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O corpo feminino no dia-a-dia e na arte: minha experiência na Dinamarca

O corpo feminino no dia-a-dia e na arte: minha experiência na Dinamarca

Trato aqui da minha própria experiência e reflexão, portanto, a voz deste texto é a de quem andou um pouco pelo mundo, mas que esteve sempre presa numa relação brasileira, mais especificamente carioca, com seu próprio corpo.

No meu aniversário de 40 anos, fazendo 3 de Dinamarca, decidi levar meus filhos à piscina pública. A ideia era sair da rotina, faltar aula e trabalho e curtir um dia ‘tropical’, no meio de fevereiro, fazendo 0 grau lá fora.

Todo programa com duas crianças dá trabalho. Uma língua troncha, casacos, troca de roupa, ônibus, bicicleta e a necessidade de entender a dinâmica do evento. Deu trabalho. Mas de todo o evento, o mais engraçado, surpreendente e divertido foi ver tanta bunda e peito livre e balançando, sem véu, sem mãozinha na frente, absolutamente natural e à vontade, no vestiário pré-piscina.

Descobrimos de cara que antes de poder entrar na piscina era obrigatório tomar um banho pelado, num vestiário cheio de chuveiro, um ao lado do outro, sem portas.

Leia também: A cultura do corpo livre na Alemanha

Meu filho tem 5 anos, mora aqui há 3 e embora ele fosse o único ser ali naquele espaço com uma anatomia diferente dos demais, pareceu bem mais à vontade do que eu. Tirou a roupa toda, guardou no armário, entrou no chuveiro e passou o sabão, me explicando inclusive que aquilo era um ‘procedimento’ para matar as bactérias e não levar elas pra dentro da piscina.

Minha filha de 2 só queria sair dali para entrar na água. E eu? Eu demorei. Primeiro fiquei querendo entender por que tirar a roupa, por que não tomar a ducha de maiô, o maiô não ia para piscina também? Não carregaria as bactérias?

Em seguida, comecei a observar aquela naturalidade, eram mulheres velhas, com peitos e bundas caídas, pele branca e mole, sem marcas de biquíni, com cicatrizes, mas a naturalidade com que se moviam dava a elas uma certa beleza que só aparece naquelas relações de absoluta confiança. Isso me chamou a atenção. Mais tarde me chamou a atenção também porque que pra mim a coisa não era assim tão natural, mas não entro nesse mérito porque o texto é também sobre arte e quero chegar lá.

Passada a experiência da piscina, comecei a pensar que já tinha visto outros momentos em que a mulher dinamarquesa coexistia no seu próprio corpo e que inclusive usava o corpo não num processo exibicionista, mas como ferramenta de comunicação.

Li algumas coisas que me ajudaram a entender que eu não estava só, principalmente os depoimentos colhidos pela Cristiane, de brasileiras que vivem por aqui. Entendi que quase todas nós, brasileiras na Dinamarca, percebemos que a relação com o corpo, o cabelo e a aparência, de um modo geral, é diferente do que conhecemos no Brasil. Valeu ler também sobre o Ligestilling, essa tal de equidade de direitos e deveres entre homens e mulheres.

Segui pesquisando e voltei ao pós-guerra e ao expressionismo alemão onde a vanguarda europeia começava a se distanciar daquele movimento de observar e retratar a realidade, buscando uma arte mais pessoal, primitiva e intuitiva. Acontecia também entre artistas dinamarqueses um movimento de volta à expressão natural, que buscava uma conexão com a natureza.

O CoBrA, com artistas de Copenhagen, Bruxelas e Amsterdã, foi além do surrealismo e o seu interesse pelo subconsciente, transformando a expressão automática e descontrolada num gesto impulsivo e natural, sem as amarras das convenções sociais. Inspirados na arte das crianças e dos doentes mentais, chamadas de ‘criações não civilizadas’, suas telas coloridas tinham uma forte voz política, sensível à devastação das cidades europeias depois da Segunda Guerra.

Não há, na superfície, nada que relacione o CoBrA ao corpo feminino da mulher dinamarquesa, especificamente, mas gosto de pensar que está nas raízes deste movimento e de outros da mesma época, esta percepção que tive olhando as dinamarquesas na piscina. Ali também parecia haver uma naturalidade quase primitiva do convívio com o próprio corpo, mais perto da criação dos doentes mentais e das crianças do que dos avanços do Photoshop e da tecnologia.

Pensei também nos anos 60, no auge dos movimentos feministas, quando a arte começa a dar mais espaço às mulheres e à cultura popular. Especificamente, no dia 29 de maio de 1969, às 3 da tarde, uma mulher nua, carregando uma cruz, atravessa o hall da bolsa de valores de Copenhagen, como se uma encarnação feminina de Cristo confrontasse os sagrados salões do capitalismo, dominados pelos homens. Foi uma performance que durou poucos minutos, logo em seguida Lene Adler Pedersen entrou dentro de um táxi e desapareceu, mas deixou uma importante marca na história da arte feminina na Dinamarca.

Hoje vejo essa naturalidade com o corpo nas artistas dinamarquesas contemporâneas como Katja Bjørn e Nanna Lysholt Hansen. Katja Bjørn tem um trabalho em que faz xixi na neve e, embora à primeira vista possa parecer estranho para nós mulheres brasileiras, é bonito por causa da espontaneidade, primitiva e verdadeira – afinal todo mundo faz xixi!

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2 comentários

Simone Maria Abril 17, 2018 at 6:35 am

Letícia, obrigada pelo texto. Após 2 anos morando aqui fui pela primeira vez à piscina pública e devo confessar que não foi nada fácil pra mim, carioca, 49 anos…me desnudar. Me vesti com tanta pressa, ainda estranhando tanta nudeza que esqueci meus chinelos e não voltei para buscar, rsrs. Pretendo voltar um dia (não para buscar os chinelos), mas até lá preciso “trabalhar melhor”, essa naturalidade dinamarquesa que é ainda tão difícil para mim.

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Letícia Stallone Abril 22, 2018 at 4:52 pm

Adorei ler seu comentário, acho que sentimos o mesmo desconforto… ainda não voltei, mas tô ‘trabalhando melhor’ e volto em breve! Obrigada pelo comentário 🙂

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