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Tem carnaval no Peru?

Aos que vêm de férias ao Peru e aos que vivem aqui, fevereiro é um mês de festa, mais precisamente, de carnaval. Mas, tem carnaval no Peru? Claro que sim, só que não do jeito que vocês imaginam.

A única coisa em comum entre o carnaval do Brasil e o do Peru, é a animação e a alegria dos foliões, nada mais.

Cada região tem um tipo de carnaval diferente, mas os das cidades de Cajamarca e Apurímac se destacam.

Cajamarca fica ao norte do Peru e é conhecida como a capital do Carnaval Peruano. Lá o carnaval começa com o “despertar” do Ño Carnavalón, um personagem da cultura aymara que representa a alma dos carnavais andinos e que, com seu “desenterro”, revive os espíritos dos nossos ancestrais.

Como assim “desenterro”? Explico. No sábado, Ño Carnavalón (que seria como o rei Momo no Brasil), entra na cidade com seus seguidores em “Patrullas y Comparsas”, que são os carros alegóricos acompanhados por bandas, ao invés de bateria de escola de samba.

No domingo, acontece o desfile das “Patrullas y Comparsas” para que a comunidade os conheça. Aqui, as pessoas brincam jogando água e talco umas nas outras.

Na segunda-feira, o dia central do carnaval, acontece o concurso das “Patrullas y Comparsas” na praça central da cidade (Plaza de Armas), onde os jurados escolherão as melhores, e onde também se escolhe a melhor fantasia do carnaval. Mais de 70 carros alegóricos participam do desfile que dura em torno de 5 horas, e o Ño Carnavalón acompanha tudo de perto e em destaque.

Na terça, chega o dia da “morte” e o velório do Ño Carnavalón, onde conhecemos as viúvas dele. Sim, viúvas, as várias mulheres com quem Ño se relacionou durante o carnaval, e todas choram em seu ataúde (e disputam a herança, é claro).

Na quarta (quarta-feira de cinzas), acontece o enterro de Ño Carnavalón, celebrado nos “Baños del Inca”, quando o povo se reúne para ler o testamento de Ño, onde ele deixa os bens mais impensáveis e sarcásticos para as autoridades e personagens da cidade, um espetáculo bastante divertido. Apesar do tom mórbido, é bem alegre. O caixão de Ño é decorado com flores, balões, serpentinas, e as pessoas fazem suas oferendas, colocando frutas e cervejas, tudo isso regado a muito álcool e música. Em seguida, queimam os restos mortais do Ño Carnavalón. Cabe ressaltar que o Ño é representado por um boneco durante todo o carnaval.

O enterro de Ño Carnavalón representa um adeus a todas as más energias e ao passado. As cores, simbolizadas através das flores e serpentinas, significam o nascimento. As frutas e outras oferendas são para que tudo venha em abundância no ano seguinte. Ah, os espíritos que “despertaram”, também voltam para seu descanso, mas só até o próximo carnaval.

Ño Carnavalón também é celebrado em outas cidades como Ayacucho, Arica, e outras.

Saindo de Cajamarca vamos a Apurímac, onde o carnaval T’ikapallana foi declarado como Patrimônio Cultural da Nação em 2014, típico da região de Cotabambas.

T’ikapallana vem do quéchua e significa colheita das flores, e é realizado há centenas de anos, com o fim de reafirmar seu amor pela terra.

Essa época coincide com o período de chuvas na serra do país, e por isso é tão importante para a população, pois são realizados rituais de propiciação do gado e da agricultura na região. Um desses rituais é a t’inka, que consiste em uma oferenda feita aos apus, os deuses das montanhas, pedindo a multiplicação dos produtos agrícolas e dos animais, e também pedindo permissão para a realização da festa.

No domingo de carnaval as autoridades da cidade inauguram a festa com uma espécie de desfile e, em sua comitiva, estão personagens burlescos como os waylakas, que são homens vestidos de mulheres de forma exagerada, parodiando a suposta falta de elegância e feminilidade dessas “mulheres”.

Na segunda-feira, seguindo a tradição, os mais jovens dão início al Hatun Pukllay, onde vão em busca da exótica flor surphuy, muito requisitada para se fazer a consagração à terra em cada lar. Como a flor só cresce em lugares místicos e em altitude, os mais jovens de cada vilarejo são os encarregados de buscá-las. São 4 horas a cavalo subindo a 4,000 metros de altitude, desde Tambobamba a Porotopampa. Este também é o período para encontrar o par ideal, mais conhecido como pukllay (ou puqllay).

Na terça-feira, acontecem as competições amistosas: a warak’anakuy, onde dois grupos opostos se enfrentam e suas “armas” são vegetais; o p’aki, onde dois homens se enfrentam com cotoveladas e socos nas coxas, ou o seq’ollunakuy em que os dois lutam, mas utilizam toalhas molhadas como armas. O objetivo? Chamar a atenção de alguma moça solteira.

No último dia acontecem corridas de cavalos (sara t’inkay), onde cada família exibe o seu e há uma premiação em dinheiro para o ganhador da corrida. Também acontecem as yunsadas: enfeitam árvores com balões, serpentina, objetos brilhantes e chamativos e oferendas, os jovens dançam ao redor dessas árvores por horas, jogando água e talco entre si. Os  participantes vão cortando os galhos da árvore e recolhendo os enfeites que vão caindo. O baile acaba quando a árvore é finalmente derrubada. O casal que derrubar a árvore ganha o concurso (que, pra mim, deveria ser plantar outra árvore).

Em Lima, o carnaval é bem mais contido. Em bairros como Barranco, as pessoas saem às ruas, acompanhadas por uma banda e brincam de jogar água, talco e tintas uns nos outros. Realmente é mais contido e menos simbólico do que os carnavais de Cajamarca e Apurímac, mas, mesmo assim, também é bem divertido.

E você, qual desses carnavais prefere?

Aqui eu falo um pouco sobre danças que são parte dos carnavais de Huancayo e de Puno.

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