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Por que os japoneses não querem mais ter filhos?

Por que os japoneses não querem mais ter filhos?

A população infantil está em queda livre no Japão. Todos os anos, o governo divulga no início de maio os dados relacionados à densidade populacional e já faz 37 anos que a população encolhe de forma consecutiva.

Ironicamente, estes dados são revelados em 5 de maio, data em que se comemora o dia das crianças no Japão. Neste ano, a notícia foi a pior possível: o país perdeu, no período de 365 dias, uma média de 170 mil crianças. Isto mesmo, o levantamento mostrou que há 170 mil crianças a menos com relação aos dados do ano anterior.

A pesquisa mostra o número de crianças entre 0 e 15 anos, e especifica as populações infantis por províncias. O levantamento mais recente mostrou ainda que, com exceção de Tóquio, todas as outras 46 províncias do país registram queda na população infantil, um cenário que piora a cada ano.

Mas afinal, o que impede os japoneses de terem filhos? Por que o desejo de construir uma família está cada vez mais raro no Japão? As perguntas são muitas e as respostas, insuficientes. As justificativas tentam retratar um cenário complexo, que envolve problemas sociais, baixa assistência para a criação dos filhos e até costumes obsoletos, que ajudam a transformar a maternidade em um fardo.

Há muitos estudos que indicam as causas deste baixo interesse e, quando somados, ajudam a desenhar um quadro mais compreensível, embora o sinal seja claro e alarmante: o governo precisa agir, criar condições favoráveis e capazes de mudar este cenário, antes que a população japonesa corra risco de extinção (será que poderia mesmo acontecer?).

Em outubro de 2016, uma pesquisa do Ministério da Saúde do Japão deu um primeiro sinal do que pode estar relacionado a este problema. O estudo mostrou que, nos últimos 30 anos, o número de casais sem filhos dobrou no país e a vida longe de crianças denuncia um novo padrão de pensamento moderno: o de que os filhos custam caro e “atrapalham” a liberdade do casal.

Na mesma época, um portal de notícias chamado Josei Seven, entrevistou centenas de famílias para descobrir o que vem motivando o pessimismo com relação a colocar filhos no mundo. Das quase 600 pessoas entrevistadas, 18,5% afirmaram que não desejam ter filhos.

Muitos entrevistados relataram falta de interesse, baixo ânimo para as mudanças na rotina provocadas por uma criança e falta de liberdade. Entre aqueles que desejam filhos, muitos se mostraram pessimistas, com reclamações sobre problemas financeiros e dificuldades em conciliar o trabalho com os cuidados que uma criança exige.

Leia também: Por que há tantos suicídios entre jovens no Japão?

PROBLEMAS SOCIAIS

Um pessimismo com relação à vida pós-filhos tem sua parcela de culpa, mas não é a única face desta moeda. Os sistemas japoneses e a insistência do governo em investir em um estilo de vida obsoleto também traduzem essa insatisfação com a ideia de construir uma família completa.

Para as mulheres japonesas, ter um filho pode significar abrir mão da carreira, sendo poucas as que conseguem conciliar os cuidados com a criança e a profissão. Nas empresas japonesas, ainda é muito comum ver dezenas de funcionárias solteironas, enquanto que as mães vivem da criação dos filhos e do serviço doméstico.

O país parece não compreender a importância da maternidade e da paternidade, sendo que os benefícios para mães e pais de recém-nascidos ainda são poucos, quando comparados com outros países também desenvolvidos.

E como se não bastasse, muitas mães e pais sofrem com o temido matahara, uma espécie de assédio que as mulheres grávidas e homens que tentam tirar licença para cuidar dos filhos sofrem nas empresas. Há muitos casos de mães que são pressionadas pelos colegas ou pelos chefes a largar o emprego após o nascimento da criança, pois as ausências frequentes “atrapalham” a produtividade da empresa.

A participação paterna na criação dos filhos ainda é baixa. Outra pesquisa do Ministério da Saúde estimou que o tempo gasto pelos homens com os filhos e tarefas domésticas é de 1 hora e 7 minutos por dia, enquanto que em países europeus, o gasto é de pelo menos 3 horas por dia.

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Outra questão é a dificuldade que as famílias encontram em arrumar vaga nas creches públicas do Japão, o que torna difícil a recuperação das finanças após o nascimento de um filho. Quando todos esses problemas são colocados na balança, as desvantagens parecem esmagar as vantagens e não ter filhos se torna a decisão mais sensata.

Para quem tem filhos, a alegria de ver a criança se desenvolvendo e a companhia diária do pequeno são sinônimos de amor e fazem todos os sacrifícios, gastos e noites mal dormidas valerem a pena. Mas, para os japoneses, está cada vez mais difícil enxergar um bebê com olhos tão humanos e uma mudança nos dados populacionais pode exigir também um novo equilíbrio entre vantagens e desvantagens.

Mas será que ainda é possível equilibrar esta balança? Que tipo de mudanças poderiam reverter esses dados que se mantém firmes há quase quatro décadas? Um dia, quem sabe, descobriremos.

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