Uma brasileira na Força Aérea Americana

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Você sabia que há uma brasileira na Força Aérea Americana? E mais ainda, há uma paulistana, que hoje já é capitã e chefe de laboratório biomédico na base americana de Oahu- Havaí?  Apresento-lhes a capitã Karina Jameson, que nos conta um pouco sobre sua trajetória.

BPM – Como você ingressou na Força Aérea Norte Americana?

KJ: Eu estava fazendo umas aulas no Community College perto da minha casa de biologia e química. Gostava muito de ciências criminais, mas não sabia como entrar para essa área. Conversei com várias pessoas na faculdade e me indicaram um programa de laboratório que talvez pudesse me ajudar a arrumar um emprego em investigação criminal.

Transferi minhas aulas para uma universidade e me formei em Clinical Laboratory Science. Comecei a trabalhar em um laboratório de fertilização, mas sabia que não era isso que eu queria fazer para o resto da minha vida. Na área de laboratório no ramo civil não existe muitas oportunidades para avançar profissionalmente. Geralmente temos que esperar alguém aposentar ou morrer para poder subir de cargo. Então decidi mudar de rumo totalmente e seguir um sonho que tinha desde criança no Brasil, seguir a carreira militar.

Como estava insatisfeita, decidi ligar para um recruta da forca aérea e me informar sobre o ramo de laboratório. Uma coronel do Alaska esclareceu as minhas dúvidas e criei coragem para me alistar. Foi uma ótima oportunidade para sair de Chicago, onde morava, porque odiava o frio e as pessoas de lá. A minha primeira base foi em Ohio, onde fiquei por quatro anos (infelizmente ainda era no meio-oeste americano). Depois fomos para Turquia por dois anos, onde me apaixonei pela cultura e pelo povo, e hoje moro no Havaí. Ainda não sei para onde vou depois daqui, mas espero que seja um lugar bom para minha família e longe do meio-oeste!

BPM – Você percebe diferença no tratamento em relação às mulheres dentro das forças armadas?

KJ: Como trabalho na área médica, tem muito mais mulheres do que homens, então não percebo discriminação por causa de sexo. Mas têm outras carreiras que são predominantemente masculinas e sei que existe uma diferença e dificuldade para as mulheres que trabalham nelas. Em Ohio a comandante da base toda era uma mulher. Eu tive a oportunidade de tomar café com ela, e me admirei muito com o jeito que ela falava e se comportava. Não achei que ela se sentia intimidada pelos homens que trabalhavam para ela. Acho que nas forcas armadas a mulher tem que ter uma personalidade forte para poder enfrentar qualquer situação e talvez discriminação. Sei que em algumas carreiras, mulheres não são permitidas a trabalhar, mas recentemente o Navy (Força Naval) mudou as suas regras. Hoje as mulheres podem servir num submarino junto com os homens! Antigamente não eram permitidas.

BPM – Como é ser latina e brasileira na sua área?

KJ: Não acho que há diferença por eu ser latina. Tem muitos latinos que entram para as forcas armada para conseguirem o Green Card, então a população de estrangeiro é muito grande. Sou chefe do laboratório e da radiologia. Somos em nove pessoas, e destas nove, quatro são estrangeiros. Dependendo da língua que somos fluentes, recebemos um pagamento extra se conseguimos uma alta nota no teste de idiomas. Isso é um dos benefícios de ser brasileira!

BPM – Conte um fato marcante na sua carreira.

KJ: A experiência mais interessante da minha carreira foi ser jurada num caso de estupro. Éramos 5 jurados e eu era a única mulher do grupo. Ficamos nesse julgamento por 5 dias e a maior parte desses 5 dias foi o depoimento da mulher que dizia que foi estuprada. Isso aconteceu na Turquia e como a base era muito pequena e todos nós morávamos lá dentro, eu sempre cruzava com o homem (acusado) e a esposa dele em todos lugares.  (mercado, academia, etc.). Era uma situação muito desconfortável.

O UCMJ (Uniformed Code of Military Justice) ou corte militar, funciona diferente da corte civil. Na corte militar não é preciso ter um voto unânime. O que conta é o voto da maioria. Não me senti intimidada por ser a única mulher entre homens de patente mais altas do que a minha. Fui muito objetiva e tentei mostrar o meu ponto de vista. Infelizmente nunca vamos saber se o estupro aconteceu ou não, só os dois envolvidos neste caso sabem da verdade. A área desses dois é super pequena e tem muito mais homens do que mulheres. Sei que será muito difícil para a mulher continuar trabalhando nesse ramo, sendo que hoje todos dessa área provavelmente sabem sobre o julgamento.

BPM – O que você diria a quem pensa em ingressar nas forças armadas americanas?

5) Agradeço muito à força aérea pelas oportunidades que tive e continuo tendo. Nunca teria morado na Turquia e vivido dois anos tão felizes. Provavelmente não teria a oportunidade de morar no Havaí e curtir essas ilhas maravilhosas. Acho uma excelente experiência de vida para os meus filhos. Sei que é difícil para eles mudarem de casa tão frequentemente e largar tudo para trás de 3 em 3 anos. Espero que eles reconheçam lá na frente tudo que fiz e faço por eles.

Não tenho experiência de “soldados” pois sou uma oficial. Mas sei que não é fácil para eles. Acho que as forças armadas dão muitas oportunidades, não só cultural e de vida, mas também profissionalmente. Todos nós recebemos vários treinamentos que no ramo civil seriam caríssimos. Sei que muitos “soldados” entraram para a forca aérea pois estavam em situações de risco. Muitos já me disseram que, ou estariam mortos, ou perdidos na vida, se não fosse a forca aérea.

Não é um trabalho para qualquer um. Temos que ter um “backbone” como dizem os americanos. A estrutura militar não é fácil. O esquema de hierarquia pode ser bem complicado se você tem um superior que não é um verdadeiro líder.

Penso muito em sair, pois têm varias coisas que não concordo. Mas depois penso como era trabalhar no ramo civil e logo mudo de ideia novamente. Gosto das aventuras e desafios, mas odeio a parte “política” do trabalho.

Não aconselho meus filhos a entrarem para as forças armadas, pois acho que existem outras oportunidades mais “livres” fora delas.  Mas o principal motivo é porque acho difícil  sair depois que entramos. Principalmente porque os benefícios são muito bons comparados com qualquer outro plano civil. Aos 50 anos de idade estarei aposentada, recebendo um salário razoável, com um plano de saúde para o resto da vida e  direito a voar em aviões militares para qualquer lugar do mundo, de graça!

Quem se interessar mais sobre a Força Aérea Americana, segue link aqui.

2 Comentários

  1. Com muito orgulho posso dizer que tenho duas filhas prontas pra enfrentarem os padrões machistas, que apesar de estarmos no século XXI não mudou muito o modo e a forma de tratarem as mulheres.
    Mais um excelente texto com esse depoimento exclusivo contando um pouco de sua experiência.
    Parabéns mulheres guerreiras que demonstram que existe esperança de um mundo sem tantos preconceitos.

  2. Parabéns Karina
    Vc já nasceu com objetivo é determinação.
    Personalidade (das Pereira) que só nos conhecemos.
    Deus te Ilumine sempre.

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