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Dinamarca

Meus primeiros três anos na Dinamarca

Meus primeiros três anos na Dinamarca

No intuito de combater o frio de um inverno rigoroso, um grupo de porcos-espinhos decide
juntar-se para ficar mais aquecido. Porém, ao mesmo tempo em que produzem calor estando em contato direto uns com os outros, acabam se ferindo mutuamente, por conta de seus espinhos.

Este conto é apresentado por Schopenhauer como o dilema do porco-espinho, uma metáfora sobre a dificuldade e os desafios subjacentes às relações de intimidade humana. Para os mais pessimistas, muita proximidade e intimidade significa necessariamente a invasão de um espaço sagrado, mas há quem diga que ‘a felicidade só é real quando compartilhada’, e para estes, vale a pena enfrentar os espinhos.

Foi esta pequena narrativa que tomou conta dos meus pensamentos logo que soube que viria morar na Dinamarca, não muito pelos porcos-espinhos, e sim por causa do inverno rigoroso e o pesado estereótipo ‘frio’ dos países nórdicos.

Como seriam as relações na Escandinávia? Como mãe, pensei: e as crianças, que adultos se tornariam convivendo num ambiente tão diferente do nosso?

Três anos depois e a metáfora segue me tirando o sono. Verdade que viver na Dinamarca é
muito diferente de viver no Brasil. Sair do Rio de Janeiro, em fevereiro, trocando o Flamengo e o Carnaval pela neve e a escuridão não foi das escolhas mais fáceis que a vida me ofereceu, mas tampouco foi das mais difíceis.

Em primeiro lugar, precisei entender que proximidade e distância são conceitos diferentes por aqui, mas não é nada tão grave. Não significa que você não possa ter amigos próximos, íntimos, que te deem um abraço quando você precisa e que se abram com você. Significa talvez que o aperto de mão é preterido em relação aos dois beijinhos, que seus filhos vão ser levemente mais afetivos, principalmente logo que voltam de férias no Brasil.

Minha intenção aqui é fugir um pouco desse estereótipo do povo frio e distante e mostrar que calor humano tem mais a ver com contexto e individualidade.

Uma rápida pesquisa sobre os dinamarqueses vai te fazer cair nessa figura seca e dura, mas vai te deixar por fora do que te conto agora: todos sabem que a Dinamarca é um país rico e caro, mas sabendo disso poucos se perguntam sobre a situação financeira do dinamarquês. O dinamarquês não é um povo rico e sua relação com dinheiro é muito diferente da nossa. Comprar o último modelo de celular e o maior carro do mercado não é prática comum.

Depois de algum tempo morando na Dinamarca, me chama a atenção a quantidade de opções de troca, empréstimo, segunda mão etc. Você pode ter uma casa funcional, com bons móveis comprados na Cruz Vermelha, sem gastar muito dinheiro. Roupas de criança usadas, baratas e em ótimo estado você compra em qualquer esquina, ou no reshopper, pelo seu telefone.

Muitos restaurantes oferecem algum método de food sharing (compartilhamento de comida). E mais importante do que todas essas opções é a forma tão natural como elas são
aproveitadas pela população. Ninguém acha ruim comprar roupas usadas, pegar uma mesa
que foi jogada fora por outra pessoa, ninguém vai te julgar por isso.

Sem querer ser Polyana, me parece que reina uma certa solidariedade muito natural, menos consumista, acumulativa e sem esbanjamento, em tudo. Vai da quantidade de fotos que é impressa na ultrassonografia de seu bebê (só tive uma!), do número de exames que você tem direito, ao supermercado que vende mais barato produtos que estão próximos da sua data de vencimento.

Como brasileira, classe média, é natural desconfiar um pouco desse discurso, e é levemente conflituoso abrir mão de um esbanjamento que talvez nem você mesma percebesse como exagero.

Leia também: planejamento para morar na Dinamarca

Claro que estamos falando aqui de serviços públicos versus serviços privados, no caso dos exames, por exemplo, mas de qualquer forma, é uma diferença que você sente no
seu dia-a-dia.

Como tudo na vida, quem ajuda é o tempo. Com ele, você entende, critica e mais para frente percebe que a diferença é inevitável. O julgamento é um passo para trás e o ajuste só vai te fazer bem.

Nosso contexto é outro, nada mais natural que nossa história escravocrata, colonização de exploração e mão de obra barata gerassem uma classe média tão diferente da
dinamarquesa.

E é nesta diferença que você conhece também a proximidade do dinamarquês e entende que não se trata, necessariamente, de abraços e beijos. Pelo contrário, você percebe que aqui se faz muito pelo outro, em nome do todo e isso te dá conforto e acolhimento e uma gostosa sensação de proximidade.

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2 comentários

Daniela S. A. Madsen Março 4, 2018 at 9:40 am

Lindo texto, analogia perfeita dos porcos espinhos, Shopenhauer ainda que duvidosamente, contrinua a ser um dos meus preferidos. E tu mãe guerreira, vai conseguir sim desenrolar essa língua de gato.
Obrigada pelo texto.

Resposta
Letícia Stallone Março 6, 2018 at 9:32 am

Obrigada pela leitura e pelo carinho!

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