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Espanha

Os caminhos que me levaram à Terra de Cervantes

Em 2005, quando estive em Barcelona pela primeira vez, ao me despedir da cidade de Gaudí, lembro-me de ter pensado: um dia vou viver nessa cidade.

Já se dizia que temos que ter cuidado com o que pedimos porque eles podem se realizar e acredito ser verdade. A partir daquele momento, todas as coisas que ocorreram em minha vida acabaram por me levar à Espanha mesmo que, inicialmente, não pudesse ver a luz no final do túnel.

A vida tem a sua forma de cuidar das coisas. Sei que soa bastante fatalista e há pessoas que podem não concordar comigo, mas acho que uma vez que tomamos uma decisão, aparecem coisas em nossos caminhos que nos preparam e nos ajudam a conquistar aquilo que desejamos, desde não seja algo ruim para si mesmo ou à outra pessoa. Ou talvez seja simplesmente destino. O fato é que quando olho para o que aconteceu na minha vida desde 2007 até o momento, não posso deixar de indagar o quão profética foi aquela frase, pensada junto à Barceloneta: “Um dia vou viver nessa cidade”.

Como já contei, fui à Irlanda em 2007. De lá, fui às Filipinas porque, em 2010, sentia que precisava crescer profissionalmente e, para isso, precisava de experiência em uma multinacional. Só que aquele foi o ano que a grande crise econômica atingiu a Eurozona em cheio e a Irlanda foi um dos primeiros países – para não dizer o primeiro – a pedir o resgate econômico: a bolha imobiliária, que havia estourado em meados de 2007, levou ao colapso da economia e em novembro de 2010, o governo pediu o resgate econômico ao FMI e à União Europeia. Naquela época, com um índice de desemprego de aproximadamente 14%, não havia empregos nem para nacionais nem para estrangeiros, mesmo para aqueles que possuíssem visto para trabalhar em tempo integral.

Coloquei meu CV em vários sites em busca de emprego e, incessantemente, aplicava para um posto após o outro até o dia que me ligaram perguntando se estava interessava em uma vaga nas Filipinas. Após uma enxurrada de entrevistas, uma das quais em espanhol que, até aquele momento, era apenas um portunhol meia-boca, recebi a oferta e parti para as Ilhas de Lost.

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Skyline de Ortigas, em Metro Manila, da janela do meu primeiro apartamento no país

Nunca havia estudado o espanhol e, embora pudesse caminhar pelas ruas espanholas e me virar, o portunhol que conhecia só era suficiente para que os espanhóis sorrissem enquanto tentava me comunicar enquanto pensavam “que gracinha essa aí, tentando falar o castelhano…”. O projeto para o qual havia sido designada, no entanto, era em Barcelona e o meu trabalho consistia em ser parte da equipe que faria a transição do departamento financeiro da parte ibérica de uma companhia multinacional a um BPO em Manila. Em outras palavras, iria a Barcelona como parte de uma equipe que “roubaria” postos de trabalho de profissionais espanhóis justo na época em que a crise econômica europeia começava.

Fui obrigada a aprender o espanhol para que pudesse me comunicar na empresa. Ainda que o projeto não tenha sido fácil e tenha enfrentado muitas caras feias a princípio, perseverei e não somente aprendi o que tinha que ser feito com maestria como também aprendi um idioma novo em apenas três meses. E, embora o espanhol pareça fácil, há muitos falsos amigos como comentamos no texto O Portunhol Nosso de Cada Dia, a conjugação verbal é tão complicada quanto a do português e a formação de frases é diferente daquela que utilizamos no Brasil.

Naquele momento também conheci o meu marido que é espanhol: fazíamos parte do mesmo projeto de transição e ele havia se tornado também meu companheiro de apartamento, já que passamos a dividir casa.

Passei seis ou sete meses em Barcelona – período que se caracteriza morar, acredito. Pouco a pouco as coisas melhoravam e se encaixavam. Aprendi o espanhol em três meses e no tempo restante o melhorei. Embora o projeto fosse psicologicamente complicado, fizemos amigos na companhia e sempre saíamos juntos para tomar uma cerveja no final de um dia duro de trabalho ou mesmo no final de semana.

Após esse tempo, ainda que quisesse ficar, tinha que partir; afinal tinha assinado um contrato com uma empresa nas Filipinas e era lá que deveria estar alocada. Então, com dor no coração, parti para a Ilha de Lost onde passei quase cinco anos.

No final de 2014, percebi que meu tempo nas Filipinas se esgotava. Nunca fui para lá com a intenção de viver naquele país o resto da minha vida; era apenas um degrau na minha carreira, que, desde que saí do Brasil, se enfocava em finanças. E após quatro anos vivendo em um ambiente que me proporcionou muitos desafios e muito crescimento, decidi que era hora de seguir em frente: naqueles quase cinco anos, adquiri experiência em duas multinacionais, cresci profissionalmente, aprendi a lidar com pessoas de diversas nacionalidades e aprendi um novo idioma, o espanhol.

Agora, pouco a pouco as coisas começam a se encaixar nessa nova vida que escolhi. Amo a Espanha, a sua cultura, a sua comida e o seu povo e, por isso e outros motivos, tenho a intenção de ficar aqui pelos próximos anos – ou décadas – de minha vida. Mas, mesmo amando o país e me sentindo em casa, também sei que haverá dias em que vou reclamar porque sou assim e também porque sempre há dias nublados em que tudo simplesmente dá errado… O importante é viver um dia após o outro.

Embora eu tenha deixado as Filipinas, uma parte da ilha de Lost sempre ficará em mim. Então, não apenas escreverei sobre as minhas impressões sobre o país de Cervantes, mas acredito que seguirei escrevendo um pouco sobre a terra cujo nome é uma homenagem ao rei espanhol Felipe II…

Pelo momento, hasta pronto, guapis!

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4 comentários

Édima Setembro 24, 2015 at 6:24 pm

Eu gostei muito do seu texto. Serviu para minha reflexão sobre o que estou prestes a viver fora do Brasil. Obrigada pelo texto!

Resposta
Tati Sato Setembro 27, 2015 at 3:03 pm

Oi Édima, obrigada pelo comentário! Desejo tudo de bom nessa sua nova jornada… E, correndo o risco de soar brega, como escreveu o grande poeta ernando Pessoa sobre o desbravamento dos mares pelos portugueses:
“Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.”

Resposta
Carla Ferreira Novembro 22, 2015 at 4:35 am

Adorei o seu relato Tati! Muito sucesso nessa nova fase. Beijo grande 🙂

Resposta
Tati Sato Março 3, 2016 at 11:29 pm

Carla, desculpa a demora em responder a sua mensagem! Muito obrigada, sua linda! Beijos!

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