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Páscoa no México

Para quem mora no hemisfério Norte, abril é o mês do começo da primavera. As ruas cinzentas e abarrotadas da Cidade do México ganham cor com as lindas flores de jacarandá espalhadas por toda a metrópole.

Semana Santa aqui no DF para mim tem este tom arroxeado e poético da primavera. Raras vezes em uma cidade como o México temos a oportunidade de presenciar a natureza ao nosso redor. Não sou religiosa, por isso desfruto desta época do ano, não por seu simbolismo religioso e sim pela vida que ganha esta cidade nestes dias.

Uma parcela da população aproveita as duas semanas de feriado para viajar a praias cercanas, já que a temperatura é alta e o sol a pino queima para valer nesta época. Acapulco, por ser a praia mais próxima, é o destino principal dos que buscam descansar embalados por muito sol e margaritas fresquinhas.

Já para o Mexicano apegado à tradições, esqueça praia, coelho, chocolate, esqueça até do belo jacarandá. Páscoa se trata de religião pura. O Mexicano desde a sangrenta conquista dos espanhóis é extremamente católico e o caminho de Cristo até sua ressurreição é revivido com muitas festas, nada de carne vermelha e algumas procissões.

Até os dias de hoje, os devotos fazem uma espécie de piñata gigante do Judas e a queimam como símbolo de repudia ao traidor de Cristo. Há alguns anos, a tendência era de trocar a cara de Judas pela de um politico cuja população estivesse insatisfeita. Já pensaram se essa moda pega no Brasil?  Teríamos muitas piñatas que queimar…

Em Taxco e no distrito de Ixtapalapa, há a encenação da vida de Cristo que é levada muito a sério pelos participantes e todos os que a acompanham.

Algo que me chama muito a atenção aqui durante a Semana Santa é que mesmo a população indígena segue até os dias de hoje esta tradição católica. A catequização dos maias e aztecas foi uma verdadeira lavagem cerebral. Afinal, eram civilizações avançadas, com crenças próprias e inclusive certo  conhecimento cientifico. A conquista, mais que os corpos que levou consigo, levou também a uma mutilação das crenças indígenas nos deuses presentes na natureza transformando-as em um monoteísmo imposto pelos conquistadores espanhóis.

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Uma visita a qualquer sitio arqueológico no México, mostra que as grandes cidades e pirâmides foram em sua grande maioria destruídas para a construção de igrejas católicas. Inclusive em Puebla há uma imensa pirâmide com uma igrejinha no topo. É bastante surrealista. Não há símbolo mais forte de uma conquista ideológica do que colocar-se no cume do templo de devoção de um povo. Acho extremamente triste a historia do México. Ao meu ver, seríamos todos muito mais ricos aproveitando de toda a diversidade de ideais e crenças ao nosso redor.

Aqui no México, porém, vejo um orgulho grande do mexicano por parte da sua historia indígena e ao mesmo tempo um repudio latente a tudo que provém do índio. Essa mutilação no caráter do povo nativo ainda é passada de geração a geração de forma subliminar. Neste sentido, acho que o México é até hoje colônia de sua catequese. E acho que até o mexicano perceber o verdadeiro valor da sua cultura indígena viverão sempre a sombra do estrangeirismo.

É claro que, é absurdo pensar que hoje em dia o México é somente indígena. A cultura espanhola é tao parte do cotidiano de cada um que já não é mais possível separar as duas. Ainda que, para nós de fora, a cultura indígena por sua autenticidade nos pareça mais genuína, para quem cresceu aqui o catolicismo já é uma parte profunda do mexicano também. Modificar esta relação com o catolicismo seria modificar a História e a não ser que tenhamos máquinas do tempo a nossa disposição, tal feito já não é mais possível. O que sim, podemos fazer é refletir sobre nossas crenças e decidir sobre o futuro das mesmas, levando em consideração o passado e escolhendo o tipo de nação que podemos ser.

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E que melhor hora para refletir sobre o significado de uma cultura que ao caminhar pelas ruas vazias do DF durante a Semana Santa, espelhando-nos no florescer da primavera enquanto os jacarandás nos oferecem sombras para apreciar o belo e seguir adiante.

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2 comentários

Ana Carina Lozon Abril 16, 2014 at 6:16 pm

Lindo lindo seu texto Fernanda!!
Extraño México!! é verdade mesmo esta coisa de meterem a cara do político no lugar de Judas, era muito engraçado na verdade e eu tive o mesmo pensamento que vc quando morei aí!!
Em Querétaro no Domingo de Ramos tinha ramos por toda a cidade , procissão, e até a criançada se fantasiava porque afinal era dia de festa, e em DF também tem isso??
beeejos!!

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Fernanda Moura Abril 17, 2014 at 2:07 pm

Gracias, Ana Carina!! Aqui no DF, na verdade, dizem que antigamente havia festas como as que vc descreve em Queretaro, mas hoje em dia já quase não há. Ainda tem, em algumas regiões, aquela tradição maluca de sair molhando todo mundo pela rua rsrs. Por sorte, onde eu moro não fazem isso 😉 Beijos!!!

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