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Psicologia na Áustria: da graduação ao mercado de trabalho

Existem diferenças bem marcantes no que se refere à formação em Psicologia na Áustria e no Brasil, bem como ao mercado de trabalho. Depois de me deparar com tantas diferenças, decidi juntar todas as informações que colhi durante estes anos aqui na Áustria e transformá-las em um texto para servir de apoio à vocês, queridos leitores! As informações deste texto são apenas relacionadas à área da Psicologia e baseadas em minhas experiências pessoais que tive aqui, incluindo entrevistas de emprego, conversas com os locais, com outros funcionários e chefes de algumas instituições que mantive contato por um determinado tempo.

A graduação em Psicologia na Áustria (bacharelado) dura 3 anos. No entanto, para muitas empresas ter “apenas” o bacharelado não é suficiente o bastante para ser contratado. É necessário completar a sua formação com o mestrado, que dura 2 anos. Temos, portanto, um total de 5 anos de estudo para que sua  formação seja devidamente aceita no mercado de trabalho.

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No Brasil, a graduação em Psicologia (bacharelado) dura entre 4 a 5 anos, dependendo da instituição de ensino. A minha graduação, por exemplo, durou 5 anos. Esta é a primeira grande diferença entre os dois países. A segunda grande diferença que vejo é o conteúdo da graduação. As matérias de um bacharelado aqui na Áustria são, geralmente: História da Psicologia, Psicologia Social, Psicologia do Desenvolvimento, Cognição e Comportamento, Pensamento científico, Avaliação e diagnóstico psicológico. O foco está na área cognitiva e comportamental, na área da pesquisa e no aprendizado do uso e aplicação de testes psicológicos.

No Brasil, a graduação de Psicologia incorpora, além das matérias citadas acima, as disciplinas de diversas áreas da psicoterapia como, por exemplo, Psicanálise Comportamental, Psicologia Analítica e Fenomenologia. A Psicologia e a Psicoterapia se cruzam e se complementam durante toda a nossa formação no Brasil. Os testes que aprendemos a utilizar na faculdade são os testes projetivos, ou seja, testes utilizados na clínica para ajudar a entender o perfil de personalidade do paciente.

Já aqui na Áustria, os testes que os alunos aprendem na faculdade são testes que avaliam as funções cognitivas: atenção, memória, percepção e etc. Costumo dizer que a formação em Psicologia aqui é muito semelhante à pós-graduação em Neuropsicologia que fiz no Brasil. Isso não quer dizer que a formação daqui é mais completa. Muito pelo contrário! Acredito que a nossa formação em psicologia no Brasil é muito mais rica pelo fato de os alunos terem contato com tantas áreas diferentes durante a faculdade: desde pesquisa, a psicoterapia, a neurologia, a psicopatologia até a estatística.

Interior da Universidade de Viena. Fonte: acervo pessoal

Levou um bom tempo para eu me acostumar com o fato de que, aqui na Áustria, a Psicoterapia e a Psicologia não se intercalam e não se complementam, como no Brasil. Lembro que durante 3 anos inteiros da minha graduação no Brasil aprendi sobre Psicanálise. Aqui na Áustria, você só irá aprender sobre Psicanálise ou qualquer outra linha da psicoterapia se você fizer a formação em Psicoterapia – o que vou explicar mais para frente. Resumindo, aqui na Áustria, a Psicologia e a Psicoterapia se localizam no mesmo armário, mas ficam em caixas diferentes, digamos assim.

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Bom, e já que o mestrado faz parte da formação em Psicologia na Áustria, em quais fatores ele se assemelha à nossa formação no Brasil? O mestrado se assemelha bastante aos meus últimos dois anos de faculdade na PUC. É a fase em que o aluno vai aprofundar o seu conhecimento em algumas matérias, que são previamente escolhidas por ele. Além disso, inicia-se a parte prática. O aluno começa a fazer estágios e a ter os primeiros contatos com os pacientes. Tanto no mestrado daqui como nos últimos dois anos de faculdade no Brasil, o aluno vai se aprimorar nas suas matérias preferidas e vai iniciar a parte prática, juntamente com a escrita da tese.

Durante os cinco anos de estudo em psicologia aqui na Áustria, os alunos devem apresentar duas teses: uma de bacharelado e outra de mestrado. Durante os mesmos cinco anos de estudo no Brasil, os alunos apresentam a tese de bacharelado e podem, ou não, optar por fazer um mestrado depois.

Finalizado o tema dos estudos, vamos entrar no tópico seguinte: o mercado de trabalho!

Como é o mercado de trabalho para psicólogos na Áustria? Diferentemente do Brasil, que após a formação em Psicologia você pode simplesmente optar por atender em consultório, aqui na Áustria você poderá, no máximo, atuar na área de “aconselhamento social e de vida” (Lebens – und sozialberatung). Aqui as leis são bastante exigentes, o que acaba restringindo a possibilidade de trabalhar sem antes adquirir algumas especializações e que acaba dificultando a busca por empregos para estrangeiros. Por exemplo, aqui não é permitido nem ao menos a atuação em “Aconselhamento psicológico”, caso você não possua um treinamento específico. Percebo que no Brasil temos um leque muito maior de possibilidades no mercado de trabalho como recém-formados do que aqui.

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Para aumentar as chances de conseguir um emprego na Áustria, você deverá se especializar em alguma área. A área mais valorizada aqui é a chamada “Psicologia clínica e da saúde”. É uma especialização que dura em torno de 2 anos e custa em média 4 a 5 mil euros.

Em 2013 entrou em vigência a lei de Psicólogos que determina as exigências e o plano curricular deste treinamento para Psicologia clínica e da saúde. As seguintes informações foram coletadas no site do Ministério Federal do Trabalho. De acordo com esta lei, para poder exercer a função de psicólogo clínico e da saúde o profissional deve:

  • Possuir diploma de Bacharel e Mestrado em Psicologia (300 ECTS)
  • Possuir uma pós-graduação em treinamento clínico-psicológico
  • Adquirir conhecimentos teóricos no total de pelo menos 270 horas
  • Adquirir competência profissional prática no valor total de pelo menos 2.188 horas, das quais deverão acontecer sob a orientação de profissionais em condições de emprego de pelo menos 2098 horas
  • Supervisão de pelo menos 95 horas
  • “Auto-experiência” (Selbsterfahrung) de mais ou menos 50 horas
  • Pelo menos 500 horas de estágio devem ser completadas ao mesmo tempo que o treinamento teórico.

Após obter esta especialização, o profissional está liberado para atuar em instituições sociais, hospitais, escolas, clínicas, etc. Basicamente, ele poderá – finalmente – atuar como psicólogo! Por um lado, considero muito importante que o governo tenha tamanha exigência com os profissionais de saúde mental, aqui. Afinal, para lidar com algo tão precioso como a nossa mente, é preciso, de fato, muito conhecimento e experiência. Por outro lado, vejo como é difícil para os recém-formados iniciar a carreira e para os estrangeiros conseguirem entrar no mercado de trabalho. As exigências e restrições se expandem, é claro, para a validação e reconhecimento de estudos realizados no exterior.

Um abraço e até a próxima!

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