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O sistema público de saúde finlandês – Parte 2

Conforme prometido na primeira parte de meu texto sobre o sistema público de saúde da Finlândia, que pode ser lido aqui, este mês darei continuidade ao tema falando um pouco sobre medicina preventiva para adultos, saúde mental e outras peculiaridades.

Conforme escrevi mês passado, os serviços preventivos voltados para gestantes e menores de idade são muito bons e abrangentes. No entanto, a medicina preventiva para adultos, apesar de boa, não é feita anualmente. Alguns exemplos:

  • Dentista – sempre fui muito bem atendida, já fiz canal e cirurgia de siso incluso, tudo muito bem feito em consultórios bem modernos. Minha crítica quanto a este serviço está na parte preventiva; você só pode fazer avaliação bucal a cada dois anos (parece que agora a cada 3 anos, mas não encontrei fonte para esta informação) e a média de espera para o atendimento é de 3 a 6 meses. Para quem tem dinheiro, aconselho fazer a avaliação anual em um dentista particular e, tendo ela pronta, buscar o serviço público. No caso de emergência, no entanto, basta ligar e você é atendido no mesmo dia.
  • Ginecologista: o preventivo feito aqui é muito completo, feito com o mesmo tipo de espátula usado nas colposcopias, que colhem material do colo do útero inteiro. No exame, o médico sempre pede uma citologia, também. Por conta disso, ele é considerado muito completo e só é feito a cada 5 anos. Há exceções, claro. Nestes casos, o médico determina a periodicidade.

Algo que considero importante mencionar para os estrangeiros: nem todos os médicos e enfermeiras falam inglês e muitos dos que falam, não falam bem. Claro que há exceções, mas é muito comum você ir a uma consulta e o médico se recusar a falar inglês com você. Portanto, caso você não fale finlandês, tente ir ao médico com alguém fluente na língua para te ajudar.

Há muitas críticas por parte dos estrangeiros residentes na Finlândia com relação a isso. Eu mesma, antes de falar o idioma bem o suficiente, senti muita revolta por conta disso. Mas temos que aceitar e colocar em nossas cabeças que não, eles não são obrigados a falar inglês. No Brasil, alguém falaria inglês com um finlandês num hospital público? O idioma nacional da Finlândia é o finlandês e um profissional pode não se sentir seguro em passar informações a um paciente em outro idioma. Outro fato importante a ser mencionado: a Finlândia tem poucos médicos para a demanda de pacientes, muitos vêm da Rússia e da Estônia e, para poderem ter seus diplomas validados e licença para clinicar aqui, são obrigados a falar o idioma fluentemente, apresentando resultado C1 (avançado) no exame nacional de língua. Esses profissionais normalmente não falam inglês mesmo.

Minha dica: escreva frases curtas em inglês no tradutor do Google, explicando seu problema (as traduções pelo Google do português para o finlandês são horríveis, pois o banco de dados é muito pequeno). Ao ligar para o posto de saúde, antes de dizer as frases à enfermeira, diga que não fala finlandês e que precisará que ela fale muito de vagar para que você anote. Escreva as informações que ela te der do jeito que você entender, pelo som. Se você puder mostrar o que escreveu a um finlandês, ele provavelmente entenderá, pois no idioma a fala é praticamente igual à escrita. Na área metropolitana de Helsinque é possível conseguir atendimento telefônico em inglês.

Apesar de estar satisfeita com o sistema público, eu tive que fazer algumas adaptações à minha própria conveniência. Por exemplo: faço a revisão bucal anualmente e pago por isso em dentistas particulares. Se eu estiver realmente insegura com relação a algo em minha saúde e não conseguir que o clínico geral me envie a um especialista, pago uma consulta particular e peço ao clínico geral que me encaminhe a um especialista público, se ele julgar necessário. Não é barato, mas tampouco é o fim do mundo. É possível pagar entre 60 € e 80 € por uma consulta.

Saúde Mental

A parte do sistema público de saúde que eu considero realmente lenta e ruim é a voltada para a saúde mental. Apesar de nos últimos anos as estatísticas mostrarem que tenha havido melhora, em minha opinião pessoal, eu diria que ainda precisa melhorar bastante. Não sei se há muito poucos psiquiatras por aqui (acredito que este seja um dos porquês), mas o serviço é ineficiente para um país que enfrenta a depressão e o alcoolismo a níveis altos.

De acordo com o sítio oficial de estatísticas da Finlândia, apesar de o número de suicídios ter caído 30% na última década, essa ainda é a maior causa da mortalidade entre jovens com menos de 25 anos de idade. Dentre todas as pessoas que cometem suicídio, uma em cada dez tem menos de 25 anos, e 3 em cada 4 são homens. Em toda a Europa, apenas a Letônia e a Lituânia possuem números maiores do que os finlandeses em suicídio de jovens. Leia mais aqui.

http://www.stat.fi
http://www.stat.fi – mortes por suicídio de 1971 à 2014 a cada 100 mil pessoas.

Estou longe de ser uma especialista no assunto, mas posso dividir com vocês uma história real:

Pessoa A: sofre de depressão grave

A “pessoa A” sempre sofreu de depressão mas, a partir de 2011, o problema começou a se agravar. Aconselhei-a várias vezes a buscar ajuda, pois a doença não permite que trabalhe ou estude – acredito que haja um algo mais ali, não diagnosticado, além da depressão.

Minha grande surpresa quanto ao “resultado” dos primeiros tratamentos, é que a pessoa não foi indicada a um psiquiatra pelo clínico geral do posto de saúde. Foi o próprio clínico quem receitou um antidepressivo após a pessoa fazer um teste de múltipla escolha, em que pela análise das pontuações (sistema parecido com os testes de revista), o resultado pode ser “com depressão” ou “sem depressão”. A instrução recebida foi a seguinte: “tome o remédio e volte em um mês para refazermos o teste”. Depois de um mês o teste mostrou melhora considerável e a pessoa precisou voltar depois de dois meses. E assim foi, até que ela desistiu de fazer o tratamento, pois só a medicação não estava resolvendo. O médico perguntou se a pessoa queria ver um psicólogo, mas deixou claro que este serviço seria pago. Por ser desempregada, a pessoa recusou e não recebeu nenhuma orientação sobre a possibilidade de ter o sistema social pagando pelas consultas.

Essa história vem se arrastando até hoje, 2016, quando depois de centenas de idas e vindas ao escritório do departamento social, departamento de emprego e no próprio KELA, finalmente foi autorizado o tratamento com um psiquiatra com ajuda do governo. Essa pessoa teve força para esperar 5 anos, mas muitas não têm.

É claro que há diversas histórias. Como expliquei no texto anterior, o sistema não possui equidade em qualidade. Pode haver serviços excelentes em determinado lugar e ruins em outros. Pode ser que a pessoa do meu exemplo tenha tido azar, mas eu continuo achando que o sistema deixa a desejar nesse quesito.

Para finalizar, colocarei uma média de preços. Mas lembre-se: não adianta converter para o real, pois a realidade daqui é muito diferente. Para uma comparação mais realista, considere os preços como se eles estivessem na moeda brasileira (ex: 10 euros = 10 reais):

O governo estipula um valor máximo para cada tipo de serviço, mas alguns municípios cobram valores menores do que estes:

  • Consulta médica: 20,90€
  • Emergências hospitalares: 28,70€
  • Serviços policlínicos, por ex.: ultrassonografia: 41,70€
  • Cirurgia: 136,80€
  • Diária no hospital: de 49,50€ a uma porcentagem da renda do paciente, no caso de internações muito longas.
  • Diária em hospital psiquiátrico: 22, 80€ ou o mesmo mencionado acima.
  • Tratamentos em série ou contínuos, como diálise, radioterapia, tratamento citostático e reabilitação médica: 11,50€ por sessão. Alguns tratamentos são gratuitos e para os em série, que são pagos, você só paga até um determinado número de vezes por ano (entre 10 e 14).
  • Terapia de reabilitação: 17,10 euros (neste caso, menores de idade devem pagar, mas são cobrados somente pelas 7 primeiras vezes).
  • Caso você falte sua consulta sem justificativa aceitável, pagará uma multa de até 51,40€.

Dentista – depende do tipo de tratamento, pois cada procedimento é pago. Os valores médios de alguns serviços são:

  • 30 €: avaliação bucal
  • 7 €: radiografia simples
  • 15 €: radiografia da arcada dentária completa
  • 45 €: limpeza de tártaro
  • 6,50 €: anestesia
  • mínimo 15 € e máximo, 45 €: obturação
  • canal: 45 €
  • extração: 30€
  • extração cirúrgica: mínimo 43 € máximo, 65 €

Outros serviços:

  • Assistência médica por telefone: vá no site da Central de Saúde de sua cidade, clique em “emergency services” (ensiapu ja päivystys) e depois em “health counseling” (terveysneuvonta). Você verá o número de telefone e as opções fora o horário de expediente.
  • Acesse o site Finland Info Pankki para obter informações sobre os números de emergência.
  • O número de emergência geral é 112 e as ambulâncias chegam muito rápido.

 

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Maila-Kaarina Rantanen

Mestrado em Educação na Universidade de Oulu, na Finlândia

Beatriz Guedes

9 comentários

Juliana Tavares Junho 25, 2016 at 11:15 pm

Interessante a respeito do sistema público. Realmente, se não souber pelo menos o que falar em finlandes para o profissional, eu acho que fica um pouco difícil.. Fiquei-me imaginando, a pessoa vai falar em ingles e o profissional vira e fala em finlandes,,,, deve ser engraçado,,,, ><

Resposta
Lilian Hostyn Riippa Junho 27, 2016 at 2:32 pm

Uma vez mais, excelente trabalho Maila-Kaarina, o que me surpreendeu é ver que o sistema finlandês não é muito diferente do nosso, uma pena!

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Rod Junho 28, 2016 at 9:48 am

Olá Maila! Quando mencionaste os médicos extrangeiros veio à minha mente um problema muito sério e recente que temos visto nas notícias (em particular com a Russia). O de diplomas de faculdades médicas Russas sendo forjados ou mesmo emitidos legalmente em troca de avantajadas somas de dinheiro. Inclusive um desses falsos médicos acabou por causar a morte de vários pacientes finlandeses…é sempre bom investigar…sobre os médicos Finlandeses e o Inglês, mesmo vivendo vários anos na Laponia distante minhas experiências não poderiam ser melhores, realmente existem médicos mais idosos que falam mal inglês, mas a maioria dos que me atenderam tinham menos de 50 anos e falavam muito bem inglês. Em um ou outro episódio, quando me viam falando com dificuldades palavra por palavra em finlandes eles próprios tomavam a iniciativa de dizer “I speak english if you feel more comfortable talking in english “…Tambem pagamos menos de 200 Euros por uma semana de estada na Maternidade para 3 pessoas…de 0 a 10 dou 9 à medicina daqui em comparaçao à do Brasil ou mesmo sul da Europa…

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Maila-Kaarina Rantanen Junho 28, 2016 at 10:00 am

Olá Rodrigo,
Muito obrigada por dividir sua experiência com seu comentário. Fico feliz em ouvir experiências boas, pois tenho certeza de que há muitas. Essa questão do inglês realmente é um fator de sorte, quando vivi em Kouvola, jamais médico algum falou comigo em inglês. Na área metropolitana de Helsinque, onde moro hoje em dia, vários médicos falam. Agora que falo finlandês isso ealmente não é mais um problema para mim, mas conheço várias pessoas que passam por problemas por isso. Tive experiências ruins na área de clínica geral, no entanto, com médicos especialistas, durante minha gestação, parto e pós-parto, só tenho elogios a fazer. Também sempre tive sorte com os dentistas. Um abraço!

Resposta
Rod Junho 28, 2016 at 12:01 pm

Pois é Maila verdade que algumas pessoas tiveram mas experiências…mas depois de viver aqui vários anos tenho percebido que os estudantes que cursaram Lukio tem mais e mais domínio de ingles em comparação aos que fizeram apenas algum curso técnico, ou curso nenhum…e mesmo na área da saude hoje em dia existem cursos especificos pra interagir com pacientes de outros países. Minha esposa por exemplo que é enfermeira teve um curso de atendimento ao paciente em inglês e outro em sueco assim penso que os dias dos medicos que não falam outro idioma estão chegando ao fim quando essa geração mais velha se aposentar…

Resposta
Patricia Julho 11, 2016 at 7:23 am

Bom dia

Bom dia Maila, muito bom o seu texto.
Sou uma profissional Fisioterapeuta brasileira querendo ir para aí em busca de uma oportunidade de trabalho, você tem como me passar alguma informação ou contato para que eu aprofunde minha busca? Falo inglês fluente (já morei na Inglaterra por 3 anos) e tenho mais de 10 anos de experiência na minha área.
Agradeço desde já sua atenção.
Abraços e felicidade.
Pat

Resposta
Maila-Kaarina Rantanen Julho 13, 2016 at 11:10 am

Olá Patricia,
Muito obrigada por sua mensagem, fico feliz que tenha gostado do texto.
Minha dica para você é que leia meu texto sobre “O que é necessário para se obter visto de trabalho”(http://www.brasileiraspelomundo.com/finlandia-o-que-e-necessario-para-se-obter-visto-de-trabalho-091015930), pois disponibilizei diversos links importantes para pesquisa nesse artigo, inclusive, um sobre validação de diplomas.
Um abraço,
Maila

Resposta
Emilt Freitas Maio 15, 2017 at 10:29 am

Como funciona, plano dentário para, por exemple, aparelho ortodontico?

Resposta
Maila-Kaarina Rantanen Maio 15, 2017 at 10:50 am

Olá,
Não existe plano dentário na Finlândia. Aparelho ortodôntico tem que ser feito com um dentista particular. No caso de ser constatado que a pessoa a usar o aprelho necessite dele por uma necessidade física grave, o sistema público paga uma parte dos custos. No caso de o uso do aparelho ser somente para fins estéticos, a pessoa deve arcar com todos os custos. Pode ser que algum consultório particular ofereça algum tipo de plano, mas não existem empresas de plano de saúde e dentário como no Brasil.

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