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Por que há tantos suicídios entre jovens no Japão?

Por que há tantos suicídios entre jovens no Japão?

Muitas pessoas sabem que o suicídio é um dos grandes problemas sociais do Japão e envolve, com bastante frequência, crianças e adolescentes. É muito comum ver no noticiário casos de jovens que pularam de prédios, se jogaram na frente de trens ou foram encontrados enforcados dentro de casa.

A frequência é abominável e o suicídio de menores tem o seu pico anualmente em datas especiais. O governo japonês divulgou uma análise sobre 18 mil suicídios de menores de 18 anos, ocorridos entre os 1972 e 2013. O total de mortes nessas quatro décadas se mostrou maior nos dias 8 e 11 de abril, 30 de agosto, 1 e 2 de setembro.

Todas essas datas registraram mais de 90 mortes, com um destaque ao dia 1° de setembro, que totalizou 131 mortes nos 41 anos analisados.

O que essas datas têm em comum? Quem conhece o sistema japonês já deve ter adivinhado: são os dias em que acabam as férias escolares e começam as aulas. Para muitos jovens que sofrem com problemas nas relações dentro da escola ou bullying, o período de férias é o momento de se livrar de tudo e, quando acaba, o retorno à escola se torna assustador.

Só no mês passado houve três suicídios de estudantes e uma tentativa falha, em três dias. Adivinhem quais? Isso mesmo, de 30 de agosto a 1° de setembro.

O que é algo extremamente triste e contrário ao que a escola deveria significar para o aluno. Ao invés de ser um local para construir amizades, aprender e desenvolver um papel social, a instituição se torna um verdadeiro inferno. O ambiente escolar pode ser uma terra sem lei, onde aqueles que demonstram fraqueza são humilhados, e quem deveria impedir os abusos fecha olhos e ouvidos.

O tema suicídio no Japão sempre me intrigou, embora o problema não seja exclusivo da terra do sushi. O Brasil também possui elevados casos de suicídio, só que estão bem mais ocultos na sociedade.

Leia sobre: Dá para morar no Japão sem saber japonês?

Depois de vir morar no Japão e principalmente por ter um trabalho que envolve bastante o noticiário, comecei a ficar mais atenta às questões sociais do país. Aos poucos, fui absorvendo a problemática do suicídio e tudo aquilo que parece estar diretamente envolvido com a causa.

O bullying nas escolas também é um problema no Brasil e por que não vemos tantos estudantes brasileiros pulando de prédios? Ao meu ver, o problema do Japão está enraizado à fortes questões culturais, sociais e incapacidade do governo de implementar medidas de combate mais eficientes. Vamos analisar:

Sistema autoritário

Acredito que há uma relação íntima entre o autoritarismo das relações sociais no Japão e a problemática do bullying, da depressão e do suicídio. Aqui nós temos o famoso sistema de “senpai” (veterano) e “kouhai” (novato). Aquela história de que os japoneses respeitam os mais velhos é muito bonitinha, mas acho que, na prática, isso muitas vezes passa do limite.

Na escola, na faculdade e futuramente no trabalho, os japoneses são divididos entre aqueles que têm mais experiência e os que chegaram depois. É legal valorizar os mais velhos e experientes, mas será que é legal também ensinar às pessoas que elas não estão no mesmo nível?

Eu acredito que esse sistema coloca parte das pessoas em condição de superioridade e a outra parte em condição de inferioridade. Daí é um passo para os abusos e para o bullying, já que o senpai pode se achar no direito de fazer o que quiser com o kouhai, já que a sociedade permite que ele seja tratado com superioridade.

Pressão e regras

A pressão social é forte no Japão e cai em cima do adolescente e do trabalhador. O comportamento escolar e as notas podem definir todo o futuro de um estudante e esse sistema não perdoa a fase da imaturidade ou da rebeldia. Se um aluno cometeu um furto com 13 anos, a escola pode se recusar a recomendá-lo para a faculdade que quer entrar por causa da ocorrência no histórico.

A questão das regras também é forte. Há regras para tudo no dia a dia e não há espaços para questionamentos ou alterações. Isso tudo pode ser um peso extra, principalmente se o estudante achar que não consegue corresponder às expectativas ao redor dele. Neste sentido, o Brasil pode ser mais bagunçado, mas pelo menos as pessoas se sentem mais relaxadas.

Combate

Outra questão que relaciono ao problema é a ineficiência do combate ao suicídio. Vemos que há um esforço para solucionar um caso depois que ocorre. A escola investiga, o Comitê de Educação da cidade investiga, e a pressão é forte até que se tenha certeza se o motivo foi bullying ou não.

Leia também: 10 curiosidades sobre o Japão

Porém, antes do suicídio acontecer, pouca coisa é feita. Muitas escolas passam questionários periódicos aos alunos para que respondam se estão sofrendo bullying ou não, mas não há um trabalho de educação contra os maus tratos, que ensine aos alunos a importância de tratar uns aos outros com igualdade e respeito. E aquela história de senpai e kouhai volta com tudo nessa equação…

Soluções

É difícil dar um palpite em um problema tão complexo, que vem sido combatido por décadas com medidas que trouxeram poucos resultados. Além dos estudantes, o suicídio também afeta trabalhadores que são explorados nas empresas e não conseguem trocar de emprego, donas de casa com problemas com os filhos e o marido, e idosos que sofrem de solidão, depressão e pobreza.

São várias causas para o mesmo problema e o combate deveria ocorrer com ações múltiplas, considerando as dificuldades enfrentadas por cada faixa etária, por cada geração. Termino a coluna com a questão no ar: o que você acha que deveria ser feito para combater o suicídio no Japão?

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8 comentários

Kariula Barralo Outubro 19, 2017 at 10:39 am

Eu acho que o ponto chave nessa questão do suicídio é a prevenção, seria interessante se as escolas e também os sistemas de saúde adotassem medidas para diminuir a pressão sobre os adolescentes por parte da família, e por parte do sistema social, mas como? bem, apostando em mais estudos nessa área e aceitando a intervenção de profissionais da psicologia e da saúde dentro das escolas, dar voz aos jovens e adolescentes para falarem de suas angústias e envolvendo-os em ações que ajudem na prevenção do suicídio.

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Savio Cavalcante Pereira Setembro 4, 2019 at 1:54 pm

Eu acho que as pressões sociais e o que mais desencadeia a isso ,estudei um tempo em auckland na nova Zelândia e lá tive oportunidade de fazer vários amigos japoneses que por estarem distante do seu país de origem tinham mais liberdade de fazer o que eles queriam ,em muitas conversas ao relatar que o jovem no Brasil tem muita liberdade desde a ter o cabelo da maneira que quer ao pensa e decidir o que vai estudar ,que tem a liberdade de sair e de namora ou simplesmente fica com várias pessoas era grande a surpresa dos meus amigos ,ouvir de muito deles que queriam ser brasileiro e ter essa liberdade e sem conta a pressão da sociedade pra que logo termine a faculdade e se mate de trabalha nas fábricas além disso tem o alto custo relatado por eles das universidades japonesas ,além de tudo eles avaliam a faculdade que e boa e que não e através de seu preço e a capacidade de entrar nelas ,O japonês e um povo muito sincero ,educado ,companheiro e amigo porém e um povo reprimido por um sistema paternal e por uma sociedade em conflito aonde parece que ninguém está feliz ,conviver com muitos japoneses estando fora do Japão e esse foi o relato e o que percebi em muitos deles.

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rosana Ishi Outubro 19, 2017 at 3:00 pm

oiAna
Eu ainda acredito muito na educação de qualidade e não incluo o Japão nessa questão pois para mim disciplina e organização não são sinônimos de qualidade de educação e sim alguns dos ingredientes Falta muito ainda para se dizer que há qualidade na educação japonesa principalmente no que se refere a aceitar as pessoas como elas são porque um aluno disse ao meu sobrinho de 9 anos que é tinha vírus de gaijin que tinha quericar longe dele! Pura ignorância que a escola devia combater sem precisar eu ter que ir lá tomar satisfações ! Amor próprio também não se ensina muito menos empreendedorismo! criança empreendedora não se mata !

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Ana Paula Ramos Outubro 20, 2017 at 1:01 am

Oii Ro!! Acho que as escolas japonesas forçam muito para que os alunos sejam todos iguais, as crianças não sabem aceitar as diferenças e no mundo lá fora as pessoas não são iguais! Ai tem o aluno estrangeiro, o aluno que tem o cabelo mais claro que os outros, o aluno que é gordinho e essas crianças acabam sofrendo ijime as vezes só por que são diferentes. É muito triste. Eu fico nervosa quando vejo relato de professora que mandou mãe pintar cabelo do filho de preto, não entendo por que ninguém vê as consequências disso. Tadinho do seu sobrinho, ninguém merece ter que passar por isso 🙁

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Lucas Silva Setembro 18, 2018 at 8:51 am

O problema não é as crianças gordinhas ou como o sistema funciona. O problema é eles NÃO PUNIREM QUEM COMETE CRIME, pegaram a moda dos direitos dos manos de que menor de idade é “coitadinho vítima das circunstâncias”. Antes da Segunda Guerra esses menores iriam comer cassetete de policial, hoje em dia além de agredirem os outros ainda são tratados como vítimas. Olha como cresceu o número de abusos sexuais, violência, droga. Tudo isso não é porque o país é “estrito demais” é EXATAMENTE O CONTRÁRIO. Após a segunda guerra o Japão perdeu muito de sua cultura de “Mão de ferro” graças aquele lixo dos estados unidos, e isso traz o quê? Violência, descompromisso, irresponsabilidade.

Não é pressão e muito menos serem estritos que causa problemas é exatamente o contrário, é a falta disso. Procure no Youtube, tem VÁRIOS vídeos de polícia sendo chamada pra lidar com delinquentes juvenis muitas vezes envolvidos com gangues mas a polícia chega vê que são menores de idade e falam “Ah criança é assim mesmo” e vão EMBORA, largam os marginais vandalizando pelas ruas. Se fosse antes de 1940 eles teriam pregado o cassetete no coco desses moleques e ainda ia sobrar pros pais deles.

Quando se para de suprimir esse tipo de comportamento negativo e danoso pra sociedade ele apenas se espalha. Vide drogas e abortos, os principais problemas da atualidade do Japão.

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Juliana Outubro 23, 2017 at 10:12 pm

Essa jornalista conseguiu colocar no papel tudo o que penso sobre o sistema educacional japonês e sua cultura hierárquica. Respeito é bom e todo mundo gosta. Acredito que só quando eles entenderem que o respeito é uma linha reta e que as pessoas sao iguais, poderemos ter um início de esperança para que crianças e jovens possam se tornar adultos felizes. Eu percebi que algo muito sério acontecia quando minha filha teve uma crise de tristeza enquanto estudava na escola japonesa e meu filho tentou fugir da escola diversas vezes. Ambiente frio e sombrio. Era essa a impressao que tinha todaa as vezes que entrava naquele colegio, apesar de ser sempre recebida com sorrisos pelos professores.
Mas mae nao se engana! Quando a gente sente uma brisa de fumaça, nao tem quem faça acreditar no contrário! E onde há fumaça, há fogo!
Acredito que cada crianca é unica e devemos respeitá-las e sempre trazer o melhor dela para o ensino e trabalhar o pior, para tentar melhorar. Porque aprender é divertido! Se a criança nao encontra essa diversao na escola, algo esta muito errado! Aquele videozinho bonito que mostra na internet sobre a escola japonesa em que as criancas limpam a escola, funciona muito bem, na internet! Pq a realidade é bem diferente!
Imagine seus filhos lavando um banheiro de escola sujo, sem equipamentos adequados e passar 3 horas com a meia molhada de agua suja cheia de cloriformes fecais.
Pois é, isso aconteceu com a minha filha! Imediatamente liguei na escola e exigi que dessem botas e luvas ( a escola nao tinha ). E nao teria nunca se eu nao tivesse bancado a chata, a mae protetora! Porque japones nao questiona!
E quando você entra na escola é aquela tristeza! Criancas robotizadas e reprimidas. No frio de -5 graus as criancas tem que correr de bermuda e camiseta. Sim! Porque vestir um agasalho é para os fracos!!! Aqui voce ten que ser forte e aguentar tudo!
E o horario de saída que na verdade é o professor que decide? Você recebe um papel semanal informando o horario de saída do seu filho, mas o professor nao respeita e dispensa a crianca sempre 20 ou 30 minutos depois do horario.
Alem de que aqui nao brinca se nao comer tudo. Nao importa o limite da crianca. Eles nao respeitam, porque as criancas aqui tem que comer igual, falar igual, sorrir igual… nao pode ser diferente. Porque eles nao sabem lidar com o diferente!!

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Ana Paula Ramos Outubro 25, 2017 at 10:57 am

Juliana, muito obrigada por compartilhar as suas experiências, aprendo muito com cada relato que vejo, já que não sou mãe e não vivo essa realidade de ter os filhos na escola japonesa. Eu não entendo o sentido de querer que as crianças sejam iguais se no mundo lá fora as pessoas são diferentes e isto deveria ser aprendido no ambiente escolar! Eu chamo bastante atenção aqui no Japão por que não tenho descendência e nunca esqueço a vez que conversei com uma menininha de seis anos em uma loja da Softbank e ela gritou pra mim “Koko wa Nihon dayo! Eigo jin!!” (Aqui é o Japão! Sua “inglesa” (falando errado)). Deu pra ver que, na visão dela de criança, eu estar aqui, entre os japoneses, provocava algum estranhamento, já que sou diferente deles.

Concordo muito com vc que a educação aqui é extremamente robotizada, não incentivam o aluno a dar a opinião e a criar coisas novas, a ordem é concordar e baixar a cabeça! Também acho isso muito errado, cria-se uma sociedade em que as pessoas sabem cumprir ordens, mas não sabem questionar e melhorar as coisas, infelizmente. Tento me colocar no seu lugar como mãe e acho que faria a mesma coisa, diferente dos japoneses que aceitam sem questionar, eu enfrentaria a escola assim que enxergasse algo de errado. Para uma mãe deve ser muito difícil ver que o ambiente da escola do filho é triste e frio como vc disse. Boa sorte!!

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Matheus Silva Janeiro 26, 2019 at 9:55 am

Que bom que há em alguns locais a opção das escolas brasileiras, não? Não devem ser perfeitas, eu sei, mas pelo menos as crianças não correm o risco de sofrer logo no início da vida algo tão sério como racismo! Há mais relatos do que eu imaginei sobre isso ao longo da internet. Infelizmente um sintoma de uma distorção colateral da “cultura do respeito” japonesa.

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