Transporte público em Portland

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Fonte: https://unsplash.com por Corey Agopian
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Transporte público em Portland.

O transporte público americano é um dos fatores que mais decepcionam no país. Em alguns locais ele é totalmente inexistente. Dependendo do lugar onde se esteja, é fundamental ter um veículo. Em muitos empregos, ter uma carteira de motorista com um bom histórico (sem muitas multas de trânsito, ou excesso de velocidade) é um pré-requisito para poder se candidatar a vaga. Nos centros das grandes cidades, geralmente existem diversos edifícios exclusivos de estacionamento e muitas lojas têm uma grande área externa para oferecer dezenas/centenas de vagas para seus clientes.

O preço da gasolina é subsidiado em mais de 10 bilhões de dólares pelo governo federal. Isto torna o combustível mais barato e motiva as pessoas a terem um carro. Por todos os cantos existem rodovias, tornando o percurso mais rápido e suportando um número maior de veículos. De certa forma, o estilo de vida americano força as pessoas a terem um carro para viver melhor.

Apesar de ter carteira de motorista no Brasil, eu nunca tive muita vontade de dirigir. Acho que passar por quatro provas práticas para tirar a carteira me traumatizou. Além disso, eu sempre consegui me locomover bem usando bicicleta, transporte público, táxi e caronas, mas aqui nos EUA passei por alguns perrengues e experiências interessantes por não dirigir.

Já pedalei de uma cidade a outra por quase uma hora, sendo esta a única forma de chegar lá sem carro. Já paguei quase 200 dólares em um táxi de Nova York até Nova Jersey, pois não havia mais ônibus de madrugada. Também já perambulei descalça num clima quente e úmido com um casal de amigos mochileiros pela rodovia Overseas Highway, nas Floridas Keys. Foi um árduo caminho até encontrar um ponto de referência para chamar um táxi. Já dormi na estação esperando o primeiro metrô da manhã, após uma noitada em Hollywood. Todas essas aventuras tiveram um final feliz e uma narrativa divertida, porque estava viajando com meus amigos na juventude. Mas quando é necessário estudar, trabalhar e ter uma rotina regular, o planejamento do transporte é fundamental.

Quando decidi morar em Portland, um dos motivos que me fez escolher esta cidade foi o bom transporte público oferecido, porque eu não queria dirigir. O sistema de transporte engloba bonde elétrico, teleférico, bicicletas públicas, ônibus e VLT (veículo leve sobre trilhos, um trem leve). A passagem tem dois valores. Por US$2,50 dólares pode-se utilizar qualquer serviço de trânsito no período de duas horas e meia. O passe diário custa US$5,00 dólares e é válido durante o dia inteiro. Ainda há descontos na compra do passe mensal para estudantes, idosos e pessoas com necessidades especiais.

Uber, Lyft (aplicativo similar ao Uber) e táxis também estão presentes em Portland. Recentemente, o serviço de táxi coletivo também está disponível através do Uber Pool e Lyft Line. Assim, os passageiros pagam uma tarifa mais barata por dividir a corrida com outras pessoas que estão indo na mesma direção. Também existem mais de 500 quilômetros de ciclovias em Portland. Estima-se que 7% da população utiliza bicicleta para chegar no trabalho.

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Na minha rotina, eu utilizo diversos tipos de transporte para me locomover na cidade. Quando eu morava no centro, fazia praticamente tudo a pé. Eu só usava o bonde elétrico, gratuito para estudantes, para voltar do mercado. Ao me mudar para um bairro mais distante do centro, comecei a explorar o transporte público.

Para ir à faculdade, eu pegava carona com meu colega de residência e nós dividíamos a taxa de estacionamento na faculdade. Inclusive, esta taxa tem desconto para carros que transportam mais de uma pessoa, incentivando o sistema de caronas. Depois, devido à mudança dos nossos horários, comecei a utilizar o ônibus. Portland não é uma cidade muito espalhada. Para atravessar a cidade de ônibus ou de VLT, leva-se um pouco mais de uma hora.

Da minha casa até a faculdade eu demoro trinta minutos de ônibus. Para ir para o trabalho, eu pedalo menos dez minutos ou faço uma caminhada de vinte minutos. Para sair, eu geralmente vou de ônibus e volto de Uber ou de carona. E no meu bairro eu encontro mercados, restaurantes e um bom comércio caminhando cinco minutos a pé. 

Comparando o Brasil com os EUA, acho que em geral o Brasil está melhor no quesito transporte público. No Brasil, pode-se chegar em praticamente todos os lugares de ônibus, diferente da maioria dos EUA. Além disso, o serviço intermunicipal de ônibus no Brasil é mais confortável e completo. Mas se eu comparar o Rio de Janeiro com Portland, aqui o conforto é maior. As desvantagens são que os ônibus e trens não funcionam 24 horas e não existe linha expressa. Mas pequenos detalhes fazem toda a diferença na comodidade do passageiro.

Primeiro, os ônibus têm um sistema de suspensão que facilita a acessibilidade de pessoas com deficiência. Segundo, como a maioria das pessoas dirige, os ônibus não ficam lotados. Eu sempre vou sentada no aquecedor ou no ar-condicionado, dependendo da estação do ano. Terceiro, o Google Mapas, o aplicativo da empresa de trânsito e um serviço de mensagens de celular informam com precisão os horários das linhas. Quarto, a sinalização e o incentivo a usar itens de segurança como capacetes e lanternas criam um ambiente mais seguro e respeitoso para os ciclistas. Quinto, a cidade é menor e os trajetos são mais rápidos.  

O meu estilo de vida e a cidade onde eu moro me permitem viver sem carro. Eu gastaria mais dinheiro se tivesse que pagar estacionamento, seguro do carro (que nos EUA é obrigatório), gasolina e manutenção. Mas existem muitas cidades americanas onde é necessário ter um veículo. Em geral, são municípios pequenos que não oferecem transporte público ou regiões metropolitanas muito espalhadas como Dallas e Los Angeles.

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Acredito que o bom planejamento urbano de Portland tem um papel fundamental no sucesso do transporte público. O que mais me espantou aqui foi a honestidade das pessoas em relação à tarifa de trânsito. Nos ônibus, é necessário mostrar o passe para o motorista. Mas no VLT e bonde elétrico, não há fiscalização contínua. Eventualmente, em algumas paradas os fiscais pedem o comprovante da tarifa. Mas a franqueza das pessoas é considerada na maior parte do tempo.

Outra iniciativa interessante é a trilha 4T, que tem a finalidade de explorar a cidade através de trilha, teleférico, trolley (bonde elétrico) e trem. Eu já fiz esse trajeto com um grupo de estudantes da faculdade e foi uma experiência única. Em menos de quatro horas pudemos observar a diferença entre um cenário totalmente urbanizado com prédios, trens e muito barulho e um fragmento florestal com árvores, rios e sons de pássaros. O final da trilha (ou o início, pois trata-se de trajeto circular) oferece uma vista panorâmica de Portland.

Foto: Acervo pessoal – Vista panorâmica de Portland na trilha 4T –

Um dos meus objetivos nos EUA é aprender mais sobre planejamento urbano e levar ideias legais como estas para o Brasil. O Rio de Janeiro oferece todas as modalidades de transporte de Portland e ainda tem metrô e barcas. Basta ter criatividade, organização e transparência para garantir mais conforto aos seus cidadãos no trânsito.

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