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Lidando com a burocracia francesa

Acho que antes de começar o post, preciso esclarecer uma coisa: a tal da burocracia francesa. Se você já foi à França e precisou resolver algum problema, ou conversou com alguém que mora aqui (francês ou não francês), com certeza, você já ouviu muito que a burocracia francesa é extremamente complicada! Depois que cheguei e comecei a conversar com as pessoas eu ria – para não chorar -, toda vez que alguém praticamente me desejava pêsames, depois que eu comentava que tinha um rendez-vous (reunião) marcado na Prefeitura. Mas, apesar de tudo o que eu ouvi, sinceramente, não imaginei que para tirar meu documento de residência a reunião seria tão tensa e complicada. Dando um spoiler – se você for ansiosa como eu – estou com meu documento em mãos!

Quando decidi mudar para a França, algo que pesou muito na minha decisão foi o fato do meu marido ter nacionalidade italiana.

Segundo o site do governo francês, existe uma modalidade de visto chamada “cônjuge de cidadão europeu” que, de acordo com o site, para ser solicitada são exigidos apenas alguns documentos: passaporte dos envolvidos, 3 fotos 3×4, certidão de casamento apostilada (uma espécie de reconhecimento para que ela seja válida no espaço Schengen), comprovante de endereço e solicitação feita dentro dos três primeiros meses em solo europeu.

Logo, munida de todas essas informações, fui à prefeitura marcar a famosa reunião e foi quando tive o primeiro “baque”: não quiseram marcar uma reunião, pois ele não tinha um contrato de trabalho! Fiquei surpresa porque era o oposto do que estava no site, mas como ainda estava dentro do tempo, retornei alguns dias depois e, para minha surpresa, novamente me disseram que deveríamos marcar duas reuniões separadas, em um “site” que a atendente anotou – abreviado e sem nenhuma referência a www ou http, e esperar a data que, para a minha surpresa, foi marcada para um mês e meio depois daquele dia.

Chegado o grande dia, a atendente não foi nem um pouco solícita ou aberta, simplesmente ignorou que eu solicitava o séjour (a residência) como esposa de europeu, desconsiderou os documentos que eu tinha em mãos e “decidiu” que meu visto e do meu esposo deveriam ser de estudantes e não de membros da comunidade europeia, inclusive dizendo que era um absurdo o fato do meu esposo não estar presente, sendo que havia sido orientação da outra atendente termos reuniões separadas.

Agora, imaginem: eu em um novo país, uma nova língua e uma mulher me tratando daquele jeito. Respirei fundo, mostrei o papel e tentei lhe explicar novamente a situação, mas ela estava irredutível e saiu da sala dizendo que iria conversar com a pessoa que meu marido estava agendado, para que ela já soubesse da situação e não nos desse o documento de residência e que, se quiséssemos, deveríamos entrar com o pedido de documento de estudante – que era em outro local, com outros formulários e outro tempo de espera.

Saí da sala completamente desnorteada (nessas horas, não importa se você é psicóloga, monja ou o que for, acho que todo mundo acaba se desestabilizando), encontrei meu marido e lhe contei a situação. E ficamos ainda mais preocupados, pois, a essa altura, o horário da reunião dele já tinha passado e o que pensamos foi que a atendente dele, simplesmente, havia cancelado o atendimento, pelo que tinha acontecido comigo.

Ficamos esperando uns 15, 20 minutos e, finalmente, ela o chamou e eu fui junto. Não foi surpresa nenhuma quando ela disse que já sabia da nossa situação e que não seria possível nos ajudar. Olhamos um para a cara do outro e meu marido precisou se impor, contando a ela toda a história. E, para nossa surpresa, ela nos disse: “Ah, vocês querem o visto de cidadão europeu e de cônjuge? Então claro que podemos fazer, me passe os documentos. Porém, precisarei falar com a minha chefe, para falar com minha colega, pois o nome da Júlia está no sistema dela”.

Ao mesmo tempo em que fiquei aliviada, fiquei enfurecida, pois vivenciei, mais uma vez na vida, que por ser mulher, ou jovem, ou brasileira, algo que eu estava falando poderia não ser verdade. Mas, no fim, a “chefe” conseguiu conversar com a atendente e eu saí de lá com o recibo de solicitação de primeira documentação.

Enfim, por que eu decidi escrever esse post? Simplesmente para falar mal da França? Definitivamente, não!

Uma coisa que pude perceber e que muitos franceses concordaram, é que na França existem muitas burocracias e que o padrão é não ter padrão. Pode parecer absurdo, mas a verdade é que podem pedir diferentes documentos para o mesmo procedimento e um atendente pode, simplesmente, encasquetar em fazer alguma coisa fora de um procedimento preestabelecido.

Tenho aprendido em meio a essas diferenças culturais é que é preciso ter paciência e não cair na tentação de soltar frases como: “No Brasil era mais fácil…”, “No Brasil não aconteceria esse tipo de coisa” ou frases no sentido de comparação das realidades.

Sabe, algo que eu acredito, e que todos devem desmistificar, é que país perfeito não existe! Cada país tem as suas facilidades e dificuldades e quando mudamos de país, acabamos decidindo por quais “tipos” de perrengues preferimos viver mais intensamente em nosso cotidiano. Um país é feito por pessoas que têm seus dias bons e ruins, são mais simpáticas ou mais brutas, e isso pode acontecer em todos os lugares!

Enquanto a França me traz certas dores de cabeça, o Brasil traria outras e se eu estivesse ainda na Suécia, teria outras tantas. Isso faz com que um seja necessariamente melhor do que eu outro? Ao meu ver, não! Uma coisa que sempre digo é que precisamos aprender a ver o diferente de forma neutra e não como bom ou ruim. Apesar de algumas coisas nos deixarem nervosas, é importante saber lidar com as situações de uma forma mais leve.

Se cada vez que passarmos por algum tipo de dificuldade acabarmos nos amargurando, acredito que vamos construindo uma cortina que nos impede de ver as outras coisas que temos de bom a nossa volta e podem nos fazer sorrir.

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3 comentários

Flávia Janeiro 15, 2018 at 8:17 pm

Oi Julia! Com esse documento é possível trabalhar legalmente?

Resposta
Júlia Lainetti Janeiro 20, 2018 at 6:20 pm

Oi Flávia! com o visto sim, com o pré visto – o recepisse – se for o primeiro pedido de documento na União europeia, não.

Resposta
Ana Paula Julho 17, 2018 at 6:47 pm

Oi.boa tarde
Tenho uma conhecida , que o filho mora na França, ele tem dupla cidadania. Ele mora lá a anos , trabalha, tem família e residência fixa. A minha conhecida tem 73 anos e quer ir morar com ele. Como devemos fazer ?

Resposta

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