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Cultura de trabalho, salários e benefícios na Dinamarca

Com tanto site de vagas no exterior pipocando pela Internet em sítios diversos, volta e meia quando o pessoal vê vagas em empresas daqui, comenta nos meus textos ou manda mensagens pelo Facebook, querendo saber como é trabalhar na Dinamarca. Por essa razão lá vou eu tentar explicar pra vocês, leitores da minha coluna, a respeito da minha vivência nesse campo. Quero, antes de tudo, deixar bem claro que minha experiência de forma alguma almeja se sobrepor como uma verdade absoluta; a ideia por trás desse texto é de dar uma noção, de acordo com o que eu conheço, sobre como é ser contratado por uma empresa dinamarquesa, e o que mais ou menos se deve esperar dessa experiência.

A Dinamarca é um país homogêneo e pequeno, o que acaba de certo modo padronizando alguns comportamentos sociais. Isso se reflete também no meio corporativo e, apesar de possivelmente existirem diferenças entre as culturas organizacionais das diversas empresas no país, a essência será sempre a mesma: trabalhe com o grupo e para o grupo, porém de forma individual e independente; comunique-se com seus pares, com seu líder imediato e com as pessoas do seu setor; assuma quando errar ou não souber algo e jamais se envergonhe em perguntar; trabalhe para viver e não o contrário. Essas são algumas das regras subentendidas nesse jogo.

A minha experiência trabalhando numa empresa dinamarquesa é muito diferente das que tive quando trabalhei no Brasil, a começar pela cultura organizacional. O conceito de hierarquia e poder é bem menos acentuado e apesar de haver hierarquia, sinto que há muito mais abertura entre os líderes e seus subordinados do que o que eu encontrava no Brasil. Acho que em nosso país as pessoas parecem ter mais medo do chefe do que respeito por ele, sendo que observo um melhor entrosamento entre as partes na Dinamarca, com uma relação respeituosa e franca de ambos os lados. Enquanto que por lá parece imperar uma cultura do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, por aqui se preza a harmonia no grupo e o diálogo é peça fundamental, e pode apostar que o hygge dá suas caras. As pessoas são vistas mais como seres humanos e menos como máquinas de produção; o horário de expediente dificilmente é ultrapassado, salvo em casos de extrema necessidade. Ninguém te olha torto por deixar para amanhã o que simplesmente não deu pra terminar hoje e a cobrança por horas extras, sinônimo de produtividade no Brasil, por aqui é vista com olhos suspiciosos: trabalhar além do horário não significa necessariamente ser competente. A impressão que tenho é de que, nas empresas daqui, existe uma preocupação holística com o colaborador e as atividades dele com sua família devem estar sempre em primeiro plano. Dito isso, o que me parece é que se a minha filha ficar doente e eu tiver que faltar ao trabalho pra cuidar dela, por exemplo, encontro muito mais compreensão na empresa dinamarquesa, pois sou vista como mãe que naturalmente cuida do bem-estar de sua cria antes de qualquer outra coisa.

Um fato interessante foi a ausência de burocracia na contratação. Assinei meu contrato sem preencher formulários, sem comprovantes de residência ou de imposto de renda nem cópias dos meus documentos e diplomas; e o tal exame médico admissional, tão comum na Terra Brasilis, é proibido por essas bandas por ser considerado discriminatório. As únicas informações que tive que dar além do que estava no meu CV foram o número do meu CPR e meus dados bancários para depositarem o salário. Esse é o nível de confiança que os dinamarqueses depositam nas pessoas.

Acho curioso que, nesses quase 4 anos de colaboração com o BPM, nunca ninguém tenha me perguntado sobre a questão de benefícios nas empresas. As pessoas querem saber de salário e se dá para manter o custo de vida com o que se ganha, mas nunca sobre o que o colaborador tem direito. Acho importante falar disso.

Pra começar, salário mínimo é inexistente na Dinamarca. Então como se determina o mínimo permitido por lei a ser pago pelos empregadores? É aqui que entra o sindicato de categoria ou fagforening, que exerce papel fundamental no mercado de trabalho local. Ninguém é obrigado a se filiar a um sindicato, porém é altamente recomendado que a pessoa se afilie, devido ao suporte oferecido por eles em caso de problemas. Eu diria que é essencial, já que somente quem paga A-kasse tem direito aos benefícios como dagpenge – um tipo de seguro-desemprego -, por exemplo. A escolha do fagforening de sua preferência é livre e desvinculada da empresa, então, há liberdade para estudar o mercado e escolher o que mais se adequa às suas necessidades e bolso.

Quais os benefícios que o trabalhador tem?

Na Dinamarca, vale transporte, vale refeição e cesta básica são desconhecidos. As empresas se abstêm de pagar o seu transporte ida e volta para o trabalho; você é o responsável por encontrar um meio de vir trabalhar todos os dias, pagando o transporte público do seu bolso, pedalando ou organizando uma carona, que pode ser paga. Quando há oferta de refeição na empresa, você também paga do seu bolso um valor mensal para cobrir os gastos com a comida e esse valor é descontado integralmente do seu salário. Nas empresas sem cantina o pessoal costuma trazer madpakke (marmita) de casa, porém tem de ser um sanduíche ou algo prático que dispense aquecimento, já que não existe forno de microondas disponível na maioria das empresas. Almoço de uma hora? Esqueça. A carga horária de trabalho é de 37 horas se você trabalhar direto, sem pausas, mas isso ninguém faz. Com a pausa do almoço de 15 minutos a meia hora – nunca mais que isso – as empresas pedem que se acrescente de uma a duas horas e meia à carga horária semanal, fazendo com que ela passe para até 39,5 horas. Essa meia hora que você usa para descansar e se alimentar é paga por você.

Os benefícios que as empresas podem oferecer são a adesão a um plano de saúde privado, que você paga em geral integralmente, e adesão a um fundo de pensão privado, onde as empresas subsidiam o valor pago. Algumas empresas oferecem outros benefícios como descontos em lojas, casas de espetáculo, clínicas de estética e massagem, compra de oplevelsesgavekort com desconto, etc. Cada empresa oferece seu pacote individual.

Mesmo com tão poucos benefícios é vantajoso trabalhar aqui. Os salários são justos, o sistema de bem-estar social cobre o que faltar e se pode ter uma vida equilibrada mesmo com um salário mais baixo.

Faltou explicar os descontos de imposto de renda, A-kasseAM-bidrag, falar de fradag e dagpenge e detalhar a folha de pagamento, mas esses são assuntos para outro texto.

Para saber mais sobre trabalhar na Dinamarca, leia os meus textos que falam a respeito, aqui e aqui. A Camila também escreveu um ótimo texto a respeito, que pode ser lido aqui. Leia também os sites Work in DenmarkWortrotter e Expat in Denmark se você conseguiu ou pretende conseguir emprego na Dinamarca.

Tallenna

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14 comentários

Simone Outubro 26, 2016 at 8:12 pm

Cristiane, obrigada por esclarecer esse novo universo que em breve espero estar fazendo parte (mercado de trabalho dinamarquês).

Resposta
Cristiane Leme Outubro 29, 2016 at 4:00 pm

Eu é que agradeço por ler e comentar!
Aproveite e dê uma passeada pela coluna, tem muita coisa interessante escrita sobre a Dinamarca, tanto nos meus artigos quanto nos artigos da Camila.
Obrigada e volte sempre! 🙂

Resposta
maria Novembro 29, 2016 at 7:54 pm

adorei saber sobre dinarmacar que pais modelo para todos os outros paizes principamente para o brasil.

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Cristiane Leme Novembro 30, 2016 at 7:19 pm

Que bom que gostou!
Continue nos acompanhando para saber mais sobre a Dinamarca 🙂

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Touché Guimarães Maio 22, 2017 at 8:37 am

oi Cris,

que gostoso saber que existem lugares onde a confiança é fato, não teoria, né? fico feliz por você viver e trabalhar aí. O que me leva a uma perguntinha: o que seria o ‘nosso país’. quando vivemos em outro que não aquele onde nascemos? a pensar, babe. Essa me parece ser uma forma de vinculação ao país de origem que exclui o país que nos acolhe. Ou não? gostaria de te ouvir a respeito.
abraço,

Resposta
Cristiane Leme Maio 22, 2017 at 10:20 pm

Nosso lar é onde o nosso coração está. Entendo o que você quer dizer. Se por um lado o ‘nosso país’ é o lugar onde nascemos e fomos criados, onde passamos a infância e boa parte ou a totalidade da adolescência, o país que nos adota também passa a ser nosso. Criamos relações, estabelecemos vínculos, fincamos raízes. Isso que é o bonito da vida: poder escolher não precisar ter uma escolha 🙂

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Paula Maio 30, 2017 at 7:46 pm

Olá, Cristiane!
Parabéns pelo texto.
Estou cogitando ir para a Dinamarca e estou com dúvida em relação à previdência.
Saberia dizer como funciona a aposentadoria por aí?
Obrigada!

Resposta
Cristiane Leme Junho 1, 2017 at 8:32 pm

Oi Paula. Vamos por partes.
Eu desaconselho vir para a Dinamarca sem planos concretos. O país é bastante desafiador e as políticas migratórias estão bastante desencorajadoras.
Somente cidadãos dinamarqueses têm direito à aposentadoria pública. Há exceção para estrangeiros que tenham vivido e contribuído no país por pelo menos 10 anos antes da idade mínima para se aposentar. Porém, o sistema de previdência daqui é misto e você tem 3 fontes de contribuição. Em breve escreverei mais a respeito mas se quiser adiantar a leitura usando o Google Translate, a página para consulta é essa: https://www.borger.dk/pension-og-efterloen/Folkepension-oversigt/Folkepension/Betingelser-for-folke-og-foertidspension

Leia outros textos sobre a Dinamarca para continuar amadurecendo a sua ideia e tente vir ao país como turista pelo menos uma vez antes de se decidir definitivamente pela mudança.
Abraços e continue nos acompanhando!

Resposta
ismael Setembro 16, 2017 at 8:36 pm

ola gostaria de saber se compensa trabalhar de autonimo na dinamarca quais sao as taxa

Resposta
Cristiane Leme Setembro 17, 2017 at 8:04 pm

Ismael, há leis específicas para quem quer estabelecer firma na Dinamarca e trabalhar como autônomo. Não sei qual o tipo de serviço que você está me perguntando a respeito, então fica difícil dar um direcionamento mais pontual. Sugiro buscar informações no http://www.virk.dk e no wwww.workindenmark.com para saber como proceder. Uma dica importante: pelo menos seu inglês tem de ser afiadíssimo (fluente de verdade) para ter alguma chance de o seu negócio decolar.
Boa sorte!

Resposta
Maichel Deivit Demonti Novembro 18, 2017 at 10:45 am

Oi, achei bem legal seu texto.
Aqui no Brasil, trabalho com manutenção de equipamentos odontológicos. Sabe me informar se por aí na Dinamarca tem demanda para este tipo de serviço?
Abraço

Resposta
Cristiane Leme Novembro 18, 2017 at 1:47 pm

Olá Maichel, a demanda existe mas precisa falar dinamarquês bem para poder se comunicar com os dentistas e protéticos que usam o serviço. Não sei mais detalhes a respeito mas você pode pesquisar no Google usando reparation af tandlægeudstyr como palavra-chave. Os resultados serão em dinamarquês e aí você usa o tradutor pra entender.

Abraços e continue nos acompanhando!

Resposta
Marco Marques Outubro 8, 2018 at 6:47 pm

Parabéns pelo Post Cristiane!!
Apesar de ser uma postagem de 2016… gostaria de saber de você, como Trabalho com Tecnologia e Segurança da Informação, como é o Mercado de TI na Dinamarca?
Grande abraço!!

Resposta
Cristiane Leme Outubro 14, 2018 at 8:58 am

Olá Marco. Obrigada por ler e comentar.
O mercado continua aquecido. Há grandes empresas de tecnologia na Dinamarca e há sempre procura por profissionais competentes nessa área. Outra alternativa é vir pra cá montando uma start-up nesse ramo, mas aí recomendo ler meu artigo sobre como abrir um negócio na Dinamarca para mais detalhes.
Dei outras dicas sobre essa área em comentários nesta e em outras duas publicações minhas sobre trabalho na Dinamarca. Aconselho dar uma lida.
Boa sorte pra você! Abraços

Resposta

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