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Bilinguismo França

Porque não devemos ter medo do bilinguismo

Depois que eu adotei essa vida internacional tenho convivido muito com casais de diversos países que criam filhos pequenos no exterior e, entre as perguntas que mais ouço destes pais, estão perguntas sobre a língua. O bilinguismo não vai atrasar o desenvolvimento da linguagem? Qual língua a criança vai falar? Ela vai ter habilidade para aprender duas ou mais línguas ao mesmo tempo? Qual língua deve ser usada com a criança? Todos eles respiram aliviados quando descobrem que as respostas são bem mais simples do que esperavam.

Em geral, encontro três tipos de famílias: as que os dois pais são de um mesmo país e criam os filhos no exterior, casais em que cada um é de um país diferente e criam os filhos no país de um deles – nesses dois casos os filhos serão bilíngues – e casais que são originários de países diferentes e criam os filhos em um terceiro país, que serão trilíngues.

Além da quantidade de línguas às quais a criança é exposta, uma outra variável importante é quando a criança é exposta a essas línguas. Uma criança pode se tornar bilíngue de duas formas: simultaneamente à aquisição da linguagem e após a aquisição. Os casos simultâneos acontecem quando os pais moram em um outro país quando a criança começa a falar, já os casos de aquisição posterior acontecem quando o casal se muda para o exterior com filhos que já falam.

A criança não levará mais tempo para começar a falar

Nos casos em que a aquisição é simultânea, a informação mais importante é de que o fato da criança aprender duas ou mais línguas ao mesmo tempo não traz qualquer prejuízo para a aquisição da linguagem, ou seja, além da criança aprender as duas ou três línguas muito bem, ela não leva mais tempo para começar a falar só porque está exposta a mais línguas, ao contrário do que se pensava antigamente. Atualmente se sabe que o bilinguismo pode ser muito benéfico para a criança, pois contribui para o desenvolvimento cognitivo, aumenta a capacidade de processamento da linguagem, aumenta a flexibilidade cognitiva, entre outros benefícios.

Fale a sua língua com a criança sempre

Então, como acontecerá a aquisição da linguagem e como podemos ajudar as crianças? A primeira dica é: fale a sua língua com a criança sempre. Nos casos em que ambos os membros do casal são brasileiros essa tarefa é mais fácil, mas, por exemplo, se o pai for francês, a mãe for brasileira e a família morar na França, caberá à mãe fazer um esforço maior para que a criança adquira o português, pois a mãe será a única fonte de português da criança. Como nesse caso a criança vai ser mais exposta ao francês que ao português, é provável que tenha mais facilidade com o francês e que ela fale algumas vezes em francês com a mãe. Uma boa forma de lidar com isso é a mãe sempre perguntar como se diz em português o que a criança está pedindo ou dar o modelo em português antes de dar o que foi pedido. Tente sempre iniciar as interações e responder na sua língua materna mesmo quando a criança se dirigir para você na outra língua.

A criança não ficará confusa por ter que falar duas línguas ao mesmo tempo, faz parte de um ambiente bilíngue que a criança misture as línguas ou saiba uma palavra em inglês e outra palavra em português, com o tempo ela vai aprender todas as palavras em ambas as línguas. Portanto, não puna os erros, quanto mais natural for a aprendizagem, melhor. Só peça para a criança repetir ou dê o modelo, como explicado anteriormente.

Livros e músicas: grandes fontes de vocabulário e cultura

Quando aprendemos duas ou mais línguas, aprendemos não somente a linguagem em si, mas também a cultura que é transmitida por aquela língua. Portanto, vale a pena incentivar que os filhos leiam livros em português e também leiam livros na língua estrangeira, ou que eles aprendam músicas de crianças em todas as línguas com as quais têm contato. Essa é uma ótima forma das crianças aprenderem vocabulários novos e também de serem inseridos na nova cultura e na brasileira ao mesmo tempo, o que irá ajudar muito as crianças a se integrarem com outras crianças no novo país.

Mas, e quando os filhos já tiveram a aquisição da linguagem em português e a família vai se mudar para outro país? Os pais também não têm com o que se preocupar em termos de linguagem. Até os 12 anos de idade temos a “janela biológica da linguagem”, que nos permite aprender rapidamente e, muitas vezes, sem sotaque uma nova língua. Imagino que alguns leitores que passaram pela mudança para o exterior com os filhos pequenos e que não falavam a língua do novo país puderam perceber que os filhos aprenderam a nova língua muito melhor que eles mesmos e mais rapidamente.

Sobre a adaptação dos filhos no exterior

Aqui vou abrir um parêntese para falar rapidinho da adaptação dos filhos no exterior. Quando falo que tudo é mais fácil para as crianças é apenas em relação à linguagem, no sentido de que elas têm mecanismos neurais para aprenderem idiomas muito melhor que os adultos, mas isso não impede que a adaptação seja muito difícil, como conta outra colaboradora. Posso fazer um post mais tarde sobre esse assunto, mas realmente acho que não existe fórmula, tudo vai depender muito da idade em que a criança se mudou de país, dos vínculos que ela tinha, da familiaridade anterior com a língua nova, do apoio que o país novo dá para estrangeiros. Mas o que eu posso dizer é que a criança vai aprender a nova língua muito bem e que, depois disso, tudo tende a melhorar.

Problemas ligados à fala

Embora o bilinguismo seja sempre uma vantagem e não uma desvantagem de aprendizado para a criança, problemas ligados à fala existem (com o bilinguismo ou não), como atraso na linguagem, gagueira, mutismo. Se você notar algum problema persistente não deixe de procurar ajuda profissional como médicos e fonoaudiólogos, mas não é necessário se preocupar com problemas menores e passageiros. Por exemplo: eu tenho uma amiga brasileira casada com um alemão e que cria o filho na Alemanha. Ele aprendeu a falar cedo e possui um vocabulário bem rico em ambas as línguas, no entanto, com dois anos e meio, quando começou a formular frases mais complexas, ele começou a gaguejar no início das frases, para o pânico da minha amiga. No entanto, essa “gagueira” era apenas ele tentando pensar na frase inteira. Sabe quando queremos falar algo em outra língua e damos aquela engasgada? Não deu outra, em menos de um mês a “gagueira” já tinha sumido e ele estava falando frases complexas normalmente.

Poder expor os nossos filhos a uma língua estrangeira desde pequenos só tem a acrescentar na aprendizagem deles e na cognição. Espero que, no fim das contas, vocês tenham uma experiência que valha muito à pena para a família e para a criança.

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