A dor do luto longe de casa

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A dor do luto longe de casa

Um dos maiores medos para quem mora no exterior é perder um ente querido. Aquela sensação incômoda de não estar presente. De receber uma ligação no meio da noite, que pode ser só uma desatenção de seu irmão que não calculou o fuso horário, mas, que faz seu coração palpitar já pensando em algo mais sério. Atualmente, o susto também pode vir por mensagem com uma simples pergunta: você sabe o que aconteceu? Nos segundos seguintes já passam mil sensações pela cabeça que quase sempre nos deixam em ânsia momentânea, para depois nos relaxarmos sabendo que o que aconteceu foi simplesmente que o seu sobrinho ganhou um novo dentinho.

Acho que todos estes medos e inseguranças são criados justo pelo fato de não podermos estar presentes e compartilhar os pequenos momentos com as pessoas que amamos.  Assim, morando longe, o nosso subconsciente involuntariamente cria estas sensações de medo de perder as pessoas amadas. Sem dúvida, a perda de um ente querido é uma das sensações mais dolorosas que o ser humano enfrenta na vida. É uma experiência muito forte que inevitavelmente afeta todos os aspectos da vida, especialmente se não for processada de maneira correta.

Embora, às vezes, muitos pensam na morte de forma geral ou a perda de alguém, você nunca está realmente pronto para enfrentar um evento inesperado. Principalmente se a pessoa é muito ligada à nós, como uma mãe, um pai, um irmão. Infelizmente, muitos de nós já perdemos entes queridos e enfrentar esta situação, viver um luto, faz parte de um percurso da vida.

Então não dê muitos ouvidos a quem fala que o tempo cura qualquer dor, não è verdade! Por experiência própria, na maioria das vezes, você convive com a dor, mas não a supera totalmente. Use de todo o tempo necessário para superar a sua perda, algumas pessoas empregam mais tempo que outras para assimilar um luto. Não sinta-se em culpa se parecer que o seu luto é longo. A coisa importante é o que você sente. Em vez de controlar o impulso para superar tudo rapidamente, reprimindo o próprio estado de ânimo, chore, sinta raiva, você tem o direito de ficar triste! Não há limite para o luto. Com o tempo, naturalmente, a dor diminui, mas, a tristeza da perda permanece.

Dizem que chorar, é a melhor forma de exteriorizar a dor. Não contenha as suas lágrimas ou reprima as suas emoções. Permita-se de aceitar a fragilidade de um momento doloroso. Não se sinta culpado ou confuso, se você não é pessoa que chora e não consegue encontrar as lágrimas apesar da sua profunda tristeza. Cada um encontra a melhor forma de canalizar as próprias emoções. A ferida aberta de um luto, como todas as feridas, precisa de tempo, cuidado e dedicação para curar.

Deixe que o sofrimento e a dor saiam e se exprimam em todas as suas tonalidades. A dor precisa ser ouvida. Pegue uma pausa, uns dias descanso. A perda de um ente nos traz de volta a uma dimensão de fragilidade íntima. Se precisamos conversar com alguém, procurar um conselho espiritual, ficar um pouco em silêncio, faça! Não há caminhos certos ou errados, cada um tem seu próprio caminho de luto.

Não estou dizendo que a vida deve parar, mas, pelo ao menos se dê a oportunidade de entrar em contato com a dor. A morte é uma das experiências importantes da vida, como o nascimento, vale a pena ser vivida e aceitada. Se a ignoramos, poderíamos abrir a porta para um desconforto ainda maior.

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Não tenha medo de compartilhar os seus sentimentos. No meu caso, passar mais tempo com meus familiares e amigos me ajudou muito, mas pegar uma pausa e estar sozinho também é uma via escolhida por muitos. E alguns dias serão mais dificeis que outros. Inevitavelmente, as lembranças se farão presentes, seja por escutar o nome da pessoa que se foi ou até mesmo para doces recordações.

E para nós que vivemos longe de casa, estas dores são elevadas a uma infinita potência, porque além de não estar presente fisicamente, até o apoio psicológico entre parentes, amigos, vizinhos ficam mais complicados quando quilômetros e quilômetros nos separam. E o que nos resta? Aquilo que nos resta dos nossos entes queridos: fotos, fatos, cheiros, as boas lembranças. O nosso mundo interior é repleto destas imagens, é como um álbum fotográfico neural que preservamos as mais variadas lembranças da pessoa que não existe mais fisicamente.

Então, essas memórias continuam. Retornando e recordando como eram em vida. Os momentos de alegria; as experiências vividas com amor e afeto são o maior presente que podemos fazer em memória dos que se foram. Enfim, respeitar e aceitar o nosso próprio sofrimento dando espaço as nossas emoções nos ajuda a transformar a dor da perda em uma natural saudade de um ente querido que ficará sempre guardado no nosso coração.

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