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Trabalhar nos EUA e a vida dos workaholics

A idéia de vir trabalhar nos EUA aconteceu de forma natural devido ao fato de eu sempre ter gostado de viajar e conhecer novas pessoas, países, culturas, etc. Antes de mudar para o Missouri, eu trabalhava em uma missão diplomática no Brasil e, por isso, a rotina profissional com estrangeiros não era algo novo pra mim.

Soube da vaga através de uma amiga. Mandei o CV, cartas de intenção e recomendação, fiz entrevista (por telefone mesmo) e depois de algumas semanas fui contratada para ser Coordenadora Geral do Departamento de Relações Internacionais numa empresa de marketing esportivo.

O processo em si não foi tão demorado como muitas pessoas imaginam, questão de três meses. O problema são os inúmeros formulários que precisaram ser preenchidos e assinados, tanto pelo empregador quanto pelo empregado. Confesso que fui preguiçosa e contratei um despachante para cuidar de toda essa parte burocrática. Foi ele quem preencheu os meus formulários (passei as informações necessárias para ele via e-mail), marcou entrevista no consulado, etc.

Recebida a documentação necessária para tirar o visto que me dava autorização de trabalho, fiz a entrevista no Consulado americano para obter o visto, e 15 dias depois mudei pros EUA.

De acordo com a minha experiência, trabalhar aqui é definitivamente diferente. Os americanos são metódicos, extremamente profissionais e objetivos. Aprendi a ser mais direta, ousada e agressiva profissionalmente falando. Vi como é o verdadeiro mundo do business. Porém, me tornei mais impaciente. Aqui realmente tempo é dinheiro. Ninguém tem tempo de perder tempo, principalmente em tempos de crise econômica.

Muitas vezes preciso me policiar para diminuir o ritmo de correria, que sempre me acompanha (inconscientemente) até nos fins de semana. Já perdi as contas de quantas vezes fui ao mercado em um sábado à tarde e fiz compras correndo, esquecendo que eu estava de folga e não precisava ter pressa alguma.

 

A rotina no escritório inicialmente foi complicada por vários motivos. O primeiro foi o idioma. Fui contratada para trabalhar na filial de uma empresa alemã localizada nos EUA. Minhas entrevistas e e-mails trocados no período pré-embarque foram em inglês, e eu vim achando que o meu dia a dia seria em inglês, mas o sistema da empresa era praticamente todo em alemão. Resultado: aprendi alemão (básico) na marra.

Também houve choque cultural. Alemães são extremamente frios (se comparados a brasileiros), profissionais (daqueles que não dão uma espiadinha no e-mail pessoal nem na hora do almoço sabe?), e muito sinceros. Do tipo “sem filtro”, que fala sem rodeios o que pensa. Se algo está bom, está bom, mas se não está, eles vão dizer na sua cara que está horrível, sem “jeitinho” e sem remorso. Por mais que dissesse pra mim mesma que era uma questão cultural, admito que no começo os achava um tanto mal educados.

Outra diferença é o workaholism. É impressionante o número de workaholics nesse país. Eu já tinha lido sobre o termo, sabia o significado, mas nunca tinha visto de perto o que é um verdadeiro workaholic.

Os americanos em geral vivem para o trabalho. Se você pensa em trabalhar aqui esqueça suas duas horas de almoço, os inúmeros feriados do Brasil, horas extras sempre pagas, licença maternidade de 4 meses, férias anuais de 30 dias, e décimo terceiro salário.

Muitos americanos fazem apenas um lanche durante o almoço na frente do computador, e não se incomodam de te passar o telefone com um cliente do outro lado da linha enquanto você está com boca literalmente cheia de comida! Se você não quiser passar por isso, meu conselho é: almoce fora do escritório.

Feriado aqui são poucos: Memorial Day, (dia dedicado aos veteranos de guerra), Independência Americana, Dia do Trabalho (celebrado em setembro), Dia de Ação de Graças, Natal e Ano Novo. As escolas têm mais dias de folga do que as empresas, mas isso é assunto para outro post.

A maioria das empresas aqui paga entre 10-15 dias anuais de férias, e em 80% dos casos você será desencorajado a tirar férias. Se conseguir suas férias elas dificilmente serão muito longas. E no quesito licença maternidade, aqui mamães, vocês terão 6 semanas. Se quiser mais do que isso você terá que negociar.

foto 5

Horas extras nem sempre são pagas. É comum que muitos americanos trabalharem 10 horas por dia, principalmente profissionais jovens como eu. A ideia aqui é a seguinte: “enquanto tiver trabalho pra ser feito, não vá para casa”.

Desde o começo fui bastante relutante nesse aspecto. Se sou paga para trabalhar 8 horas por dia, não me sinto na obrigação de trabalhar 10, e até hoje só faço hora extra se for questão de emergência! Acredito que funcionário constantemente esgotado não é funcionário produtivo. Que pena que eles não pensam assim. Ces´t la vie…

Por fim, o 13ᵒ salário. Este geralmente vem em forma de bônus. Não é exatamente um salário. É um valor simbólico que a empresa paga no fim do ano para os funcionários. Isso varia muito de empresa pra empresa, algumas pagam mais, outras menos. O fato é que aqui o pagamento do décimo terceiro salário não é obrigatório por lei, assim cada empresa paga quanto quer, e tem algumas que pagam absolutamente nada.

Esses pontos mostram como trabalhar nos EUA pode ser diferente, principalmente para nós brasileiros que não abrimos mão de nossas folgas. Não é o “mar de rosas” que muitos brasileiros teimam em achar que é. Lembre-se, cada caso é um caso. Pode ser que você venha pra cá e trabalhe em uma empresa que te dê muitos benefícios, ou em uma típica Corporation, onde o termo workaholic fala mais alto.

De uma forma ou de outra sempre há algum tipo de aprendizado. E aí? Topa vir conhecer o mundo dos workaholics?

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9 comentários

Marcia Junho 29, 2014 at 1:22 pm

Muito bem escrito seu texto. Gostei muito! Meu filho tambem esta querendo seguir essa carrera. Moramos aqui nos Eua a mais de 15 anos. Abracos.

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Lorrane Campos Junho 30, 2014 at 1:27 am

Oi Marcia! Obrigada pelo elogio ao texto. A carreira é interessante. Diga ao seu filho que como todas as outras carreiras, essa tem um lado bom e um ruim, mas eu gosto mesmo assim!!! O importante é estarmos felizes né? Beijo grande

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marigoncalves2014 Junho 29, 2014 at 3:53 pm

Oi Lorrane! Que interessante saber como é o trabalho aí nos EUA. Eu moro na Áustria, e aqui se trabalha bem menos que no Brasil, e tem tanto ou mais feriado que lá. As pessoas nao vivem pelo trabalho, mas pelo lazer. Férias é algo essencial, e nao só ganham 13o, como tb 14o, salário, esse no verao, para poderem usar nas férias! Fiquei impressionada com tudo isso, e já fico pensando se vou me acostumar ao ritmo “mais puxado” que temos no Brasil, quando comparado com o daqui…
Beijos e tudo de bom aí nos EUA!

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Lorrane Campos Junho 30, 2014 at 1:35 am

Oi Mari! Pois é, como eu escrevi no texto, talvez nem todo mundo tenha experiências como a minha, acredito que tenham empresas que possuem mais benefícios que outras, mas o que escrevi é a realidade da grande maioria. É bom saber que aí na Austria é diferente daqui. Quem sabe não me mudo pra aí? Haha! Abraços!

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Joy Matta Julho 1, 2014 at 5:58 pm

Bom, fica cada vez mais claro que o “american dream” é construído com base à muito sangue, suor e lágrimas… eu, agora que sou mae, nao creio que poderia me adaptar à esse nível de correria mais, nao… Mas pra quem está começando, é uma ótima forma de crescer e aprender 😉 Adorei o texto!

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Lorrane Campos Julho 1, 2014 at 6:11 pm

Oi Joy!
Eu sinceramente não acredito muito nessa história de American Dream. Talvez ele tenha existido há algumas décadas atrás, mas hoje em dia a realidade americana mudou muito, e estamos longe viver um sonho por aqui. Ainda há muita coisa boa sem sombra de dúvidas, mas com certeza os tempos são outros… Obrigada pelo comentário. Grande abraço!!!

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fabiana mesquita Julho 2, 2014 at 1:28 pm

Menina, é bom você passer uma temporada na àsia para recuperar um pouco do low profile…rs lá e o oposto dos estados unidos…hehhe Não corra demais para não se estressar muito. Você é jovem e com a vida pela frente. Não deixe de aproveitar as coisas boas da vida 🙂

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Livia Outubro 15, 2014 at 4:20 pm

Olá, Lorrane!

Adorei o texto! Você ficou sabendo da vaga através de uma amiga. Existe alguma outra forma de visualizar vagas disponíveis para se trabalhar nos EUA? Um site ou portal talvez?

Obrigada!

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Lorrane Campos Outubro 18, 2014 at 2:51 am

Oi Livia,

Muito obrigada pela mensagem.
Bom, existem alguns sites sim, o indeed.com, por exemplo, é um deles. Lá você pode selecionar a área de emprego e a região que deseja trabalhar, mas é um website bem vago na minha opinião. É tipo classificados online. E lembre-se: existem muitas exigências e restrições que se aplicam a nós estrangeiros na hora de sermos contratados para trabalhar no exterior. O bom mesmo é você ficar de olho nos sites de empresas que contratam estrangeiros, como a Nestlé, Monsanto, IBM, Google, etc, e ver as vagas que estão disponíveis.

Existem também agências funcionam como “sponsors” para o visto de trabalho. Uma delas é a Cultural Homestay International. Sei que existem outras, mas não as conheço. Elas te ajudam a encontrar um emprego no exterior, mas você precisa pagar pelo serviço. Espero ter ajudado. Boa sorte! Abraço

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