“Sauditização” e a mão de obra estrangeira

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Fonte: Pexels
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A Arábia Saudita, assim como alguns outros países do golfo arábico, é movida pela mão de obra estrangeira. Serviços, desde os mais básicos, como os de limpeza e construção civil aos mais complexos, como por exemplo, pesquisa e desenvolvimento científico, recebem a mãozinha de um estrangeiro.

Aqui na cidade onde moro, Al Khobar, o negócio é tão forte que praticamente todo mundo fala inglês. Ainda mais por ser um país não turístico, é de se admirar como quase tudo tem tradução para o inglês: embalagens de produtos, placas nas ruas etc. Tudo por conta da grande população de residentes estrangeiros. Algo que não acontece com tanta frequência em outros países famosos por serem destinos turísticos.

Mas, isso tem mudado aos poucos.

De uns tempos pra cá, o governo saudita vem trabalhando pesado para incentivar as empresas a contratarem mão de obra saudita. A taxa de desemprego atual é de 11,6% e eles pretendem baixar esse percentual para 7% até 2030.

Muitos jovens preferem não trabalhar. Muitas mulheres preferem cuidar dos filhos apesar de terem um diploma na mão. Muitos dos que vão estudar fora do país, acabam ficando por lá, não querem voltar.

Aqui, ainda é muito forte o conceito do que cada serviço representa. Todos querem trabalhar no setor público, claro, é um setor que paga bem e tem poucas horas de trabalho. Limpeza, servir comida? É visto como um rebaixamento. Por conta disso, praticamente todos os empregados na área de limpeza são de países pobres da Ásia. Pessoas que vem pra cá ganhar um salário mínimo para sustentar a família em seus países de origem. Restaurantes são dominados pelos filipinos, que preciso dizer que sabem muito bem como atender um cliente. São sempre simpáticos.

Nas áreas mais técnicas, que exigem um grau de estudo mais elevado, temos representantes de quase todos os países nas mais diversas áreas, principalmente nas ligadas ao setor petroquímico. Não é a toa que a maior empresa de petróleo do mundo tem uma mini cidade particular, nos moldes de uma cidade americana, construída especialmente para abrigar os funcionários estrangeiros. Lá dentro, mulher não precisa se cobrir e pode dirigir.

Os esforços do governo saudita não vem do nada. Você lembra o quanto a população brasileira ficou com “medo” quando o país começou a receber e empregar aquele pessoal do Haiti? Então, pense em um país onde a engrenagem que move a economia não é nacional? Principalmente agora, por estarem acordando para o fato, de que precisam diversificar a economia, pois o petróleo não vai gerar riqueza para sempre.

Estima-se que 9 milhões de estrangeiros trabalharam no país no fim de 2015. Só na área de vendas, a mão de obra saudita ocupa apenas um quinto do total, cerca de 300.000 sauditas para mais de 1.5 milhões de estrangeiros empregados nesse setor.

Nisso surgiu o termo “sauditização”. Além das cotas mínimas, alguns setores agora são obrigados a ter mão de obra 100% saudita. Eles precisaram se “sauditizar”. Começou no setor de telefonia, bancos, lojas de aluguel de carros e há alguns dias, surgiu um anúncio de que os shoppings deverão ter somente funcionários saudis. Nem o Uber escapou. Somente sauditas podem trabalhar com o serviço, o que me fez aprender um pouco de árabe, porque nem todos falam inglês.

Nada mais justo um país fazer isso por sua população certo? No entanto, o que nos intriga é o fato de que eles não levam muito “jeito” pra pegar no batente.

Não generalizando, mas o conceito de “atenção ao cliente” não é algo bem difundido por aqui. Nos fóruns e comentários no Facebook, é quase unânime essa expectativa de ver os sauditas, tão acostumados a serem servidos, tendo que servir aos outros, tendo que limpar banheiro de shopping.

Falta treinamento, falta experiência em saber lidar com as pessoas. Não é raro ir a um banco, por exemplo, e ter que esperar eles terminarem de conversar com o colega para te atender, ou terminar de tomar o chá, como aconteceu comigo essa semana. O conceito de tempo para eles é outro.

Aqui não tem o nosso “jeitinho”. Muitas vezes, se o atendente não consegue resolver o seu problema, ele fala que não tem solução e te manda embora, mas você sabe que tem solução sim, passa por outro atendente e ele resolve. Também já vivenciei diversas experiências em que tive informações equivocadas: em uma loja te orientam de uma forma e em outra loja da mesma marca, a instrução pode ser outra.

Essa visão que passei no texto, repito, não é generalizando, não é exclusivamente minha, contudo, vejo e escuto também de muitas e muitas pessoas nesse tempo que estou aqui. Até porque, seria injusto da minha parte, pois conheço e já fui muito bem atendida por sauditas algumas vezes.

O governo saudita está certo? Com certeza, afinal o país é deles, no entanto, falta entender que uma coisa é incentivar os sauditas a trabalhar, outra bem diferente, é obrigar as empresas à contratar sem levar em conta a qualificação e apenas a nacionalidade, por medo de multas.

Se vai dar certo, só o tempo poderá nos dizer embora, considere bem curioso isso que acontece por aqui, com a mão de obra estrangeira.

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