente, amealhou inimigos, inclusive, dentro da igreja católica da Áustria, que, embora tenha, também, organizado um movimento de resistência, não teve poder suficiente para combater o terror, nem evitar que muitos de seus membros  apoiassem o nazismo. Contra isso, Irene fazia declarações públicas sem constrangimento. Pode-se dizer que ela não agradava nem a gregos e nem a troianos, mas estava, definitivamente, do lado certo: o lado da humanidade e da justiça!

Por sua contribuição, por sua voz e sua coragem, Irene Harand tem um local especial no Yad Vashem (Memorial ao Holocausto em Israel), tendo sido condecorada com o título de “Justa sobre as Nações” (Righteous among the nations, ela é a número 377, no ano de 1967). Essa deferência é conferida a quem prestou relevantes serviços ou arriscou a própria vida para salvar vidas de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Faleceu em Nova Iorque em 1975.

Como muito costuma ocorrer com muitos heróis anônimos – e, sobretudo, heroínas -, Irene Harand só foi “descoberta” pela Áustria, nos idos de 1970 e, até hoje, fora o meio acadêmico, poucos cidadãos comuns ouviram falar a respeito de sua relevantíssima história.

Às vezes me pergunto se eu teria tamanha coragem e tamanha visão. Não é fácil saber como se reagiria se estivéssemos lá, naqueles tempos indiscutivelmente horrendos, mesmo antes de a guerra se iniciar. O que pode ter auxiliado um pouco a mobilidade de Irene até 1938 é o fato de que o partido nazista, na Áustria, era ilegal. A ditadura austríaca não tolerava a existência do partido nacional-socialista e o aboliu legalmente. Até março de 1938, quando o então partido ilegal marchou sobre a Áustria e a varreu do mapa!

Tudo isso nos faz pensar em como nos posicionar diante de situações extremas!

Irene Harand é um exemplo de mulher, que com a força da palavra (era só disso que ela dispunha, não possuía exércitos, nem arsenal), com a clareza de valores e com extrema coragem, merece o devido e justo reconhecimento!

Por mais Irenes no mundo!

Feliz Dia da Mulher!

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