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Prestação de serviços nos EUA: um pesadelo em qualquer lugar

Você chega nos Estados Unidos. Você solicita a instalação da internet e TV a cabo. Para isso fica um tempo considerável ouvindo musiquinhas chatas no telefone, esperando ser atendido. Finalmente instalam os aparelhos na sua casa e logo em seguida vem a fatura. Um susto! Valores mais altos do que você havia concordado, taxas estranhas e mal explicadas. Você liga mais uma vez para o serviço de atendimento. Mais musiquinha, mais doses cavalares de paciência. Depois de muitas tentativas e repetições por dias do mesmo procedimento, você resolve sua situação.

Você assina um plano familiar de celular em uma das companhias mais populares do país. Primeiro mês da fatura: te cobram por uma compra de acessórios em uma loja que fica em outro estado, distante algumas centenas de quilômetros de onde você mora e que você nunca pisou. Você liga, mais musiquinha e a promessa de situação resolvida. No mês seguinte a cobrança continua lá, à sua espera. Você repete o procedimento. Passa até a cantarolar a musiquinha. Depois de quatro meses resolvem o seu problema.

Você financia a compra de um carro novo. Lá pelo terceiro mês da prestação você descobre que está pagando duplamente o imposto sobre veículo. Você gasta uma tarde no telefone. Musiquinhas, ligações interrompidas, nada se resolve. A prestação do mês seguinte chega no dia certo, com o valor incorreto! Claro que muito a mais do que você deveria pagar. Mais tardes no telefone. Transferências de ligações. Linha congestionada e musiquinhas…. Depois de longos seis meses da novela, com o mesmíssimo capítulo, você consegue ser reembolsado.

Você muda de endereço. Descobre por conta própria que a coleta de lixo não está incluída naquele alto valor que você paga de taxa de propriedade. Você liga para uma empresa recomendada pela prefeitura para contratar os serviços. Mais musiquinha. Mais ligações em espera. Você é informada que a coleta começará em duas semanas depois do contrato. Lixo, restos de mudança, duas semanas. Você espera com aquela ansiedade de uma adolescente apaixonada, olhando todas as manhãs pela janela, mas o lixeiro não vem.

Você liga mais uma vez. Musiquinhas, algumas horas pendurada na linha, ligações transferidas. Você finalmente tem seu contrato cancelado. Mas e o lixo? Você liga para outra empresa. Reinicia a trajetória. Novas musiquinhas, novas promessas. Você começa a rezar. Na quarta semana do seu novo endereço, você vê finalmente o seu lixo sendo recolhido. Você quase chora de emoção e pode voltar a respirar dentro da sua garagem, que agora deixou de cheirar como o final da feira da rua da casa da sua avó.

Minha filha chega a tempo para pegar o ônibus na estação. Mas cadê o dito cujo? Duas horas depois, com passageiros estressados, famintos e cansados, o ônibus chega. Nenhuma desculpa, nenhuma satisfação, se quiser embarque, se não, problema seu! Depois da surpresa inicial, e de muitas viagens rodoviárias você descobre que é de praxe já acrescentar umas duas horas a mais no seu percurso, pois a chance de atrasos será de 98%, infelizmente.

Ai, esse Brasil né? Onde nada funciona. Governo incompetente, corrupto, ladrão. Pois bem, isso não é Brasil. Isso não é Sky, Vivo, Volkswagem ou prefeitura de São Paulo! Estou falando dos Estados Unidos da América.

Estou falando da Verizon, ATT, Toyota e Fairfax County. Nomes que juntos valem muito mais que o PIB de muitos países. Primeiro mundo!

Confesso que foi uma grande decepção. Eu, como toda paulistana exausta, já não aguentava mais os perrengues da terrível prestação de serviços do Brasil. Meus primeiros meses aqui, com aluguel e tudo incluído pareciam um sonho. Pensei que tivesse chegado ao paraíso.  Mas a vida segue seu rumo e a cada dia você vai se afundando mais nas responsabilidades de ser um residente permanente. O olhar encantado do turista vai cedendo espaço às necessidades do morador e as tramas da burocracia cotidiana começam a te agarrar. Você acorda do sonho dentro de uma realidade que não é tão diferente daquela que você deixou para trás.(Falo mais sobre isso no meu blog pessoal).

Um capítulo a parte, que rende quase um post inteiro é a prestação de serviços em saúde. Desde atendimento médico tradicional, passando por dentistas e veterinários, a terapias alternativas, como acupuntura e quiropraxia, sempre é preciso que você, paciente, assine praticamente um livro de papéis, assumindo para si toda e qualquer responsabilidade que venha a ocorrer no seu tratamento. Ou seja, o ônus, sempre recai sobre o cliente/paciente, e não há como se precaver disso. Eu já estou acostumada em receber contas com valores extras sobre todas as consultas que faço, e na grande maioria das vezes, não faço ideia a que se referem.

Um ponto a favor do Brasil são instituições dedicadas aos direitos do consumidor, como Procon e Reclame Aqui. Há quase três anos nos EUA não vi nada parecido, se alguém souber e quiser deixar a dica, agradeço muito.

As contas também não são claras e ainda tenho dificuldade em entender os inúmeros itens que aparecem nas minhas faturas. Fico sempre com a sensação desconfortável de que não sei o que estou pagando, e se isso é justo ou não.

Minha recomendação é, dedique seu tempo para ler sobre tudo o que você assina, contrata ou concorda. Sua assinatura pode ser facilmente usada contra você e aqui, todos os serviços, de médicos e dentistas à telefonia e seguro residencial, só podem ser adquiridos por contratos longos e confusos validados pela sua assinatura.

Infelizmente entendo que isso pode ser um desafio complicado para estrangeiros recém-chegados, sobretudo aqueles que não dominam bem o idioma. Eu e minha família perdemos muito no nosso primeiro ano aqui, por desconhecermos muitas das regras do jogo. Não existem manuais que nos ensinem como lidar com esse oceano de burocracia e papéis e sobretudo, como agir quando nos sentimos lesados.

Mais uma vez, sinto que a ausência de instituições que defendem os direitos do consumidor, acabam por resultar nessa situação. Aqui, mais do que no Brasil, somos todos clientes dependentes de prestação de serviços, mas completamente desamparados por qualquer lei que nos defenda.

Mas nem tudo é tão ruim como parece. Acabou de chegar pelo correio um cheque me reembolsando por um pagamento a mais que fiz na minha conta de água do mês passado e que eu nem sabia. Na maioria das vezes, quando é descoberta a cobrança de valores indevidos, o reembolso é feito rapidamente, sem grandes questionamentos.

Nesse equilíbrio complicado de prós e contras, a gente vai levando a vida e torcendo para que a fatura do celular venha correta no próximo mês!

Até a próxima.

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4 comentários

Pedro Setembro 24, 2017 at 5:50 pm

Acredito que você foi premiada! Talvez. Haha
Pela maneira exposta no texto veementemente, acredito que essa experiência foi única e exclusiva sua.
Seu post deu à entender que os serviços da América são na sua maioria maus prestados; quando na realidade não funciona assim.
Eu e pessoas próximas usamos e abusamos de dezenas de serviços aqui nos US e não temos o que reclamar.
Sim existe taxas, valores às vezes não “entendível”; mas nada que um atendente possa resolver. Diga-se de passagem com muito boa vontade.

Resposta
Gabriela Albuquerque Outubro 3, 2017 at 6:53 pm

Olá Pedro,

Obrigada pelo seu comentário. Acho interessante que a sua experiência tenha sido completamente diferente da minha. Mas não me considero “premiada” não. Pelas conversas que tenho com amigos e conhecidos que vivem aqui há muitos anos, alguns até americanos nascidos e criados aqui, isso é bem comum e essa eficiência toda ainda não é uma realidade, pelo menos na prestação de serviços. Infelizmente!
Abraços,

Resposta
Lorrane Setembro 24, 2017 at 11:06 pm

Ai Gabi, bem me fala. Eu sofro desse mesmo mal. Esses dias descobri que estou pagando uma tal de broadcasting fee pra empresa de TV a cabo. Fiquei irritadíssima. Realmente a falta de uma entidade que ampare o consumidor é algo surreal no maior país do mundo. Mas oh well….

Resposta
Gabriela Albuquerque Outubro 3, 2017 at 6:50 pm

sim Lo…sim. Mas o mais complicado são pessoas que insistem que isso não existe e que defendem a ideia de que aqui nos EUA isso não acontece. Como gostaria que fosse verdade…

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