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Minha vida nômade e a arte de se adaptar

Minha vida nômade e a arte de se adaptar.

Desde 2009 eu trabalho no Ministério das Relações Exteriores, o famoso Itamaraty. Até terminar a faculdade em Uberaba, em 2007, eu nunca tinha entrado em um avião na minha vida. Um ano depois, eu me vi aprovada em um concurso público e minha vida mudando completamente.

Em 7 anos no Itamaraty eu fui enviada em 3 missões de abertura de embaixadas: St. John’s (Antigua e Barbuda – Caribe), Roseau (Dominica – Caribe) e Sarajevo (Bósnia e Herzegovina) e 3 missões permanentes: em 2011 fui removida para Ierevan (Armênia), em 2012 para Nairóbi (Quênia) e, depois de 3 anos, fui removida para Moscou (Rússia), onde pretendo ficar por, pelo menos, 3 anos.

Sete anos, seis embaixadas, vinte e oito países na minha lista. Para aquela menina do interior de Minas que, até os 23 anos, nunca havia viajado de avião, eu tenho me saído muito bem na questão “pelo mundo”. Muitos me perguntam: “como é essa vida?” e eu só posso responder que é muito peculiar, é diferente de tudo, é diferente da realidade de qualquer um que não seja funcionário do Itamaraty. Nesse serviço, podemos ficar, no máximo, 5 anos em cada país, o que nos obriga a estar sempre de mudança.

 

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28 países em 7 anos

Em primeiro lugar, não é fácil. Para levar uma vida de serviço exterior, é preciso ter o perfil certo. Nem todos que entram na carreira conseguem lidar com todas as suas peculiaridades. Não é só gostar de viajar. É aguentar assumir missões pesadas sozinho, em um país totalmente desconhecido. É entrar em um avião pela primeira vez na sua vida, como eu fiz em 2009, e chegar em uma ilha minúscula no Caribe para dar, sozinha, os primeiros passos de abertura de uma representação do Brasil.

Não é apenas morar em vários lugares. É sujeitar-se a mudar toda a sua vida a cada 5 anos (no máximo) para uma cidade onde muitas vezes você não consegue se comunicar, onde tudo é escrito em um alfabeto que você nunca tinha visto antes, onde faz calor ou frio demais, onde há violência, onde há guerra e, quase sempre, muita diferença cultural. É aprender a respeitar o lugar onde você está, o povo ao seu redor. Eu não tenho o direito de chegar no país de outra pessoa e querer impor meu pensamento e o meu modo de vida, por mais que eu acredite que seja o certo. E, me mudando o tempo todo, eu me torno uma pessoa muito mais tolerante com o outro, eu me torno uma pessoa muito mais aberta à toda a variedade cultural que há no mundo.

 

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Alfabetos armênio (esquerda) e cirílico (direita): aprendi a ler os dois sozinha

Servir meu país no exterior não é ter uma vida glamourosa, como muitos pensam. É trabalhar muito pelo meu país e pelo meu povo aqui fora. É ajudar os brasileiros que precisam de apoio longe de casa, é facilitar o acesso deles aos seus direitos enquanto cidadãos, é ajudar, de longe, no progresso do meu país.

Morar no exterior é fazer um milhão de amigos pelos quatro cantos do mundo. Conhecer pessoas incríveis, adotar novas e diferentes famílias para a sua própria família em vários lugares. Mas também é ter que saber dizer até logo (nunca adeus). Porque nos poucos anos que passo em cada país, eu vejo muitos amigos virem e irem embora, até que chega a minha vez. E não é fácil se despedir o tempo todo. Eu sou uma pessoa muito apegada aos outros e muito sensível, eu sofro com as idas de todos os dias. Mas eu aprendi que o mundo pode ser muito pequeno. Que não importa quantas despedidas, eu sempre posso reencontrar as pessoas que eu amo. Nada é definitivo, nada é impossível. Hoje eu estou aqui, amanhã posso estar do outro lado do mundo. Hoje eu estou longe, mas amanhã posso estar muito perto de algo ou de alguém especial.

Ao mesmo tempo eu aprendi a manter contato com todos que realmente fazem a diferença e que não estão fisicamente por perto. Eu procuro sempre falar com meus amigos e família, não importa onde estejam. Então, viver essa vida cigana também é saber se lembrar sempre de cada um que nós amamos e dar pelo menos cinco minutos de atenção para eles, não importa se por mensagem, ligação, e-mail, carta, mas saber sempre estar lá de alguma forma.

Morar de país em país também é aprender a ser prática. Não dá para fazer uma mudança a cada 3 anos sem saber se virar bem. Abrir contas, comprar coisas, arrumar casa. Três anos depois fechar contas, vender coisas, empacotar a casa inteira e mandar para outro país. Tudo que parecia impossível de repente é corriqueiro e eu tiro de letra. Eu desembalo e embalo minha casa facilmente em 1 semana. Eu encaixo meus móveis em apartamentos diferentes e o mais interessante é perceber que as mesmas coisas podem ter uma cara totalmente diferente de casa para casa.

A conclusão a que eu chego é que a vida de se mudar a cada três, cinco anos não é nem um pouco simples. Saber se adaptar não é para qualquer um. De tempos em tempos ter que mudar completamente, trabalhar em um novo lugar, fazer novos amigos, deixar pessoas para trás, pode ser muito complicado se você não tiver o perfil certo. Mas se tiver, é uma vida encantadora e vale a pena cada passo dado.

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9 comentários

Maria De Fatima Meireles Janeiro 12, 2016 at 9:12 pm

Amei a retrospectiva de vida. Feliz é minha filha que pode carregar a mãe !!!….rsrsrs

Resposta
Renata Rossi Janeiro 23, 2016 at 8:13 pm

Que bom que gostou, Maria de Fatima! Obrigada! Eu também carrego a minha mãe, ela mora comigo desde que fui para o Quênia… E adora! Abraços!

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Renata Salas Collazo Janeiro 14, 2016 at 4:24 am

Renata, minha xará, bem vinda ao BPM!!!! Acho sua carreira linda, que orgulho poder representar o nosso país por esse mundo a fora. Muito verdadeiro também seu texto, não e fácil mesmo essa vida itinerante…Muito sucesso para você e na sua nova missão.Bjs

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Renata Rossi Janeiro 23, 2016 at 8:18 pm

Querida xará, obrigada! Tem sido um prazer escrever para o BPM! Eu sou uma apaixonada pela minha carreira, não troco por nada. E é muito bom poder dividir as impressões com vocês. Obrigada pelos votos, que eu possa continuar fazendo um bom trabalho por todos nós! Beijos!

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Júlia Abreu de Souza Janeiro 15, 2016 at 12:09 am

Interessante o texto,suas impressões ejeito deencarar esta v ida.

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Renata Rossi Janeiro 23, 2016 at 8:19 pm

Obrigada, Júlia! Abraços!

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Amanda de Souza Fevereiro 15, 2016 at 11:52 pm

Renata, adorei seu texto! Desculpa perguntar, mas qual é o ser cargo no Itamaraty? Você entrou na diplomacia? Abraços!

Resposta
Renata Rossi Março 3, 2016 at 2:51 pm

Olá, Amanda! Obrigada, que bom que gostou! Sou Assistente de Chancelaria, que é uma carreira administrativa do MRE, também concursada. Abraços!

Resposta
Naide Gazeto Novembro 20, 2018 at 1:45 am

Renata,
Que história linda… superação, conhecimento e amor pela vida e respeito ao ser humano.
Que Deus te abençoe grandemente!

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