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Tradição x inovação na China: os dilemas da nova geração

Tradição x inovação na China: os dilemas da nova geração

Vocês talvez imaginem a China como eu imaginava, como o Google mostra nas pesquisas e nas imagens… Ela tem um pouco disso mesmo, mas isso está longe de traduzir a essência do povo chinês, que mesmo em 2018 com a globalização já escancarada nas nossas vidas, com tantas possibilidades e facilidades, ainda consegue se manter ultra fiel às tradições.

A instituição da família chinesa é muito poderosa, controladora e até os jovens mais modernos, viajantes e mais antenados com o mundo lá fora, seguem rigorosamente. É o caso dos relacionamentos, por exemplo. Por aqui as meninas não saem para a balada com as amigas, nem com 25 e muito menos com 18 anos! Elas são encorajadas a conhecerem seus namorados e futuros maridos ainda no colégio ou na faculdade, porque são períodos de maior interação entre os sexos. E se esse tempo passar e elas ainda não tiverem conhecido ninguém cuja família esteja disposta a lhe dar uma casa x, carro y e outras exigências, será cada vez mais difícil.

Muitas vezes as famílias recorrem às tradicionais feiras de casamento (eu conheço meninas que se casaram assim, sem nunca terem tocado no marido antes do casamento). Os pais não deixam as filhas menores de 21 anos namorarem, saírem com o namorado, etc. O lugar de uma menina de 20 anos é na escola, dizem os pais.

Para nós ocidentais, é muito mais simples conhecer gente, fazer amigos, possíveis namorados… Ressaca é algo que a maioria das meninas de 18 anos já teve, e todo mundo conhece alguém que engravidou sem querer. Nossas famílias são muito mais abertas, e nós “testamos” mais essa história de amor até encontrar alguém especial e resolvermos nos casar, normalmente por amor, o que para os chineses soa como um absurdo.

Trabalho com mulheres de 28, 29 anos que nunca namoraram e portanto, nunca fizeram sexo na vida. Poucas são as que dão a sorte de se apaixonarem por um bom partido que os pais aceitem.

Mas isso está gerando cada vez mais questionamentos nos jovens chineses, essa diferença toda. A questão relacionamentos é apenas uma, mas também podemos ver claramente questões como liberdade financeira, filhos, homossexualidade, leis trabalhistas, machismo… a lista é enorme.

Tenho duas colegas de escritório que já me disseram que gostariam de ser corajosas como eu, se casar por amor e se mudar de país para ter novas experiências, mas enquanto o pai ainda for vivo elas não poderiam, não suportariam a vergonha perante a sociedade. Ao mesmo tempo que o mundo sente a necessidade de quebrar padrões e tabus, que nos expressar e buscar o nosso propósito vem se tornando uma força latente em cada um de nós, a educação chinesa juntamente com a família muito tradicional e o governo ditatorial segura esses jovens dentro das regras ditadas já há tanto tempo.

Todavia vocês devem se perguntar: “Mas ninguém sai da linha? Não tem os mais rebeldes?” Nas cidades maiores como Shanghai, Beijing, Guanzhou, Shenzen até tem, mas ainda esses rebeldes são “na linha”, por assim dizer.

Vocês sabiam que uma mulher solteira que engravida não pode tirar o documento de identidade do filho? Sim, essa criança, se ela optar por ter, não terá registro. Não poderá frequentar a escola e, em teoria, nem hospitais. Isso acontece hoje, não é lei antiga. Conheço famílias que ousaram ter o segundo filho na época que era permitido apenas um, e para preservar o bebê tiveram que se mudar para áreas remotas, pequenas vilas próximas das montanhas, para poderem criar as crianças. Bem distantes dos olhos de qualquer órgão governamental. Para nós isso soa como um absurdo, porque aprendemos de outra forma.

Leia: como você sabe que está adaptado morando na China?

A internet bloqueada na China e a linguagem são barreiras que ainda preservam e muito
os jovens chineses da influência do mundo ocidental, mas eles estão curiosos, discordando ainda que em silêncio por enquanto.

E se engana quem pensa que uma hora eles vão se rebelar. Aqui é tudo devagarinho, não existe confronto direto, especialmente com as figuras de mais poder como pais e chefes. Uma boa parcela das pessoas na faixa dos 30 anos ainda pretende cultivar as tradições, ainda que com menos pressão sobre os filhos.

Mas a pergunta que fica é: será que esses novos jovens serão assim tão rígidos com os filhos deles? Acredito que um novo balanço vai começar a surgir, um pouco do mundo de cá com um pouco do mundo de lá, e os jovens mal podem esperar por esse momento!

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