Solidão, solitude e adaptação no exterior

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Foto: Acervo pessoal
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Solidão, solitude e adaptação no exterior.

Quando se vive sozinha, há um demônio que nos assombra e um anjo que nos consola. O demônio é a solidão e o anjo é a solitude. A solidão é mais famosa e difamada. Traz uma sensação de vazio, de achar que estamos desamparadas e perdidas em um país novo. Há pessoas que dizem ser possível curtir a solidão. Na verdade, elas estão se referindo a solitude. Solitude é a quando se encontra a paz estando a sós. Eu entendo que é quando eu me encontro comigo mesma. Como se eu me convidasse para tomar um café e conversar sobre a vida. Podemos ter momentos de solitude ao meditar, andar na natureza, ou sozinha no quarto ouvindo um álbum de música favorito. 

A solitude foi (e é) importante na formação do meu caráter. Eu tenho facilidade para fazer amigos e participo de vários grupos sociais. Porém, desde pequena, eu sempre gostei de ter um tempo para mim. Na minha solitude eu reflito sobre minhas ações e comportamento. Também faço questionamentos pessoais que me ajudam a saber o que realmente espero da vida.

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Morar no exterior nos oferece uma chance de se reinventar. Principalmente para as mulheres que são cobradas para serem boas mães, funcionárias, esposas e donas de casa. E ainda temos que manter uma pose linda em cima do salto. Mas às vezes, nos cansamos de tentar entrar nos padrões de uma sociedade tradicional. Ao mudar de país, nos expomos à nova cultura que traz valores e costumes diferentes da nossa terra natal. 

Quando eu mudei para o exterior sozinha, pensei em tudo que eu queria mudar na minha vida. Afinal, eu não teria família e antigos amigos por perto que já estão acostumados com meus hábitos e personalidade. Reinventar-se significa mudança e mudar não é tão simples. Toda vez que me mudava para uma cidade nova eu pensava naquilo que podia melhorar em mim. “Agora vou estudar mais, ser fitness, focar na carreira e construir novos círculos sociais.”

Mas a verdade é que na maioria das vezes não conseguimos cumprir todas as nossas promessas de mudança. E começamos a perceber quais atitudes temos mais facilidade e mais dificuldade de ter. Então, por que mudar? Queremos ser pessoas melhores pelo nosso bem-estar e nossa saúde? Para agradar os outros? Ou simplesmente pelo fato de poder mudar?  

Antes de morar nos EUA, eu nunca me preocupei muito em definir minha identidade, meu caráter e meus valores. Mas aqui as pessoas são muito cobradas em demonstrar quem são, suas qualidades e interesses. Por exemplo, eu tenho um casaco de moletom com um dinossauro e coroa do Basquiat. Ele foi um dos pioneiros na arte do grafite nos EUA. Eu amo o casaco e uso com bastante frequência. A professora de Artes da escola em que trabalho sempre puxa assuntos sobre Basquiat. Ela acha que sou apaixonada pela arte dele porque comprei o casaco com a estampa do seu trabalho. Eu gosto de Basquiat, mas eu gosto mais do meu casaco e comprei porque achei bonito.

Eu também tenho uma paixão por adesivos. Se eu simpatizar com a ideia e achar o design interessante, colo adesivos no meu computador, garrafa d’água, janela, bicicleta, etc. Meus amigos americanos me informaram que só usam um adesivo se aquilo representar bastante o seu ponto de vista.

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Acredito que não há nenhuma outra cultura que se importe mais em manter uma boa aparência do que a brasileira. Mas eu acho os americanos são mais preocupados em transparecer as suas ideologias. Aqui, as pessoas são registradas para votar de acordo com a orientação política (democratas ou republicanos), em todos os formulários devemos indicar nossa raça, as pessoas falam publicamente quanto recebem por ano ou quanto ganham por hora. Ou seja, a maioria dos americanos tem muita convicção de seus ideais (ou pelo menos acha que tem). Eu sei que não preciso ter total certeza de quem eu sou, mas por viver aqui, frequentemente sou cobrada a ter uma opinião formada sobre tudo. Então, comecei a pensar mais sobre a minha representatividade.

Viver longe do meu país me trouxe um maior autoconhecimento. Quando paro para pensar em tudo que mudou em minha vida, posso sentir saudades do meu antigo eu, ou mergulhar na nova vida. Hoje sei que posso mudar hábitos sem perder a minha essência, que posso me reconstruir através de novas experiências, que posso conviver bem comigo e me aceitar. O amadurecimento traz mudanças. E as melhores são aquelas que desenvolvem as melhores qualidades e suprimem os piores defeitos. As decisões mais sensatas são feitas em momentos de solitude e não de solidão. A solitude traz respostas para questões que a rotina nos inibe de observar. Ficamos com a mente muito ocupada nos adaptando aos novos costumes. 

Cabe a nós decidir como vamos preencher o nosso tempo a sós. Pensamentos negativos e falta de esperança são o caminho para a solidão. O caminho da solitude é mais difícil, pois ele inclui autoaceitação e paciência, contudo, nos ensina que estar sozinha e conseguir conviver consigo mesma é uma benção.

3 Comentários

  1. Lindo texto querida!! A vida é mesmo desafios, surpresas e aprendizado! Desejo que sua mensagem ajude as pessoas que se sentem solitárias a focarem em momentos de solitude e não de solidão! Lembrei de você hoje, conversando com Zanetti, do jogo do Brasil na Copa de 2010 que assistimos lá em casa! Saudades!! Beijo! Nat

  2. Belo texto, Lorena! Apesar de viver no país que nasci, sei bem o que são esses anjos e demônios… Muito bem colocados por você, assim como a posição da mulher brasileira na nossa sociedade. Parabéns, mocinha!!!

  3. Adorei o texto! Aprendi a valorizar meus momentos de solitude, são muito especiais. Principalmente quando se há tanta coisa nova para aprender quando se muda de país.

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