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Moinhos de vento de Dom Quixote

Moinhos de vento de Dom Quixote.

Hoje vou contar sobre a minha visita aos moinhos de vento de Dom Quixote, no Campo da Criptana, Castilla la Mancha. A região fica relativamente perto de Madrid e vale a pena você colocar no seu roteiro de viagem.

Foi incrível conhecer esse campo de moinhos, o cenário original que inspirou Cervantes a escrever a cena mítica onde Dom Quixote lutava contra os moinhos de vento pensando que esses eram gigantes.

Dom Quixote – Cap. VII

“Quando nisto iam, descobriram trinta ou quarenta moinhos de vento, que há naquele campo. Assim que Dom Quixote os viu, disse para o escudeiro:

— A aventura vai encaminhando os nossos negócios melhor do que o soubemos desejar; porque, vês ali, amigo Sancho Pança, onde se descobrem trinta ou mais desaforados gigantes, com quem penso fazer batalha…

— Olhe bem Vossa Mercê — disse o escudeiro — que aquilo não são gigantes, são moinhos de vento; e os que parecem braços não são senão as velas, que tocadas do vento fazem trabalhar as mós…”

“Não fujais, covardes e vis criaturas; é um só cavaleiro o que vos investe. Levantou-se neste comenos um pouco de vento, e começaram as velas a mover-se; vendo isto Dom Quixote, disse: ‘Ainda que movais mais braços do que os do gigante Briareu, heis-de mo pagar’.

E dizendo isto, encomendando-se de todo o coração à sua senhora Dulcinéia, pedindo-lhe que, em tamanho transe o socorresse, bem coberto da sua rodela, com a lança em riste, arremeteu a todo o galope do Rocinante, e se aviou contra o primeiro moinho que estava diante, e dando-lhe uma lançada na vela, o vento a volveu com tanta fúria, que fez a lança em pedaços, levando desastradamente cavalo e cavaleiro, que foi rodando miseravelmente pelo campo fora…”

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Quixotesco

Essa passagem do livro deu origem ao termo “quixotesco” na literatura e psicologia, como definição de quem luta contra inimigos imaginários, ou ainda de pessoas tão idealistas a ponto de perder a razão. Enfim, uma passagem que rendeu muita análise, aprofundamento e interpretações desde 1605 até os dias atuais.

Para este mesmo trecho do livro, também é possível a interpretação do seu teor de crítica social, pois cabe aí a metáfora de sua luta contra os gigantes, uma vez que os moinhos eram como as fábricas e indústrias daquele tempo. Ou seja, os moinhos eram os meios de produção da época que ficava no comando de alguns poucos e que todo o restante da população dependia deles de alguma maneira para viver. Inclusive, Cervantes cita mais de uma vez no mesmo livro a extrema pobreza e miséria do povo daquele entorno.

Dom Quixote é o livro com o maior número de traduções depois da bíblia, e é referência em literatura não só espanhola, como mundial. Cervantes é um dos maiores orgulhos literário e artístico do povo espanhol.

A origem dos moinhos

Em meados do século XVI, a península sofreu uma grave seca e, como alternativa aos moinhos de água que até aquele momento eram utilizados tradicionalmente para moer o trigo, foram criados os moinhos mediterrâneos que utilizam a força dos ventos.

Suas hastes gigantes e suas velas são manejadas pelo moleiro de maneira a melhor aproveitar a força do vento. O moleiro é como um velejador e, necessariamente, é um profundo conhecedor de cada vento da região. A importância dos ventos é tamanha que, no alto do moinho, cada janela vem sinalizada com a direção e o nome do vento para facilitar o manejamento rápido das velas.

Moinhos de vento em Consuegra. Arquivo pessoal.

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A rota dos moinhos

Cada moinho possui um nome, sempre com referências a algum personagem ou cena da obra Dom Quixote, e três deles ainda possuem estrutura e maquinário original. Porém, no Campo da Criptana,  que é o cenário histórico do Dom Quixote, você poderá avistá-los somente de fora. Mais informações aqui.

Se você quiser entrar para vê-los por dentro, é possível visitar outros moinhos próximos, que fazem parte da conhecida rota dos moinhos. Um  bom exemplo é o Molino Rucio, que está em funcionamento e fica aberto a visitas todo o ano. Ali, você entra no moinho, sobe por suas escadas, e pode acompanhar como funciona todo o processo de moagem, pode ver a janelas com as sinalizações dos ventos, ver as hastes e as velas rodando, além de apreciar as paisagens privilegiadas de todo o entorno.

Uma dica interessante para a sua experiência ser completa,  procure ir em um dia de vento para poder ver os moinhos girarem. E se você der sorte, em alguns dias tem apresentações teatralizadas gratuitas de Dom Quixote e seu amigo e fiel escudeiro Sancho Pança. Ademais, tem também, dentro de um moinho, as lojinhas de souvenir para você levar uma recordação do dia. Mais informações sobre o Molino Rucio aqui.

Ao lado fica o Gastromolino, o único restaurante do mundo localizado dentro de um moinho de vento! Quando visitei, o restaurante estava fechado naquele horário, mas acredito que deve ser uma experiência divertida comer dentro de um moinho. Além disso, durante o verão eles fazem shows ao entardecer em meio aos moinhos.

A terra do açafrão

Essa região também é a terra de um dos melhores açafrões da Espanha. E como a Espanha possui um dos melhores açafrões do mundo, consequentemente, essa é a terra de um dos melhores açafrões do mundo – uma verdadeira iguaria espanhola, usada como um tempero delicado e de sabor único e contundente! O açafrão é meu condimento espanhol preferido, especialmente quando utilizado em uma bela paella ou para acompanhar frutos do mar.

Se sua visita for em meados de outubro, além dos moinhos de vento de Dom Quixote, você pode aproveitar para conhecer os campos de açafrão e participar da festa da colheita. Os campos ficam lindos floridos, e a cidade celebra com muitas programações culturais além de, é claro, gastronômicas.

Para mim, estar nesses campos e conhecer a rota dos moinhos foi um passeio superespecial por dois motivos. No tempo de faculdade, eu tinha um projeto com meu melhor amigo de escrevermos um livro onde o personagem principal era totalmente quixotesco! E também foi um passeio muito romântico, pois quando conheci meu marido, que é filho e neto de espanhóis, há dez anos, ele me chamava de Dulci (de Dulcinéia) e eu o chamava de Dom (do Dom Quixote) são os nossos apelidos carinhosos.

Dom Quixote sempre presente na minha vida!

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3 comentários

Glauber Setembro 5, 2019 at 9:17 pm

Olá Camile, como sempre seus textos são excelentes e este não foi diferente. Adorei a descrição e os detalhes sobre os Moinhos, onde você soube decifrar com maestria o livro de Cervantes, saindo do senso comum, como uma verdadeira Cientista Social. Lendo os seus textos da muita vontade de conhecer a Espanha e tudo que esta oferece. A aventura da vida e do conhecimento é o compromisso ético e poético da liberdade do ser.

Glauber

Resposta
Glauber Setembro 5, 2019 at 9:18 pm

Olá Camile, como sempre seus textos são excelentes e este não foi diferente. Adorei a descrição e os detalhes sobre os Moinhos, onde você soube decifrar com maestria o livro de Cervantes, saindo do senso comum, como uma verdadeira Cientista Social. Lendo os seus textos da muita vontade de conhecer a Espanha e tudo que esta oferece. A aventura da vida e do conhecimento é o compromisso ético e poético da liberdade do ser.
Glauber!!!

Resposta
Camile Wyatt Setembro 6, 2019 at 12:28 pm

Glau meu amigo querido, muito obrigada por cada palavra! Fico muito feliz em saber que você gosta e acompanha meus textos, isso me motiva a continuar sempre escrevendo! meu abraço, Camile.

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