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Os desafios de ser mulher no Brasil e Estados Unidos

Sou apaixonada pelas mulheres. Aliás, sou apaixonada pelos seres humanos, mas acho que as mulheres são a obra-prima da criação. Quem além de nós consegue executar 150 tarefas ao mesmo tempo, e ainda passando batom?

Mulheres são pilotos, escritoras, cozinheiras, balconistas, médicas, frentistas, presidentes, cientistas, domésticas e quase sempre, somado a isso, donas de casa e mães. Ou são exclusivamente mães e donas de casa, o que convenhamos, já é uma tarefa hercúlea.

Hoje, além de ser uma mulher brasileira, sou uma mulher brasileira vivendo nos EUA e posso observar atentamente a dimensão do nosso papel, para além da nossa pátria.

Algumas diferenças aqui nos EUA saltam ao olhos. Vou elencar três abaixo:

  • Mulheres não têm ajuda doméstica – ou quase nada. Esqueça a babá, a sogra, a faxineira, a arrumadeira, o jardineiro, o porteiro do prédio que descarrega as compras do carro… Ricas ou pobres, ajuda aqui é um luxo e, quando existe, é em proporções infinitamente menores que no Brasil. Dito isso, já se conclui que a vida aqui pode ser um pouquinho complicada se você tem filhos, cachorros, trabalha fora o dia todo e ainda tem que preparar o jantar e lavar a roupa da família toda. São coisas rotineiras mas que produzem um grande impacto nos papéis sociais e a principal consequência é que filhos homens e maridos ajudam IGUALMENTE nos afazeres domésticos!
  • No verão é comum ver meninas, mulheres, senhoras, gente de todo o tipo e todos os biotipos de vestidos, tops, mini-saias. As meninas andam pelas ruas de shorts bem curtos, as moças tomam sol nos parques de biquínis, muitas em ótima forma e outras simplesmente sendo seguras em sua própria pele. Não ouvem buzinadas, assovios ou secadas de doer a alma. Eu, pessoalmente, não vi ainda nada desse tipo acontecer. Nas escolas, na televisão e em shows infantis é comum ver um apelo forte à igualdade entre meninos e meninas e uma repreensão aos comentários sexistas.
  • Vejo mulheres saradas na academia usando microtops; faço aula de zumba com muçulmanas cobertas da cabeça aos pés; vejo avós de cabelos coloridos; há festas em galerias de arte chiques onde as pessoas vão de “havaianas”; há mulheres que se vestem com roupas masculinas, etc. As pessoas podem ser e agir como quiserem e há um respeito à liberdade de expressar-se e vestir-se.

Vou me ater a esses três aspectos para traçar um paralelo significativo com a condição feminina no Brasil:

  • Quando uma pessoa se coloca no lugar do outro, ela aprende a valorizar aquilo que lhe era desconhecido e, principalmente, a ver as coisas sob perspectivas totalmente novas. O menino brasileiro que nunca chegou perto da pia da cozinha ou da máquina de lavar roupas dificilmente irá valorizar e entender o quanto de trabalho e dedicação estão implícitos nessas tarefas. O mesmo vale para as mulheres que sempre delegam tudo a empregados domésticos e não entendem a dimensão e importância desse trabalho. Esse já seria um primeiro passo gigantesco na construção de um Brasil mais alinhado a noções de cidadania e respeito. Os homens brasileiros precisam urgentemente se colocar, nem que seja por um segundo, nos lugares de suas mulheres, mães e filhas, para que a partir daí, talvez, a história comece a mudar.
  • Acredito que como toda e qualquer mulher brasileira, eu cresci ouvindo piadas e gracinhas sobre a sexualidade feminina. Dos almoços de família ao metrô lotado… Quem nunca? Parece que está implícito na sociedade brasileira desmerecer a mulher e é comum ouvirmos críticas cruéis e comentários horrorosos saindo da boca das próprias mulheres. Ninguém escapa: dos amigos esclarecidos, dos familiares bacanas e simpáticos ao motorista do caminhão de gás. Talvez esse seja o ponto mais difícil de mudar, já que está no nosso DNA. Confesso que já presenciei muitas vezes piadas grotescas e comentários sexistas de amigos e familiares brasileiros, e só depois de morar aqui nos EUA e ver as coisas com uma certa distância foi que entendi a dimensão do quanto isso diminui o papel da mulher.
  • A aparência é outro fator que exerce um poder absurdo na sociedade brasileira. Trata-se de uma correção eterna, quase como se fizéssemos Photoshop real em nossas vidas e corpos. Com 5 anos de idade já tem meninas fazendo escova e alisando os cabelos; com 15, se cogita em pôr silicone nos seios. A neurose da academia e da luta contra a celulite começa na infância, com visitas a endócrinos e uso de remédios restritos. O resultado é um país que preza padrões determinados e desvaloriza a diversidade. Um olhar rápido já identifica a menina da periferia, de chapinha, barriga de fora e jeans super apertados, ou a madame do shopping, de cabelos escovados, silicone e roupas de grife, cada uma à sua maneira se submetendo a padrões pré-definidos. Quem não se encaixa, sofre, e haja anorexia, bulimia, obesidade, depressão, etc. No país da Gisele Bündchen, da Anitta e da Gabriela Pugliesi, fica difícil sobreviver sendo diferente.

Esse caldo retrógrado gera uma sociedade como a que se assiste hoje: a da mulher do Ministro do Turismo do Brasil posando de Miss Bumbum no gabinete oficial; a garota homossexual sendo agredida na rua, as meninas se sexualizando cada vez mais cedo, com exposição de fotos de decotes profundos no Instagram e, para culminar, a barbárie das barbáries, o estupro coletivo de uma garota de 16 anos.

Claro que o respeito, a igualdade e a liberdade ainda não estão asseguradas às mulheres nem nos EUA.

Aqui no estado da Virginia o suicídio de uma jovem bombeira chocou a comunidade. Nicole Mittendorff, de 31 anos, casada, suicidou-se depois de passar por situações de cyberbullying, abuso sexual, desrespeito e sexismo em seu ambiente de trabalho. Foi revelada a face cruel de típicos heróis norte-americanos – bombeiros, que abominam e perseguem as colegas femininas de profissão. Trata-se de uma prática comum em áreas predominantemente masculinas, como as corporações militares. Casos de estupro e abuso sexual, muitas vezes abafados ou ignorados, são recorrentes.

Infelizmente tem crescido o número de jovens violentadas nos campi universitários do país, e não é lenda o fato de meninas que ingressam no primeiro ano do colegial ou da universidade serem submetidas a abusos sexuais para serem aceitas nos grupos populares.

Não são poucos os casos de imigrantes que se casam com cidadãos americanos sem ao menos conhecê-los, a fim de conseguir o Green Card. Muitas dessas histórias resultam em violência física e psicológica e casos gravíssimos de disputas sobre a guarda dos filhos que sempre favorecem ao progenitor americano.  Infelizmente, soube por uma policial americana da triste história de uma carioca assassinada pelo marido americano. A família, pobre e distante, tentou em vão condenar o assassino, que permanece foragido e impune. Outra brasileira cumpre pena máxima em uma prisão da Virgínia, acusada de assassinato do marido americano. Fontes próximas dizem que essa mulher passou anos sendo agredida fisicamente pelo marido alcoólatra e submetida a todos os tipos de tortura psicológica e, ao que tudo indica, no dia fatídico ela agiu em defesa própria e dos filhos.

Enfim, não posso julgar nem emitir opinião baseada em “achismos”, mas gostaria muito de ilustrar que a violência contra a mulher é uma realidade, muitas vezes com consequências irreversíveis. A mulher quase sempre é o elo mais frágil da história e, quando é imigrante sem papéis, ou totalmente dependente do marido, essa fragilidade fica ainda mais evidente. É algo para refletirmos a respeito.

O que podemos fazer vivendo dentro ou fora do Brasil é estarmos sempre atentas e dispostas a denunciar qualquer tipo de violência ou abuso e, principalmente, educarmos nossos filhos e filhas para que escrevam uma história diferente. Esse assunto diz respeito a todos nós!

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6 comentários

Andreia Julho 24, 2016 at 7:03 am

Olá Gabriela !

Gostei muito do seu post , vivo em Milão. Por aqui (na Itália) tenho a frequente sanção do machismo e inconveniência masculina. Ser brasileira , agrava um pouco o comportamento pois significa sinônimo de sexo e ou prostituicao ( o segundo caso mais na Espanha, onde também já morei)
Sou solteira e tenho dificuldades em conhecer alguém que se enquadre em valores que tanto você / como eu compartilhamos , o que acaba por resultar em uma apatia generalizada em relação aos homens de origem latina de modo geral.

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Gabriela Albuquerque Agosto 3, 2016 at 8:58 pm

Oi Andreia,

Precisamos sempre perseverar nessa luta contra a discriminação e violência contra mulheres, que infelizmente é uma realidade mundial… Não podemos desistir! Boa sorte, Abs 😉

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Carlinha Julho 24, 2016 at 7:20 pm

Amei seu post, Gabri … me levou a uma reflexão sobre o que falamos em nosso último encontro.
Só teremos o direito de sermos mulheres na essência quando nos valorizarmos como tal e isso depende nós e não dos homens …

Resposta
Gabriela Albuquerque Agosto 3, 2016 at 8:54 pm

Que bom que gostou amiga….temos ainda um longo caminho pela frente! Adoro vc 🙂

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Cristiane Julho 29, 2016 at 7:41 pm

Gabriela, adorei seu Post! Também vivo aqui em DC!

Resposta
Renee Julho 30, 2016 at 4:39 pm

Quase acertou na mosca., Gabriela. O meu único “adendo” é em relação as plásticas, que aí nos EUA também é feita a rodo. Texto muito bem escrito, adorei!

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