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Um funeral na Itália

Um funeral na Itália

Esses dias, infelizmente, morreu a avó do meu namorado, que vivia em uma cidadezinha pequena chamada Avella, a 30 quilômetros de Napoli, no sul da Itália. Este texto talvez seja um pouco tétrico, mas resolvi compartilhar com vocês a experiência de uma pessoa que cresceu em São Paulo, uma megalópole frenética, com 13 milhões de habitantes, e que se viu em um velório em uma cidade com pouco mais de 7.500 habitantes, e que trata a morte de uma maneira bem diferente da que já pôde presenciar.

Tudo começou com uma mensagem às 6 horas, que recebi da minha sogra, informando que a Sra. Michelina havia falecido, aos 86 anos. Meu namorado logo levantou da cama e foi à estação central de Roma para pegar o primeiro trem para Napoli. Eu disse que não iria, pois, ao contrário dele, teria que trabalhar – sendo autônoma, se eu não trabalho, eu não ganho. Além do mais, não queria participar de um momento triste assim. Levantei da cama com calma, me vesti e fui para a agência. Pensei: “eu preciso trabalhar, não vou parar a minha vida para ir a um velório”. Mais tarde, conversando com uma colega minha do sul da Itália, ela me disse: “Marina, se você não for vai ficar muito chato, temos tradições que são levadas à risca”. Diante disso, resolvi largar tudo e pegar o primeiro trem para Napoli. Quando cheguei, meu namorado já estava lá me esperando, pegamos a estrada e seguimos para Avella. O que estava por vir eu mal conseguiria imaginar.

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Chegando à casa dos avós do meu namorado, vi um monte de gente parada na porta, era quarta-feira à noite e eu pensei: “bom, toda essa gente saiu do trabalho e veio direto para cá”. Quando entrei na casa, tinha pessoas na sala, na cozinha, no corredor, e ao chegar no quarto vi a sua avó morta na cama, coberta com uma manta branca até a altura do peito e dois pedestais com velas, um de cada lado. Segundo a tradição, assim que uma pessoa chega em um velório, ela deve tocar o morto e fazer o sinal da cruz, mas só descobri depois, quando vi que todos entravam e faziam isso. Eu não tinha feito.

Ao redor da cama, muitas pessoas sentadas em silêncio, estavam ali há horas olhando para aquela pálida senhora na cama. Resolvi sentar ao lado da minha sogra, e todos que entravam davam a mão aos filhos e netos e diziam: “Condoglianze” (meus pêsames). Foram 24 horas com as portas da casa abertas, um vai e vem de gente durante todo o tempo. Claro que eu não estava de madrugada, mas soube que muitos entravam inclusive nessa hora. A casa estava cheia de flores, principalmente nas escadas.

No dia seguinte, chegamos por volta das 9h30 na casa onde estava sendo velado o corpo, e as mesmas pessoas que vi na noite anterior já estavam lá. Achei aquilo incrível. Depois, meu namorado explicou-me que os vizinhos, amigos e parentes pedem um dia, às vezes dois, de licença do trabalho, somente para poder participar de todo o ritual que antecede ao enterro. Imagina isso em São Paulo? Nunca. Quando algum conhecido morre, vamos ao velório, ficamos meia hora, uma hora, e depois voltamos à casa, ou ao trabalho, para o enterro ficam somente os familiares mais próximos.

Pouco depois, chegou o padre da paróquia da cidade para benzer o corpo. Ficamos todos em pé, ao redor da cama, e rezamos. De repente, vi chegar uma Mercedes grande, daquelas longas, com o caixão dentro. E foi quando comecei a ouvir o choro dos filhos e do marido. Eu também comecei a chorar, não porque conhecia muito bem a avó do meu namorado, mas por ver aquela cena triste. O destaque do corpo é o momento mais difícil, pois enquanto a pessoa está lá, deitada, não parece que está morta, até porque antes de morrer, já fazia três anos que ela estava de cama, e sempre dormindo. Eu mesma cheguei a vê-la ainda viva, e agora morta, seu aspecto não tinha mudado em nada.

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Os senhores da morte, como apelidei os homens que trabalhavam para a funerária, começaram a recolher as flores e entraram na casa com o caixão. Não quis ver quando a colocaram dentro. Resolvi esperar do lado de fora. Ao sair, pude notar a presença de uma banda, que no momento em que o caixão, já com o corpo, deixou a casa, começou a tocar músicas tristes. Mais à frente, vi um policial que fechava a rua para que todos fôssemos ao cemitério, a pé, acompanhando o carro pela cidade.

Começamos a caminhada atrás do carro fúnebre, que estava logo atrás da banda fúnebre. Mais ou menos 50 pessoas acompanhavam o cortejo, a passo lento. O policial ia parando os carros, e nós íamos passando. O interessante é que, em sinal de respeito, as lojas fecham a porta de ferro, e as casas as janelas. As pessoas pela rua fazem o sinal da cruz quando o carro passa por elas. Era um dia ensolarado e se podia ouvir o canto dos pássaros entre uma música e outra. Foram 15 minutos andando até chegar à porta do cemitério, momento em que a banda começou a tocar a Marcha Fúnebre de Chopin. Do lado esquerdo, o policial, que havia terminado o seu trabalho, e em sinal de respeito, bateu continência quando o carro passou por ele. Caí aos prantos de novo.

Entramos no cemitério e a música parou. Dirigimo-nos até a capela onde colocaram o caixão sobre duas barras de madeira, e o padre, mais uma vez, celebrou uma pequena missa. Abriram o caixão para um último adeus, e os familiares mais próximos seguiram na sua direção. O marido, um senhor de 90 anos, foi o último, olhava incrédulo aquela cena. Não deve ser fácil perder a companheira de vida depois de 65 anos juntos.

Depois disso os “senhores da morte” entraram para lacrar o caixão, e prosseguimos até o túmulo, que parecia um prédio. A última casa daquela senhora seria o terceiro andar de seis, e antes de fechar com tijolos e mármore, o funcionário do cemitério perguntou aos familiares: “Posso fechar?”. Todos, sem dizer uma palavra, apenas anuíram abaixando o olhar.

No final, fiquei feliz por ter ido, por estar ao lado do meu namorado e da sua família nessa hora tão difícil. Além disso, teria me arrependido se não tivesse ali, até porque, no sul da Itália, ainda mais em uma cidade pequena, não ir a um funeral é um desrespeito à família. No velório, coloca-se, inclusive, um livro de registro de presença, e todos os presentes deixam seu nome e sobrenome.

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