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Machismo na sociedade costa-riquenha

Machismo na sociedade costa-riquenha.

Neste texto abordo brevemente um assunto mundialmente discutido que é o machismo.

Apesar de a Costa Rica ser considerada a Suíça das Américas, um país sem exército, com educação de alto nível, em pleno desenvolvimento social e econômico, encontramos e sentimos dificuldades em ser mulher.

Um pensamento bem típico de quando mudamos de país é: “Agora tudo vai ser diferente, os problemas acabaram”. Mas ainda que em magnitude bem menor que a encontrada em outros países, as mulheres na Costa Rica sofrem por conta do machismo, ouvem piadas e recebem olhares indecentes nas ruas, sofrem com a violência intrafamiliar, e, vivendo aqui, sinto isso na pele.

Os primeiros dias foram difíceis, estressantes, pois não conseguia entender como isso acontecia em um país socialmente desenvolvido, cheguei a me sentir reprimida por estar em um país distinto do meu e não poder colocar o dedo na cara daquele homem e mandar ele me respeitar e se respeitar!

Aqui existe a Lei de Penalização da Violência contra a Mulher (Ley de Penalización de la Violencia contra las Mujeres), criada em cumprimento à Convenção de Belém do Pará e aprovada em 12 de abril de 2007. O Ministério Público aponta que os cinco principais fatores que confrontam a Lei de Penalização da Violência contra a Mulher são: descumprimento de uma medida de proteção (30,23%), maus tratos (26,50%), ameaças contra a mulher (19,98%), ofensas à dignidade (9,86%) e violência emocional (8,55%).

Obviamente a violência contra a mulher não é um fenômeno exclusivo de uma região ou de um país específico, mas sim a manifestação de uma relação historicamente desigual entre homens e mulheres que afeta a metade da população mundial, em maior ou menor escala. A visualização em dados estatísticos sobre a violência contra a mulher nos mostra que 60% das mulheres já sofreram algum tipo de violência; 79,1% das mulheres recebem piadas e palavras insinuadoras em público; 12,2% das mulheres já foram forçadas a ter relações sexuais com um homem e 74,7% das mulheres receberam olhares provocantes e insinuadores em público. Algo interessante é que a violência contra a mulher foi qualificada pela Organização Mundial de Saúde como um “problema de saúde global equivalente a uma epidemia”.

No dia 30 de maio 2018 ocorreu uma reunião junto com a ONU para mostrar as estatísticas atualizadas das ocorrências da violência contra a mulher na Costa Rica. Seguem alguns dados que compreendem o período de 2012 – 2016: 34,8 de cada 100 mil mulheres denunciam casos de violência intrafamiliar; entre 2012 – 2016 120 mulheres foram mortas por feminicídio; por ano são entre 17 e 28 casos de mortes. Esses dados estatísticos tem relação com o modo como a mulher é vista dentro da sociedade, um olhar antiquado, arcaico, que a vê somente como um corpo, como objeto, e não como um ser humano por completo.

Leia também: Ser mulher na Costa Rica

Para combater todas as formas de violência contra a mulher, a Costa Rica conta com vários projetos de educação social, entre eles se destaca o mais recente projeto promovido pelo INAMU (Instituto Nacional das Mulheres) que se trata da Nova Política Nacional para a Atenção e Prevenção da Violência contra a Mulher com vigência de 15 anos (2017-2032). O INAMU tem como objetivo principal propiciar uma mudança na cultura machista, promover igualdade entre os gêneros e paralelamente reduzir os níveis de impunidade, garantindo maior proteção à mulher e previnindo o feminicídio. O foco dessa nova politica é trabalhar com a população infanto-juvenil para promover a mudança cultural e chegar ao nível zero de tolerância à violência contra a mulher.

A desigualdade de gêneros também se mostra no que diz respeito à inserção da mulher costa-riquense no mercado de trabalho. O mercado está composto, em média, por 40% de mulheres. Um número muito baixo já que as mesmas têm um nível de formação completa maior que os homens, cerca de 46,6%. Quanto à desigualdade salarial a depender do seu setor de trabalho e cargo essa diferença pode chegar a 26,6% a menos do que o salário do homem no mesmo setor e função.

O Instituto Nacional da Mulher traz alguns dados relevantes que mostram o desenvolvimento das políticas de apoio à inserção da mulher no mercado laboral, entre eles está o programa FOMUJERES – empreendedorismo da mulher na sociedade, que conseguiu ajudar diretamente 4.070 mulheres com o investimento de 56 milhões de colónes (aproximadamente 112 milhões de dólares).

Dentre estes programas e incentivos às mulheres, foi possível acompanhar o desenvolvimento de 996 micro e pequenas empresas lideradas por mulheres com um investimento de 4 milhões de euros em cooperação com a União Europeia, através do programa Mulher Empreende (Proyecto Emprende).

Leia também: Dificuldades durante a adaptação na Costa Rica

Mesmo com o machismo vivenciado aqui na Costa Rica e em outros países, é inegável que no dia a dia vemos muitas mulheres trabalhando em diversos setores como mercados, bancos, restaurantes, espaços terapêuticos, academias, afirmando cada vez mais o seu lugar na sociedade.

Segue alguns sites institucionais e privados que utilizei como base para este artigo e que podem ser acessados para mais informações ou dúvidas:

Observatório de Gênero

Poder Judicial Costa Rica

La Prensa Libre – Jornal

El Mundo – Jornal

Site do Governo da Costa Rica

Facebook do INAMU

Depois de um mês vivendo na Praia Tamarindo – praia muito movimentada e turística da Costa Rica – posso dizer que o susto dos primeiros dias passou, me sinto segura para andar sozinha, já não sinto mais os olhares nem piadas na rua, aos poucos nos adaptamos à nova cultura local.

Precisamos, dia após dia, reafirmar nossa posição na sociedade, lutar por nossos direitos e jamais desistir de sermos mulheres inteiras e completas neste mundo ainda imerso na escuridão do olhar machista.

PURA VIDA!

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