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Português como língua de herança

Português como língua de herança.

Como já dissemos em vários textos aqui no Brasileiras Pelo Mundo, são muitos os caminhos que levam uma pessoa a viver em outro país: oportunidade de emprego, investimento em educação, aprimoramento profissional, buscas pessoais e, principalmente, amor e casamento. Uma parte significativa dos imigrantes e expatriados é formada por pessoas que deixaram a terra-natal para se casarem com estrangeiros. A formação de famílias multiculturais, com filhos de pais e mães de nacionalidades diferentes, é hoje uma realidade em quase todos os cantos do planeta, principalmente depois das facilidades dos relacionamentos virtuais.

Na minha experiência pessoal, a maior de todas as dificuldades foi (e ainda é) a aquisição da nova língua. Precisamos nos reinventar em muitos aspectos e a base disso tudo é o mergulho de corpo e alma na nova realidade cultural, na qual a língua é a peça chave.

Meu marido é brasileiro e minhas filhas passaram a maior parte da infância no Brasil, mas acreditem, quase tão difícil quanto aprender um novo idioma é manter viva nossa língua materna. Minha filha de 11 anos dificilmente consegue falar uma sentença inteira sem usar ao menos uma palavra em inglês. Os estímulos do meio ambiente são fortíssimos e, se bobear, a língua-mãe vai ficando para trás.

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Sala de aula da ABRACE na Virginia – EUA Fonte ABRACE

Em 2005, um grupo de mães brasileiras residentes na região de Washington DC se viram às voltas com esse desafio e decidiram se organizar e ensinar ou (re)ensinar o português às crianças. Esse pequeno grupo cresceu e se tornou a ABRACE, uma respeitada ONG responsável pelo ensino de português como língua de herança e de aspectos da cultura brasileira. Ana Lúcia Lico, uma das mães fundadoras, atua desde o início à frente da organização que tem um papel importante na comunidade brasileira local e serve de inspiração para modelos parecidos ao redor do mundo.

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O termo língua de herança é utilizado porque se diferencia profundamente do ensino do português como língua estrangeira. Quando falamos em herança cultural estamos nos referindo à bagagem que carregamos em nossas vidas, vinda do lugar de onde nascemos e crescemos, ou do lugar de origem das nossas famílias. Não se trata de um universo inteiramente novo, “estrangeiro” a nós. Para uma criança que tem parte da família com origem brasileira é muito enriquecedor saber brincar de amarelinha, conhecer o mundo mágico do Saci- Pererê, experimentar o Carnaval e a Festa Junina e saber um pouco como vivem, ou viveram seus avós distantes.

Tudo isso vai muito além da aquisição de uma nova língua. Para muitas famílias multiculturais é comum a triste realidade de ter filhos que não conseguem se comunicar com os avós, tios, primos e parentes brasileiros por não falarem o português.

Assim, português como língua de herança, ou PHL, já é uma modalidade de aprendizagem da nossa língua tendo, inclusive, alguns livros recentemente publicados a respeito. Um dos mais recentes é esse estudo de autoria da própria Ana Lucia Lico em parceria com Ivian Destro Boruchowski, que pode ser baixado gratuitamente aqui.

Algumas organizações têm surgido além dos EUA, focando na preservação de nossa língua em famílias de expatriados. Estudos e pesquisas têm sido realizadas na procura de metodologias de ensino que atendam a essa demanda.  A Brasil em Mente  é uma das organizações voltadas à essa pesquisa e tem sede em Nova Iorque.

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Como mãe sei que o dia a dia de uma mulher fora de seu país pode ser muito estressante. Dar conta de inúmeras tarefas domésticas, profissionais e ainda ter a preocupação de manter a língua portuguesa em um núcleo onde todos falam inglês (ou qualquer outra língua) é quase impossível e muitas desistem. Eu as entendo perfeitamente! Infelizmente, ainda são poucas as organizações que focam na preservação da cultura brasileira e o nosso português é uma língua pouco difundida no mundo. Não existem filmes, músicas ou comerciais em português à disposição e não somos bombardeados pelo idioma como somos pelo inglês, por exemplo.

Aqui em Washington DC, a ABRACE se propôs a cobrir essa lacuna. Através de parcerias, doações, trabalhos voluntários e muita força de vontade, a ONG vêm se mantendo ativa na região da capital norte-americana, promovendo encontros e eventos incríveis. Na última feira do livro, um dos principais eventos realizados pela ABRACE anualmente, tivemos  a presença ilustre do escritor Pedro Bandeira, que conversou com mais de 400 brasileiros da comunidade local, sobre o mágico universo da nossa literatura infantil. Esse foi apenas um entre os diversos eventos organizados pela ONG, que enriquecem a nossa comunidade de expatriados e permitem que a nossa cultura, nossa raiz e nosso jeito de ser sejam preservados, mesmo em terras estrangeiras.

O caminho é árduo, o desafio constante e em países distantes essa tarefa pode parecer insana! Mas é sempre possível buscarmos saída e algumas são essenciais como o apoio do marido/esposa estrangeiro na educação de filhos bilíngues, o acesso a materiais em português – que podem ser encontrados na internet – a paciência e a perseverança de mostrar às crianças a riqueza da cultura brasileira, a manutenção do contato com a família brasileira, ainda que seja por “Skype”, etc. É preciso muita força de vontade para superar a sensação de estar nadando contra a corrente. Mas esse esforço será compensador se conseguirmos manter, nem que seja um pouquinho, a chama brasileira acesa no coração dessas crianças pelo mundo.

Para saber mais sobre a ABRACE, clique aqui.

Veja também mais um pouco sobre esse mesmo tema em outro texto aqui do blog.

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1 comentário

Guaciara Maio 19, 2017 at 3:27 am

Adorei o texto! Essa é uma questão que me preocupa, já que tenho duas crianças de 2 e 5 anos e estamos num projeto para mudar para o Canadá… meu marido é brasileiro como eu, meus filhos falam português apenas, mas morro de medo deles perderem a língua… será um desafio e tanto!

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